{"id":5675,"date":"2015-10-30T10:07:14","date_gmt":"2015-10-30T13:07:14","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5675"},"modified":"2015-10-30T10:07:14","modified_gmt":"2015-10-30T13:07:14","slug":"memorias-da-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2015\/10\/30\/memorias-da-cidade\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias da cidade"},"content":{"rendered":"<p>Fim de tarde em Massap\u00ea. Sentados na cal\u00e7ada desfrut\u00e1vamos da brisa que soprava, ainda meio quente, enquanto, sob o contorno da serra da Meruoca, observ\u00e1vamos os \u00faltimos raios do sol a projetarem sombras bruxuleantes por entre as colinas. Um convite \u00e0 conversa. E era exatamente o que faz\u00edamos. Convers\u00e1vamos.<\/p>\n<p>O h\u00e1bito t\u00e3o salutar e enriquecedor das conversas na cal\u00e7ada, j\u00e1 muito raros para quem mora numa cidade como Fortaleza, no interior ainda se mant\u00e9m vivo. Fala-se de tudo nesse momento ao qual se pode creditar, inclusive, o valor de fator agregador das fam\u00edlias. Porque ali emergem mem\u00f3rias de h\u00e1 muito olvidadas, trazendo \u00e0 tona fatos at\u00e9 ent\u00e3o desconhecidos, especialmente pelas gera\u00e7\u00f5es mais novas.<\/p>\n<p>Fala-se bastante, tamb\u00e9m, das mem\u00f3rias da cidade. Muitas mem\u00f3rias, em que. cabem fatos, pessoas, lugares, uma infinidade de motivos para muitos assuntos. Pois foi na aludida conversa \u00e0 cal\u00e7ada &#8211; um aut\u00eantico encontro de gera\u00e7\u00f5es, do qual participavam este que vos escreve, seus pais, quase octogen\u00e1rios, irm\u00e3s, cunhados e sobrinhos &#8211; que veio \u00e0 baila uma provoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fal\u00e1vamos dos tipos pitorescos da cidade, alguns totalmente desconhecidos para os mais jovens, mas nunca apagados da lembran\u00e7a dos mais velhos. Porque toda cidade que se preze deve necessariamente ter, pelo menos, um tipo bem peculiar, com h\u00e1bitos e caracter\u00edsticas muito especiais, que o particularizam e o fazem sobressair dentre a massa de habitantes. Esses tipos, com o tempo, conseguem impregnar de tal forma o lugar onde fazem suas perip\u00e9cias, que acabam por ser incorporados \u00e0 mem\u00f3ria coletiva. Tornam-se, eles pr\u00f3prios, um s\u00edmbolo.<\/p>\n<p>Pois bem, enquanto convers\u00e1vamos sobre alguns desses tipos, um sobrinho de pouco mais de vinte anos, que desconhecia totalmente as figuras mencionadas, comentou, surpreso, que n\u00e3o imaginava que Massap\u00ea tivesse figuras t\u00e3o interessantes. A essa observa\u00e7\u00e3o, veio a provoca\u00e7\u00e3o: \u201cCabe a voc\u00ea, tio, registrar essas mem\u00f3rias, escrever essas hist\u00f3rias para que elas n\u00e3o se percam\u201d. Pego de surpresa, n\u00e3o esbocei nenhuma atitude, evitando dizer um sim ou um n\u00e3o ao desafio.<\/p>\n<p>Dois dias depois, l\u00e1 estava eu escarafunchando uma de minhas estantes em busca de alguns livros do escritor Milton Dias, uma figura admir\u00e1vel e sens\u00edvel que, ao longo de muitos anos, dedicou-se ao mister de registrar, nas belas e inspiradas cr\u00f4nicas publicadas no O Povo, muitas de suas mem\u00f3rias de menino egresso do interior.<\/p>\n<p>Reler Milton Dias, motivado pela provoca\u00e7\u00e3o feita por meu sobrinho, me fez pensar o quanto os que t\u00eam algum talento no manejo da pena s\u00e3o respons\u00e1veis pela mem\u00f3ria de suas cidades, mem\u00f3ria essa constitu\u00edda por fatos e pessoas que, uma vez inscritos no imagin\u00e1rio coletivo, precisam ser eternizadas pela escrita, pois os mais velhos desaparecem, mas a palavra escrita permanece.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fim de tarde em Massap\u00ea. 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