{"id":5684,"date":"2015-12-15T09:50:07","date_gmt":"2015-12-15T12:50:07","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5684"},"modified":"2015-12-15T09:50:07","modified_gmt":"2015-12-15T12:50:07","slug":"uma-possivel-alegria-de-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2015\/12\/15\/uma-possivel-alegria-de-natal\/","title":{"rendered":"Uma poss\u00edvel alegria de Natal"},"content":{"rendered":"<p>\u00daltima reuni\u00e3o de trabalho do ano. Conclu\u00eddo o planejamento para 2016, veio \u00e0 baila o \u00faltimo assunto da pauta: a confraterniza\u00e7\u00e3o de Natal. Al\u00e9m de providenciar uma torta doce, deram-me a incumb\u00eancia de levar uma mensagem para ser lida na ocasi\u00e3o. Ali mesmo me veio \u00e0 mente uma cr\u00f4nica do Rubem Braga, publicada no que \u00e9 para mim um dos livros prediletos do autor, \u201cA borboleta amarela\u201d. Chegando em casa, tratei de reler a cr\u00f4nica. Uma d\u00favida enorme me acometeu: deveria ler aquele texto? Intitulado \u201cNatal\u201d, ele fala da solid\u00e3o de um homem sozinho diante de um copo de u\u00edsque; aquela avassaladora solid\u00e3o c\u00f3smica, que, paradoxalmente, muita gente experimenta nessa que deveria ser uma noite de alegria e celebra\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Enquanto me debatia com a d\u00favida, recordei outra cr\u00f4nica, igualmente natalina. Esta, por sua vez, da autoria de Carlos Drummond. Diferentemente da anterior, nela o autor transmite uma mensagem de esperan\u00e7a e cren\u00e7a na humanidade. O problema \u00e9 que est\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil sustentar essa cren\u00e7a, especialmente para quem, sendo brasileiro, vive um momento que tem visto serem vilipendiados os mais comezinhos princ\u00edpios que fundamentam o Estado Democr\u00e1tico de Direito. \u00c9tica \u00e9 uma palavra que parece ter sido definitivamente riscada do vocabul\u00e1rio dos que gerem o destino da na\u00e7\u00e3o, na condi\u00e7\u00e3o de representantes pol\u00edticos. O respeito pela dignidade da pessoa humana \u00e9 o que menos conta, num jogo de interesses mesquinhos e inescrupulosos, levando o povo brasileiro a uma grande inseguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Em que pese o inevit\u00e1vel pessimismo, creio que temos a obriga\u00e7\u00e3o \u00e9tica de acreditar e apostar na esperan\u00e7a. Movido por essa premissa, depois de reler \u201cOrganiza o Natal\u201d, a cr\u00f4nica do Drummond, decidi que seria esse o texto que levaria para a confraterniza\u00e7\u00e3o. Curiosamente, ao sentar ao bir\u00f4 para escrever este artigo, de repente lembrei de outra situa\u00e7\u00e3o em que, provavelmente, o protagonista experimentou algo semelhante. Refiro-me a um conto de Natal da autoria de Moreira Campos, originalmente publicado no O Povo de 27.12.1992, republicado em 2013 no livro \u201cPorta de Academia\u201d. Conclu\u00eddo o conto, de teor n\u00e3o muito otimista, escreveu Moreira Campos: \u201cMas como \u00e9 Natal e para atenuar a dureza do miniconto, citemos estes versos de Carlos Drummond de Andrade: Menino, pe\u00e7o-te a gra\u00e7a\/ de n\u00e3o fazer mais o poema de Natal\/ Um, dois ou tr\u00eas ainda passa&#8230;\/ Industrializar o tema, eis o mal\u201d.<\/p>\n<p>Repetindo o gesto do saudoso escritor cearense, concluo com um trecho da mencionada cr\u00f4nica de Drummond, desejando a um eventual leitor um pouco de merecida alegria neste Natal: \u201cO trabalho deixar\u00e1 de ser imposi\u00e7\u00e3o para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdi\u00e7\u00e3o desses incans\u00e1veis trabalhadores, que s\u00e3o os l\u00edrios do campo. Sal\u00e1rio de cada um: a alegria que tiver merecido\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00daltima reuni\u00e3o de trabalho do ano. 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