{"id":5706,"date":"2016-03-07T09:18:13","date_gmt":"2016-03-07T12:18:13","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5706"},"modified":"2016-03-07T09:18:13","modified_gmt":"2016-03-07T12:18:13","slug":"ingenuidade-necessaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2016\/03\/07\/ingenuidade-necessaria\/","title":{"rendered":"Ingenuidade necess\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p>Sob os influxos do odor e sabor de uma fumegante x\u00edcara de caf\u00e9, lia, no in\u00edcio dessa semana, um trecho daquele que foi o livro de estreia de Emil Cioran, no qual, com a veem\u00eancia e beleza que apenas se intensificariam em seus escritos a partir de ent\u00e3o, afirma o estreante fil\u00f3sofo romeno de vinte e dois anos: \u201cNem todas as pessoas perderam a ingenuidade; por isso, nem todas s\u00e3o infelizes. Quem viveu ou vive assimilado, ing\u00eanuo, na exist\u00eancia, n\u00e3o por burrice ou imbecilidade \u2013 pois a ingenuidade exclui tais defici\u00eancias, sendo ela um estado muito mais puro \u2013 mas por um amor instintivo e org\u00e2nico pela gra\u00e7a natural do mundo que a ingenuidade sempre acaba descobrindo, atinge uma harmonia e realiza uma tal integra\u00e7\u00e3o na vida que merece ser invejada ou ao menos apreciada pelos que se perdem nos cumes do desespero. Desintegrar-se da vida corresponde a uma perda total da ingenuidade, esse dom encantador que o conhecimento, inimigo declarado da vida, destruiu\u201d (Nos cumes do desespero. Trad. do romeno por Fernando Klabin. Apresenta\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Thomaz Brun. \u2013 S\u00e3o Paulo: Hedra, 2011, p. 60).<\/p>\n<p>Desde que li Silogismos da amargura e Brevi\u00e1rio de decomposi\u00e7\u00e3o, no in\u00edcio dos anos noventa, tenho retornado com frequ\u00eancia a Cioran. Leio e releio trechos de seus livros sempre com renovado prazer. Por isso passei anos aguardando ansiosamente que n\u00f3s, leitores brasileiros admiradores de sua obra, tiv\u00e9ssemos acesso ao seu livro de estreia em tradu\u00e7\u00e3o para a l\u00edngua portuguesa. Quando isso, enfim, aconteceu, a publica\u00e7\u00e3o n\u00e3o mais saiu do meu bir\u00f4.<\/p>\n<p>O contato com o pensamento de Cioran, esse \u201cc\u00e9tico de plant\u00e3o de um mundo agonizante\u201d, nos obriga a refletir sobre aquela que talvez seja a quest\u00e3o mais premente com que se defronta qualquer ente humano: o sentido da vida. For\u00e7a-nos, igualmente, a sopesar os limites de consci\u00eancia admiss\u00edveis e necess\u00e1rios a uma boa frui\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia. N\u00e3o se trata de abdicar do desejo de saber. Quem poder\u00e1 garantir que o almejado sentido n\u00e3o se restrinja, exatamente, a essa incessante busca? Devemos pensar a vida, evidentemente, mas \u00e9 igualmente necess\u00e1rio que vivamos. Se assim \u00e9, demos uma chance, por m\u00ednima que seja, \u00e0 esperan\u00e7a de que viver valha a pena. Resguardemos uma margem de incerteza que nos permita a aposta na batalha, mesmo correndo o risco da derrota.<\/p>\n<p>Creio ser prov\u00e1vel que um n\u00edvel exacerbado de lucidez seja incompat\u00edvel com a vida. Urge, pois, que se preserve certa quota de ingenuidade \u2013 de inconsci\u00eancia, talvez \u2013 sob pena de sermos lan\u00e7ados num verdadeiro abismo sem fundo, precipitando-nos numa falta de sentido em que viver se torna impratic\u00e1vel. Talvez a premissa sob a qual pautar a vida deva ser n\u00e3o menos que essa: se em algum momento da exist\u00eancia suspeitarmos que a vida n\u00e3o tem sentido, tratemos imediatamente de inventar-lhe um.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sob os influxos do odor e sabor de uma fumegante x\u00edcara de caf\u00e9, lia, no in\u00edcio dessa semana, um trecho daquele que foi o livro&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[115,161,166,268,400],"class_list":["post-5706","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-05-na-soleira-do-partenon","tag-cioran","tag-e-m-cioran","tag-emil-cioran","tag-lucidez","tag-sentido-da-vida"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5706","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5706"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5706\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5706"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5706"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5706"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}