{"id":5715,"date":"2016-04-13T22:45:58","date_gmt":"2016-04-14T01:45:58","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5715"},"modified":"2016-04-13T22:45:58","modified_gmt":"2016-04-14T01:45:58","slug":"uma-antologia-de-maravilhosas-tralhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2016\/04\/13\/uma-antologia-de-maravilhosas-tralhas\/","title":{"rendered":"Uma antologia de maravilhosas tralhas"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #800080\"><em>A lenda do homem que vende sua alma ao diabo sempre foi muito comentada em todo o mundo. A terra na qual ela mais se difundiu, no entanto, foi a Alemanha. Considerada o ber\u00e7o das bruxas desde a Idade M\u00e9dia, foi ali que surgiu o primeiro Fausto conhecido na hist\u00f3ria da Europa. Trata-se de Georg Faust que nasceu em Knittlingen, no s\u00e9culo XV. Tendo feito um trato com o dem\u00f4nio para este servi-lo durante vinte e quatro anos, Georg Faust viveu durante todo este tempo nababescamente, at\u00e9 que morreu em meados do s\u00e9culo XVI e, finalmente, segundo a lenda, foi para o Inferno servir \u00e0quele que durante tanto tempo o serviu e protegeu. Desde menino, portanto, que Johann Wolfgang Goethe ouvia contar esta e outras hist\u00f3rias sobre o Fausto de Knittlingen e, quando se tornou adulto, resolveu transformar o Georg Faust dos s\u00e9culos XV e XVI em um de seus personagens. Assim nasceu o famoso Fausto de Goethe que, dividido em duas partes, at\u00e9 hoje encanta seus leitores por causa da ang\u00fastia intelectual do personagem e da beleza do poema.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>Natal\u00edcio Barroso<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">[<strong>Barroso, Natal\u00edcio. A tralha grega e outras tralhas<\/strong>.- 1\u00aa ed. Fortaleza: Smile Editorial, 2012, p. 117].<\/span><\/p>\n<p><em>A tralha grega e outras tralhas<\/em>\u00a0inscreve-se numa categoria de livros cujo t\u00edtulo, por si s\u00f3, j\u00e1 \u00e9 suficiente para deixar qualquer leitor sequioso por folhe\u00e1-lo, no m\u00ednimo, para desvendar-lhe o sentido. \u00a0Afinal, o que \u00e9 uma tralha grega?, indagar\u00e1 qualquer\u00a0 leitor que, mesmo que de relance, pouse os olhos sobre a capa da publica\u00e7\u00e3o. E quanto \u00e0s outras tralhas, o que seriam? Pois \u00a0foi exatamente o que me aconteceu: t\u00e3o logo \u00a0o tive pela primeira vez em m\u00e3os, senti-me movido por grande curiosidade para saber o que ocultava-se num t\u00edtulo t\u00e3o singular.<\/p>\n<p>Bastou-me abri-lo para que o enigma come\u00e7asse a ser desvelado.\u00a0As tralhas gregas a que se refere o autor inscrevem-se entre as maiores obras da literatura helenista: a <em>Il\u00edada<\/em> e a <em>Odisseia<\/em>, de Homero, e <em>Eneida<\/em>, de Virg\u00edlio. Quanto \u00e0s outras tralhas, trata-se da <em>Divina Com\u00e9dia<\/em>, de Dante Alighiere, e do que o autor denomina \u201cOutras Com\u00e9dias Divinas\u201d: o <em>Para\u00edso Perdido<\/em>, de John Milton, o <em>Fausto<\/em>, de Johann Wolfgang Goethe, e <em>Os Lus\u00edadas<\/em>, de Lu\u00eds de Cam\u00f5es.<\/p>\n<p>Ao longo das 159 p\u00e1ginas que comp\u00f5em a publica\u00e7\u00e3o, ao leitor \u00e9 dada a oportunidade de conhecer sucintamente o enredo de cada uma dessas obras. Detentor de uma prosa fluente e agrad\u00e1vel, aliada a uma excelente capacidade de concis\u00e3o, o autor, Natal\u00edcio Barroso, proporciona ao leitor de <em>A tralha grega e outras tralhas<\/em>\u00a0a oportunidade de acesso a sete das maiores obras da literatura universal. Em que pese o car\u00e1ter sint\u00e9tico da narrativa, nem por isso pode-se dizer que tenha qualquer das obras sofrido perdas devido a eventuais omiss\u00f5es ou supress\u00f5es. De fato, \u00e9 invej\u00e1vel a capacidade de Natal\u00edcio Barroso de ser sint\u00e9tico sem que, por isso, se descuide de detalhes importantes que, se omitidos, causariam danos ao entendimento do leitor ou infidelidade a qualquer dos autores.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o para o t\u00edtulo, bastante criativo, assim a explica N\u00edcolas Cordebar, na Apresenta\u00e7\u00e3o: \u201cA ideia de intitular este trabalho de <em>Tralha grega e outras tralhas<\/em>, por sua vez, surgiu no dia em que Natal\u00edcio, lendo um livro de Antonio Candido, <em>Forma\u00e7\u00e3o da literatura brasileira<\/em>, deparou com uma frase do cr\u00edtico paulista sobre o poeta Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga. Disse Antonio Candido que Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga foi o \u00fanico escritor brasileiro (apesar de ter nascido em Portugal) que abandonou a \u00b4tralha mitol\u00f3gica\u00b4 e apresentou Mar\u00edlia, personagem principal de <em>Mar\u00edlia de Dirceu<\/em>, como uma noiva qualquer, de carne e osso\u201d (p. 11).<\/p>\n<p>Natal\u00edcio Barroso trabalhou de 1985 a 1994 no Instituto Municipal de Arte e Cultura \u2013 RioArte, no Rio de Janeiro. Ali participou da equipe que editava primeiro o jornal Letras e Artes e, depois, o jornal RioArte. \u00a0Representou o RioArte, v\u00e1rias vezes, no ch\u00e1 das cinco promovido toda quinta-feira pela Academia Brasileira de Letras. Nessas ocasi\u00f5es, fez entrevistas com o ent\u00e3o presidente da ABL, Austreg\u00e9silo de Athayde. \u00a0Promoveu tamb\u00e9m um projeto intitulado Poesia Passageira, no qual foram afixados cartazes com poemas de autores brasileiros, todos de dom\u00ednio p\u00fablico, nos \u00f4nibus do Rio de Janeiro, nas barcas, nos trens e na entrada dos metr\u00f4s. De 1995 a 1999, transferido para a Funda\u00e7\u00e3o Biblioteca Nacional, Natal\u00edcio trabalhou no Jornal das Bibliotecas e participou da equipe que organizaou, no Sal\u00e3o Nobre da FBN, uma exposi\u00e7\u00e3o sobre a vida e a obra de Cruz e Sousa. De 2000 a 2004, trabalhou na Funda\u00e7\u00e3o de Cultura, Esporte e Turismo de Fortaleza \u2013 Funcet. \u00a0Respons\u00e1vel pelo projeto intitulado Vamos Ler, Natal\u00edcio publicou o Jornal Paje\u00fa \u00a0e um livrinho de entrevistas com artistas brasileiros e cearenses chamado Edi\u00e7\u00f5es Paje\u00fa. Autor de v\u00e1rios livros, Natal\u00edcio tamb\u00e9m tem se dedicado a fazer palestras sobre v\u00e1rios escritores da literatura universal em escolas e universidades.<\/p>\n<p>Ao concluir <em>A tralha grega e outras tralhas<\/em>, Natal\u00edcio Barroso brinda o leitor com um bel\u00edssimo poema intitulado <em>Zeus<\/em>, em que tra\u00e7a um maravilhoso e significativo paralelo entre o deus grego e Jesus Cristo, do qual destaco o seguinte trecho:<\/p>\n<p><em>Pregado em uma cruz (o seu \u00fanico trono),\/foi por este Deus que a humanidade\/desviou de mim os olhos\/para p\u00f4r sobre Ele toda a esperan\u00e7a\/que eu, com meus raios e trov\u00f5es\/n\u00e3o consegui lhe dar.\/Foi para este Deus morto\/e n\u00e3o para mim, que nunca morri\/que ela resolveu rezar e acreditar.\/As entranhas dos animais selvagens, portanto,\/foram abandonadas\/e, com elas, o voo das \u00e1guias\/e os sacrif\u00edcios humanos destinados, muitas vezes,\/a aplacar a minha f\u00faria\/(ou a de algum de meus filhos)\/quando as regi\u00f5es normalmente verdes e exuberantes da terra\/ eram tomadas pela seca\/ ou por algum outro tipo de calamidade.\/Aqui estou eu, portanto,\/adorando a este outro Deus no Olimpo\/ que, como eu, tamb\u00e9m est\u00e1 ajoelhado aos p\u00e9s do Calv\u00e1rio\/porque foi ali que este Deus foi crucificado\/e, com Ele,\/toda a humanidade que acreditava em mim\/e, hoje, ressuscitada, acredita nEle.\/ Nele que, com seu sangue,\/e n\u00e3o sua espada,\/venceu os outros deuses\/e aqui est\u00e1, no meio de n\u00f3s,\/sem que nenhum de n\u00f3s tenha sido torturado\/por Ele.<\/em> (p. 154).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A lenda do homem que vende sua alma ao diabo sempre foi muito comentada em todo o mundo. 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