{"id":5726,"date":"2016-05-26T18:29:37","date_gmt":"2016-05-26T21:29:37","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5726"},"modified":"2016-05-26T18:29:37","modified_gmt":"2016-05-26T21:29:37","slug":"o-rosto-humano-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2016\/05\/26\/o-rosto-humano-de-deus\/","title":{"rendered":"O rosto humano de Deus"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\">Ou Deus evitava a cria\u00e7\u00e3o, trancando-se em seu ego\u00edsmo e sua solid\u00e3o, ou aceitava a ideia de seres que n\u00e3o podiam ser iguais ao Ser. Criatura, por defini\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se confunde com o Criador. \u00c9 pequenina e fr\u00e1gil. Deus n\u00e3o tinha corpo como n\u00f3s. Mas o Filho de Deus teve a boa ideia de fazer-se homem e ter natureza humana (corpo e alma), como qualquer um de n\u00f3s.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Dom H\u00e9lder C\u00e2mara<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">(<strong>Circulares p\u00f3s-conciliares: de 25\/26 de fevereiro de 1968 a 30\/31 de dezembro de 1968<\/strong> \/ <strong>Dom H\u00e9lder C\u00e2mara<\/strong>; orgs. Zindo Rocha , Daniel Sigal. &#8211; Recife: Cefe, 2013; v. 4., t. 2., p. 133.)<\/span><\/p>\n<p>O meu fasc\u00ednio pela figura de Dom H\u00e9lder C\u00e2mara n\u00e3o \u00e9 recente. H\u00e1 muitos anos aprendi a admir\u00e1-lo, sobretudo por sua coragem na defesa dos mais pobres e esquecidos, v\u00edtimas de uma sociedade segregacionista e injusta.<\/p>\n<p>Mais recentemente, por\u00e9m, tenho descoberto novas facetas desse personagem extraordin\u00e1rio. Tais descobertas t\u00eam feito crescer em mim o desejo de conhecer melhor e com mais profundidade a vida e a obra de Dom H\u00e9lder. Movido por tal anseio, tenho me dedicado mais e mais \u00e0 leitura das suas circulares conciliares e p\u00f3s-conciliares, publicadas em treze volumes pelo Instituto Dom H\u00e9lder C\u00e2mara em parceria com o Governo do Estado de Pernambuco.<\/p>\n<p>Pois bem; lendo, segunda-feira passada, um desses volumes, me deparei com um texto encantador, escrito entre os dias 12 e 13 de junho de 1968, por ocasi\u00e3o da \u201cVig\u00edlia da Festa do Corpo de Deus\u201d. T\u00e3o logo o li, pensei: vou escrever um coment\u00e1rio sobre este texto, j\u00e1 que na pr\u00f3xima quinta-feira celebra-se a Festa de Corpus Christi. \u00c9 o que passo a fazer agora.<\/p>\n<p>Comecemos pelo trecho que citei acima, em ep\u00edgrafe. Valendo-se de um artif\u00edcio muito sofisticado, o Dom abre seu texto falando do que poderia ser um ego\u00edsmo da parte de Deus se tivesse evitado a cria\u00e7\u00e3o e se isolado, caso n\u00e3o aceitasse a ideia de criaturas que n\u00e3o poderiam ser iguais ao Ser. Eis, por\u00e9m, que o Seu Filho resolve fazer-se homem. Note-se que, sem usar a palavra amor, o Dom se refere aqui, de forma insofism\u00e1vel, ao amor de Deus, que enviou Seu Filho para redimir o mundo. Nisso, o bispo de Olinda revela uma grande sutileza e sofistica\u00e7\u00e3o. E tamb\u00e9m uma surpreendente novidade: a ideia de encarnar, ele a atribui ao Filho, n\u00e3o ao Pai.<\/p>\n<p>A seguir, o Dom nos faz lembrar caracter\u00edsticas assumidas pelo Filho de Deus que o fazem, verdadeiramente, humano. Tal humanidade, entretanto, n\u00e3o ofusca, nem, tampouco, invalida sua dimens\u00e3o divina: \u201cQue grande e belo exemplo, Deus que se faz homem, tornando-se capaz de entender pessoalmente, diretamente a fragilidade humana! A divindade, claro, n\u00e3o o abandonou. Mas sente-se que ela se apagava, se escondia, ficando o Filho de Deus, quase sempre entregue \u00e0 humanidade que assumiu. Sentiu cansa\u00e7o, fome, tristeza, ang\u00fastia, ideia de abandono pelos amigos e pelo pr\u00f3prio Pai&#8230;\u201d<\/p>\n<p>No par\u00e1grafo seguinte, vem um toque que s\u00f3 poderia emanar mesmo da pena de Dom H\u00e9lder: \u201cCom absoluto respeito e entre crist\u00e3os adultos: que humildade, Deus aceitar a condi\u00e7\u00e3o de alimentar-se e, consequentemente, desfazer-se dos dejetos da alimenta\u00e7\u00e3o!&#8230; Deus que entende pessoalmente, diretamente a condi\u00e7\u00e3o sub-humana de milh\u00f5es de criaturas que n\u00e3o t\u00eam meio decente de satisfazer as imperiosas necessidades fisiol\u00f3gicas!&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Note-se a perspic\u00e1cia e o cuidado demonstrado por ele ao introduzir um assunto que a muitos crist\u00e3os dados a certas carolices pode soar como verdadeira blasf\u00eamia. Antes de referir que Cristo era t\u00e3o humano que tinha, inclusive, necessidades fisiol\u00f3gicas, ele usa a express\u00e3o \u201cCom absoluto respeito\u201d. A seguir, se sai com palavras de grande perspic\u00e1cia: \u201ce entre crist\u00e3os adultos\u201d. Palavras certeiras que atingem diretamente as v\u00edtimas de uma espiritualidade infantil e desvirtuada, lamentavelmente t\u00e3o comum entre n\u00f3s cat\u00f3licos.<\/p>\n<p>Nos dois par\u00e1grafos finais do belo texto, o Dom ataca uma quest\u00e3o delicad\u00edssima e muito mal resolvida entre uma boa parcela do mundo cat\u00f3lico: a sexualidade. Embora ele inicie o par\u00e1grafo se reportando \u00e0 coragem do Filho de Deus, corajoso mesmo foi ele, um arcebispo, representante da hierarquia cat\u00f3lica, arriscar-se a tratar do assunto de forma t\u00e3o simples e aberta, sem nenhum tabu: \u201cQue coragem e que humildade, o Filho de Deus enfrentar o farisa\u00edsmo de todos os mil\u00eanios e receber corpo \u00edntegro, inclusive com \u00f3rg\u00e3o sexual! Os que t\u00eam a carne como simples sin\u00f4nimo de sexo e t\u00eam o sexo como sin\u00f4nimo de pecado nem conseguem imaginar sexo no Homem-Deus. A Sagrada Escritura, no entanto, nos fala da Circuncis\u00e3o. A Igreja, durante s\u00e9culos, a festejou no primeiro dia do ano.<\/p>\n<p>\u201cNo Calv\u00e1rio, Cristo aceitou ficar completamente despido. H\u00e1 pinturas que o mostram assim. A piedade crist\u00e3, para evitar o choque da maioria, cobriu as partes, chamadas vergonhosas, do Salvador&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u00c0 guisa de conclus\u00e3o, o Dom nos deixa uma senten\u00e7a que \u00e9 uma verdadeira provoca\u00e7\u00e3o para muitos dos que se dizem professantes do cristianismo: \u201cComo Deus \u00e9 muito mais simples e muito mais humano que os homens!&#8230;\u201d Circulares p\u00f3s-conciliares: de 25\/26 de fevereiro de 1968 a 30\/31 de dezembro de 1968 \/ Dom H\u00e9lder C\u00e2mara; orgs. Zindo Rocha , Daniel Sigal. &#8211; Recife: Cefe, 2013; v. 4., t. 2., p. 133.)<\/p>\n<p>Dom H\u00e9lder C\u00e2mara \u00e9 um dos tr\u00eas santos com cuja leitura inicio minhas ora\u00e7\u00f5es di\u00e1rias. Como tenho aprendido com o Dom! Estudar sua vida, ler as biografias que foram escritas sobre ele (tenho v\u00e1rias em minha biblioteca), e, especialmente, ler suas cartas, tem me levado a dimens\u00f5es da espiritualidade que eu jamais poderia imaginar, modificando profundamente meu modo de ser crist\u00e3o e de responder aos desafios que o Cristo humanizado me coloca diariamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ou Deus evitava a cria\u00e7\u00e3o, trancando-se em seu ego\u00edsmo e sua solid\u00e3o, ou aceitava a ideia de seres que n\u00e3o podiam ser iguais ao Ser&#8230;.<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31],"tags":[125,153,156,209,210,364],"class_list":["post-5726","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-27-o-burrinho-de-deus","tag-corpus-christi","tag-dom","tag-dom-helder-camara","tag-humanizacao-de-cristo","tag-humanizacao-do-divino","tag-rosto-humano-de-deus"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5726","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5726"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5726\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5726"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5726"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5726"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}