{"id":5803,"date":"2017-02-23T22:46:24","date_gmt":"2017-02-24T01:46:24","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5803"},"modified":"2017-02-23T22:46:24","modified_gmt":"2017-02-24T01:46:24","slug":"o-que-diria-o-pe-cicero-de-sua-vida-se-lhe-dessem-voz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2017\/02\/23\/o-que-diria-o-pe-cicero-de-sua-vida-se-lhe-dessem-voz\/","title":{"rendered":"O que diria o Pe. C\u00edcero de sua vida se lhe dessem voz?"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #800080\"><em>Em realidade epis\u00f3dios dessa natureza ocorreram algumas vezes. Fosse noite ou fosse dia. Para mim nunca foi pesado nem eu poderia considerar aquilo coisa extraordin\u00e1ria. Apenas um simples ato de caridade crist\u00e3, praticado, como manda o preceito, de maneira espont\u00e2nea e por quem nunca se negou de servir ao pr\u00f3ximo. Nem me dava conta do que estava fazendo; era uma atitude quase autom\u00e1tica. A prop\u00f3sito, n\u00e3o dormiria em paz ouvindo algu\u00e9m chamar insistentemente por mim.\u00a0<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>Pe. C\u00edcero, por Alberto Farias<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">[<strong>Farias, Alberto. O padre C\u00edcero e a inven\u00e7\u00e3o do Juazeiro<\/strong>. 3. Ed. Reimpress\u00e3o. \u2013 Fortaleza: Tipografia \u00cdris, 2016, p. 239.]\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">No texto que introduz a terceira edi\u00e7\u00e3o do livro \u201cO Pe. C\u00edcero e a inven\u00e7\u00e3o do Juazeiro\u201c, ao estabelecer um paralelo entre o Papa Francisco e o biografado, o escritor Alberto Farias afirma: \u201cFoi preciso que surgisse um papa com os qualificativos do Papa Francisco para que processos cavilosos, que exclu\u00edam personagens do porte do Padre C\u00edcero do seio da Igreja, tivessem os seus desfechos deferidos em curto espa\u00e7o de tempo\u201d (p. 5). O livro vem a lume ainda sob a \u00e9gide da recente reabilita\u00e7\u00e3o do Pe. C\u00edcero pelo Vaticano, patenteada pela missiva expedida pelo cardeal Pietro Perine ao bispo do Crato, por ordem do Papa Francisco, em 20 de outubro de 2015.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Abordar a figura do Pe. C\u00edcero \u00e9 sempre um grande desafio para quem quer que ouse se lan\u00e7ar a tal empreitada. Certamente por ter consci\u00eancia do risco, o autor faz uma advert\u00eancia que poderia se aplicar \u00e0 maioria dos assuntos atinentes \u00e0 vida do biografado. Assim \u00e9 que, ap\u00f3s introduzir o controvertido tema dos epis\u00f3dios protagonizados pela beata Maria de Ara\u00fajo, Alberto farias adverte: \u201cFalar sobre os epis\u00f3dios de Juazeiro exige um pr\u00e9vio e amplo conhecimento dos elementos que sobre eles interferiram antes, durante e depois desses fatos. Somente assim e, obedecendo-se a um plano onde a coer\u00eancia case com a realidade do acontecimento, pode-se chegar ao esclarecimento do todo sem comprometer a realidade vivida\u201d (p. 55).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Em que pese o desafio impl\u00edcito na advert\u00eancia, nem por isso o autor se furtou ao prop\u00f3sito de escrever o relato da vida do Patriarca de Juazeiro. Entretanto, muito mais que redigir apenas um relato, foi al\u00e9m, perpetrando a ousadia de faz\u00ea-lo na primeira pessoa. Quem fala, pois, na obra em comento, \u00e9 o pr\u00f3prio Pe. C\u00edcero, que, assim, ganha voz pela pena de Alberto Farias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Com o fito de realizar tal intento, o autor faz uso de dois estratagemas. Em algumas ocasi\u00f5es, valendo-se da criatividade, imagina o que o seu biografado diria ante determinadas situa\u00e7\u00f5es; em outras, lan\u00e7ando m\u00e3o de escritos do pr\u00f3prio Pe. C\u00edcero, dentre os quais sobressaem suas cartas, cita-o literalmente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Cite-se, \u00e0 guisa de exemplo, em se tratando do primeiro caso, as reflex\u00f5es que tece acerca de sua estadia em Roma, quando ali esteve para se justificar diante dos inquisidores a prop\u00f3sito dos epis\u00f3dios envolvendo a beata Maria de Ara\u00fajo: \u201cMil preocupa\u00e7\u00f5es. A pr\u00f3pria grandiosidade arquitet\u00f4nica da Cidade-Eterna me aniquilava; senti-me desolado e quase perdido naquele mundo pomposo e estranho. Em alguns momentos fiquei a medir os contrastes da vida: no meu arraial distante (humilde, por\u00e9m acolhedor) eu era o centro das aten\u00e7\u00f5es; naquela inebriante cidade, jogado ao l\u00e9u da sorte, era apenas um inexpressivo n\u00famero de passaporte, perdido no emaranhado de pessoas, todas elas presumivelmente importantes e, com certeza, indiferentes \u00e0 minha presen\u00e7a\u201d (p. 165).<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_5805\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5805\" class=\"wp-image-5805 size-medium\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/02\/Alberto-farias-300x225.jpg\" width=\"300\" height=\"225\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/02\/Alberto-farias-300x225.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/02\/Alberto-farias-120x90.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/02\/Alberto-farias.jpg 336w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-5805\" class=\"wp-caption-text\">Alberto Farias<\/p><\/div>\n<p><span style=\"color: #000000\">Quanto ao segundo caso, veja-se um trecho da bela correspond\u00eancia endere\u00e7ada ao amigo Pe. Clim\u00e9rio, datada de 6 de dezembro de 1900, em que, com muita sensibilidade e compaix\u00e3o, fala do flagelo da seca: \u201cO nosso Cear\u00e1 passa por uma crise t\u00e3o medonha que est\u00e1 ficando despovoado. Ainda que tenha visto o que dizem os jornais sobre a seca do Cear\u00e1, n\u00e3o faz ideia do que seja. Parece n\u00e3o ter mais um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o. Morre-se de pura fome, e a imigra\u00e7\u00e3o no maior desespero de escapar a vida, atirando-se os pobres sem nenhum recurso. \u00c9 um horror e cada dia aumenta mais. Meu amigo, cada cearense deve por uma trombeta na imprensa e em toda parte, gritando com toda for\u00e7a pedindo socorro para um grande naufr\u00e1gio do Cear\u00e1. Pode ser que esses governos que t\u00eam o dever de salvar os Estados nas calamidades p\u00fablicas desistam, e que n\u00e3o queiram passar por assassinos deixando caprichosamente morrer milhares de vidas que podiam salvar e n\u00e3o querem\u201d (p. 383).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Considero os dois par\u00e1grafos finais do \u00faltimo cap\u00edtulo um dos momentos mais belos e tocantes do livro. Eles tornam patente o impressionante talento do autor ao expressar de forma absolutamente clara e concisa o que seriam, em ess\u00eancia, o Cariri e a cidade de Juazeiro. Creio que algu\u00e9m jamais tenha escrito sobre o assunto algo simultaneamente t\u00e3o profundo, t\u00e3o veraz e t\u00e3o po\u00e9tico: \u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">\u201cNo entanto, a f\u00f3rmula m\u00e1gica para obter-se t\u00e3o surpreendente resultado foi muito simples: juntou-se aos naturais do lugar o romeiro contrito e mais umas poucas pitadas de gente vindas de outros lugares e a todos deu-se um banho de m\u00edstica. Sob tal ausp\u00edcio, a miscigena\u00e7\u00e3o deu como resultado um povo determinado e vitorioso, pelo seu pr\u00f3prio esfor\u00e7o. Juazeiro \u00e9, pois, uma oficina de trabalho; verdadeira colmeia onde a abelha rainha \u00e9 a f\u00e9 e a determina\u00e7\u00e3o de vencer est\u00e1 cima de qualquer obst\u00e1culo.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">\u201cEm palavras finais pode-se afirmar que o Cariri, embora seja uma regi\u00e3o rica e diferente, o progresso que domina a regi\u00e3o n\u00e3o pode ser analisado tomando-se por base somente as suas riquezas naturais. Existe algo muito mais importante a ser considerado \u2013 a espiritualidade de um povo \u2013 que desconhecendo o imposs\u00edvel, fez brotar em ambiente t\u00e3o ex\u00edguo, uma cidade que se projeta para o futuro sem pejo da sua origem m\u00edstico-religiosa\u201d (p. 361). \u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Inicialmente publicado em 1994, \u201cO Pe. C\u00edcero e a inven\u00e7\u00e3o do Juazeiro\u201d foi reeditado em 2016. Em que pese a desmedida ousadia do autor ao escrever um relato na primeira pessoa, pode-se dizer que o projeto foi coroado de \u00eaxito. N\u00e3o bastasse a beleza do texto, que se l\u00ea com imenso prazer, a obra traz, no final, material muito rico e de particular interesse para quantos se interessem pela vida do Pe. C\u00edcero, constitu\u00eddo pelos seguintes anexos: o Auto de perguntas a que foi submetida a beata Maria de Ara\u00fajo, o Testamento do Pe. C\u00edcero, as cartas do Pe. C\u00edcero, uma importante iconografia retratando o biografado e outras personagens a ele associadas, e, por fim, uma rica bibliografia em que s\u00e3o listados arquivos, jornais, entrevistas, correspond\u00eancias e obras publicadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Por fim, h\u00e1 que dizer que o Patriarca de Juazeiro afigura-se um desses tipos humanos extraordin\u00e1rios que, por sua singularidade, imp\u00f5e-se naturalmente como perene objeto de curiosidade e interesse, a tal ponto que, por mais que se tente desvelar as peculiaridades de sua vida e pessoa, sempre haver\u00e1 algo novo por dizer. Prova disso \u00e9 quantidade de autores que t\u00eam se dedicado, ao longo de d\u00e9cadas, ao af\u00e3 de vasculhar os fatos de sua vida em busca de um novo facho de luz que possa acrescentar algum entendimento a essa controvertida figura. Tem sobeja raz\u00e3o, pois, Alberto Farias, quando assevera: \u201cE todos os antagonismos, afinal, fizeram do Pe. C\u00edcero uma personalidade audaciosamente diferente e curiosa\u201d (p. 29).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em realidade epis\u00f3dios dessa natureza ocorreram algumas vezes. Fosse noite ou fosse dia. 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