{"id":5832,"date":"2017-08-13T11:49:18","date_gmt":"2017-08-13T14:49:18","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5832"},"modified":"2017-08-13T11:49:18","modified_gmt":"2017-08-13T14:49:18","slug":"apesar-da-morte-a-vida-prossegue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2017\/08\/13\/apesar-da-morte-a-vida-prossegue\/","title":{"rendered":"Apesar da morte, a vida prossegue"},"content":{"rendered":"<p>Confrontado num lapso de menos de seis meses com a perda brusca de quatro pessoas querid\u00edssimas, uma das quais o meu pai \u2013 fato que constitui, conforme expresso por Freud em A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos, \u201co evento mais importante, a perda mais pungente na vida de um homem\u201d \u2013 eu, que sempre procuro amparo nos livros, retornei \u00e0 leitura de Cr\u00f4nicas da vida e da morte, do antrop\u00f3logo Roberto DaMatta, que eu havia lido h\u00e1 oito anos.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito dos motivos que o levaram a publicar o livro, afirma: \u201cNos \u00faltimos anos, perdi amados mentores, professores e amigos, um querid\u00edssimo irm\u00e3o mais novo e o meu primog\u00eanito. O filho que me tornou pai e me trouxe a concretude da experi\u00eancia de doar a vida, e com isso de desfrutar da experi\u00eancia dos deuses. Essas cr\u00f4nicas t\u00eam a marca da renova\u00e7\u00e3o e do renascimento. Da renova\u00e7\u00e3o, porque diante da doen\u00e7a, da indiferen\u00e7a, da hipocrisia e da morte, eu sigo sereno, escolhendo a vida e o trabalho. Do renascimento, porque este trecho da minha vida tem revelado que cabe a n\u00f3s, humanos, dar sentido \u2013 como homens entre homens, como dizia Sartre \u2013 a todos (e eu repito, todos!) os acontecimentos que constituem e d\u00e3o fundamento \u00e0s nossas trajet\u00f3rias\u201d (p. 12).<\/p>\n<p>Um fato comum une os dois autores. Freud afirmou que a publica\u00e7\u00e3o de A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos foi a sua rea\u00e7\u00e3o \u00e0 morte do pai. Roberto Da Matta, por sua vez, publicou Cr\u00f4nicas da vida e da morte como uma tentativa de dar algum sentido \u00e0 morte do filho. A unir os dois, esse fato inexor\u00e1vel e t\u00e3o dif\u00edcil de enfrentar, a morte.<\/p>\n<p>Amparado pelos dois, tenho tentado buscar um poss\u00edvel sentido para a dor que me tem acometido. O recurso mais imediato nessa circunst\u00e2ncia \u00e9 a mem\u00f3ria, com o seu repert\u00f3rio de boas recorda\u00e7\u00f5es. Contudo, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel viver de reminisc\u00eancias. A vida demanda atitudes. A disponibilidade para a a\u00e7\u00e3o deve ser proporcional ao golpe sofrido. Imergir na melancolia \u00e9 a pior alternativa. N\u00e3o se trata, evidentemente, de um ato apenas volitivo. A perda do pr\u00f3prio pai mobiliza emo\u00e7\u00f5es profundas e, no mais das vezes, inconscientes, de um poder avassalador. Em tais circunst\u00e2ncias a vontade padece, ficando sensivelmente rebaixada. Respeite-se, pois, o luto necess\u00e1rio, ocasi\u00e3o em que tudo sabe a letargia, lentid\u00e3o e des\u00e2nimo. N\u00e3o esque\u00e7amos, entretanto, o conselho de Ana Cl\u00e1udia Quintana Arantes em A morte \u00e9 um dia que vale a pena viver: \u201cQuando morre uma pessoa amada e importante, \u00e9 como se f\u00f4ssemos levados at\u00e9 a entrada de uma caverna. No dia da morte, entramos na caverna, e a sa\u00edda n\u00e3o \u00e9 pela mesma abertura por onde entramos, pois n\u00e3o encontramos a mesma vida que t\u00ednhamos antes. A vida que ser\u00e1 conhecida a partir da perda nunca ser\u00e1 a mesma de quando a pessoa amada estava viva. Para sair dessa caverna do luto \u00e9 preciso cavar a pr\u00f3pria sa\u00edda\u201d (p. 185). Ultimamente tenho andado bastante ocupado cavando a minha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confrontado num lapso de menos de seis meses com a perda brusca de quatro pessoas querid\u00edssimas, uma das quais o meu pai \u2013 fato que&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[28],"tags":[69,144,195,300,362],"class_list":["post-5832","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-25-loucura-mansa","tag-ana-claudia-quintana-arantes","tag-dia-dos-pais","tag-freud","tag-morte-do-pai","tag-roberto-damatta"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5832","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5832"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5832\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5832"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5832"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5832"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}