{"id":5911,"date":"2018-07-01T13:38:58","date_gmt":"2018-07-01T16:38:58","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5911"},"modified":"2018-07-01T13:40:20","modified_gmt":"2018-07-01T16:40:20","slug":"um-passaporte-para-o-universo-magico-das-avos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2018\/07\/01\/um-passaporte-para-o-universo-magico-das-avos\/","title":{"rendered":"Um passaporte para o universo m\u00e1gico das av\u00f3s"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #800080\">Quando eu e Naza, minha esposa, recebemos os passaportes das m\u00e3os do estudante de teatro Adonai Elias, n\u00e3o t\u00ednhamos muita no\u00e7\u00e3o de aonde aquela viagem nos levaria. Na verdade, a primeira curiosidade foi tentar entender o motivo de nos terem sido entregues passaportes. Todos sabem que esse documento \u00e9 exigido de quem viaja para o exterior. O problema \u00e9 que na capa estava estampada em grandes letras a palavra INTERIOR. Aquela seria, pois, uma viagem ao Interior? Mas, a que Interior?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Enquanto matut\u00e1vamos sobre a quest\u00e3o, ecos de can\u00e7\u00f5es bem antigas nos remeteram imediatamente a tempos de antanho. Seriam aquelas can\u00e7\u00f5es uma insinua\u00e7\u00e3o de que est\u00e1vamos prestes a embarcar numa viagem ao passado, como se entr\u00e1ssemos numa c\u00e1psula do tempo? \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Resolvemos abrir o passaporte. Ao faz\u00ea-lo, nos deparamos com essas am\u00e1veis palavras: \u201cMuito obrigado pela presen\u00e7a. Por favor, fique \u00e0 vontade e receba com carinho este espet\u00e1culo. Ele \u00e9 cheio de afeto, que nem o bolo das av\u00f3s\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Uma porta se abriu e fomos convidados a adentrar o recinto. Pela peculiaridade, tanto do ambiente quanto das duas figuras que recepcionavam os convidados, deu logo pra ver que est\u00e1vamos tendo acesso a algo de caracter\u00edsticas bem singulares. Talvez estiv\u00e9ssemos mesmo, sem que nos aperceb\u00eassemos, entrando numa c\u00e1psula do tempo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Logo mais uma anci\u00e3 de pele enrugada e corpo encurvado, o que denunciava o peso de muitas d\u00e9cadas de vida, invadia o ambiente, se dirigindo aos convidados num tom que fazia lembrar aquelas senhoras que se costumava encontrar quando nos aventuramos pelos rinc\u00f5es mais rec\u00f4nditos das pequenas cidades e povoados do interior.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Sem muita cerim\u00f4nia, instalou-se numa das arquibancadas ao lado dos convidados, falou um pouco de sua hist\u00f3ria num tom que levou todos ao riso. Abriu uma sacola e come\u00e7ou a distribuir bolinhos entre os convidados. Minha esposa foi uma das agraciadas com o mimo da anci\u00e3, dividindo-o comigo. Aquela fatia de bolo de banana teve o cond\u00e3o de me remeter imediatamente aos bolos que comia em Massap\u00ea, onde nasci e passei minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia. Inevit\u00e1vel n\u00e3o relembrar, naquelas circunst\u00e2ncias, minhas av\u00f3s Em\u00edlia e Teresa. N\u00e3o demorou muito para que outra anci\u00e3 viesse tamb\u00e9m ocupar o recinto. Apresentando-se como neta da primeira, parecia, na verdade, t\u00e3o velha quanto a suposta av\u00f3. Logo que se iniciou o di\u00e1logo entre as duas, entremeado por provoca\u00e7\u00f5es e interpela\u00e7\u00f5es aos convidados, tamb\u00e9m chamados a participar da conversa, n\u00e3o nos restaram mais d\u00favidas. \u00a0Ali, na Casa da Esquina, em pleno Bairro de F\u00e1tima, na cidade de Fortaleza, uma c\u00e1psula do tempo de abrira, n\u00f3s entr\u00e1ramos e, conduzidos pelo competente Grupo Bagaceira de Teatro, embarcamos numa viagem que fez com que todos se transportassem ao universo maravilhoso da inf\u00e2ncia, quando o contato com as av\u00f3s faziam da vida um universo de encantos e prazeres jamais reencontrado, a n\u00e3o ser em momentos m\u00e1gicos como aquele que, sem que o soub\u00e9ssemos, f\u00f4ramos convidados a vivenciar. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">\u00c9 assim o espet\u00e1culo Interior, do Grupo Bagaceira de Teatro. Com texto de Rafael Martins e dire\u00e7\u00e3o de Yuri Yamamoto, e tendo como elenco Samya de Lavor, Tatiana Amorim, Rafael Martins e Rog\u00e9rio Mesquita, nenhum espectador consegue se furtar \u00e0s emo\u00e7\u00f5es provocadas pelo retorno ao maravilhoso universo das av\u00f3s. Fundado no ano 2000 e sediado em Fortaleza, esse grupo de teatro experimental pode dizer que construiu, ao longo desses dezoito anos de estrada, uma hist\u00f3ria s\u00f3lida, somando ao curr\u00edculo de suas produ\u00e7\u00f5es autorais um repert\u00f3rio diversificado e peculiar, que tem se consolidado sempre mais no gosto do p\u00fablico.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Esta manh\u00e3 eu e Naza convers\u00e1vamos novamente sobre a peculiaridade do bilhete de acesso ao espet\u00e1culo. Falei que havia entendido o motivo: o passaporte \u00e9 uma met\u00e1fora, porque ao permitir o acesso ao espet\u00e1culo, nos remete, por meio dos universos fant\u00e1sticos da imagina\u00e7\u00e3o e da mem\u00f3ria, a dois diferentes lugares: as cidades e povoados do interior e, ao mesmo tempo, ao interior de si n\u00f3s mesmos, onde dormitam as mais rec\u00f4nditas mem\u00f3rias da inf\u00e2ncia. Ante minha observa\u00e7\u00e3o, Naza retrucou, dizendo que ela tinha interpretado diferente, pois eu estava esquecendo um aspecto importante. \u00c9 que, no espet\u00e1culo, j\u00e1 quase no final, somos retirados do passado e convidados a nos projetar no futuro. Concordei. De fato, ela tem raz\u00e3o. Mas quanto ao artif\u00edcio usado pelas atrizes para remeter a plateia ao futuro, n\u00e3o revelarei aqui. Fica como surpresa para os que decidirem proporcionar a si mesmos o imenso prazer de assistir Interior. \u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando eu e Naza, minha esposa, recebemos os passaportes das m\u00e3os do estudante de teatro Adonai Elias, n\u00e3o t\u00ednhamos muita no\u00e7\u00e3o de aonde aquela viagem&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":5913,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[458,459,460,457],"class_list":["post-5911","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-04-efemerides-acontecimentos-lugares-e-pessoas","tag-casa-da-esquina","tag-grupo-bagaceira-de-teatro","tag-interior","tag-teatro"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5911","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5911"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5911\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5912,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5911\/revisions\/5912"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5913"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5911"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5911"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5911"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}