{"id":604,"date":"2009-09-09T06:21:48","date_gmt":"2009-09-09T09:21:48","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=604"},"modified":"2009-09-09T06:21:48","modified_gmt":"2009-09-09T09:21:48","slug":"o-rubaiyat-de-omar-khayyam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/09\/09\/o-rubaiyat-de-omar-khayyam\/","title":{"rendered":"O Rubaiyat de Omar Khayyam"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-605\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/09\/imagem.jpg\" alt=\"imagem\" width=\"200\" height=\"327\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/09\/imagem.jpg 200w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/09\/imagem-120x196.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/>Um jardim, uma mulher, vinho,\/ Meu desejo e minha amargura:\/ Eis o meu C\u00e9u e o meu Inferno.\/ Mas quem j\u00e1 viu o C\u00e9u e o Inferno?<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Omar\u00a0 Khayyam<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[Khayyam, Omar. Rubaiyat. Tradu\u00e7\u00e3o de Manuel Bandeira (de Franz Toussaint). \u2013 Rio de Janeiro: Ediouro, 2001, estrofe 54, p. 53.]<\/span><\/em><\/p>\n<p>\u00a0Quem abre pela primeira vez o <em>Rubaiyat<\/em> e l\u00ea os versos das tr\u00eas primeiras quadras n\u00e3o ficar\u00e1 indiferente ao estilo direto e sem rodeios do autor, quando escreve: <em>Sabem todos que nunca\/ Murmurei uma prece.\/ Sabem todos que nunca\/ Escondi meus pecados. \/\/ Ignoro se realmente\/ Existe uma Justi\u00e7a\/ E uma Miseric\u00f3rdia.\/ Nada temo no entanto. \/\/ Nada temo. Antes, nelas, \/ Se \u00e9 que existem, confia\/ Minh\u2019alma, porque sempre\/ Fui um homem sincero<\/em> (1, p. 11).<\/p>\n<p>O <em>Rubaiyat<\/em> \u00e9 uma das composi\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias mais famosas da literatura legada ao mundo pelo Oriente. Seus versos foram escritos por Omar Khayyam, cujo nome completo era Ghiy\u00e1thuddin Abulfath Omar bin Ibr\u00e1him Al-Khayy\u00e1mi, que nasceu e faleceu em Nishapur, prov\u00edncia de Khorassan, na P\u00e9rsia (c. 1050 \u2013 c. 1123).<\/p>\n<p>Omar Khayyam ocupou a fun\u00e7\u00e3o de diretor do observat\u00f3rio astron\u00f4mico de Merv, tendo se dedicado ao estudo da matem\u00e1tica e da astronomia. Escreveu v\u00e1rios tratados, um dos quais, sobre \u00e1lgebra, se tornaria um cl\u00e1ssico, tendo sido traduzido no Ocidente. Foi tamb\u00e9m respons\u00e1vel pela reforma do calend\u00e1rio mu\u00e7ulmano.<\/p>\n<p>Embora tenha se tornado conhecido sobretudo como matem\u00e1tico e astr\u00f4nomo, Khayyam se destacaria tamb\u00e9m na poesia, adotando as quadras epigram\u00e1ticas como estilo liter\u00e1rio. Foi nesse estilo que escreveu o <em>Rubaiyat<\/em>, sua composi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica mais famosa. <em>Rub\u00e1yy\u00e1t<\/em> \u00e9 o plural de <em>rubay<\/em>, quadra em persa. Deve-se a primeira tradu\u00e7\u00e3o em uma l\u00ednguan ocidental ao austr\u00edaco Joseph von Hammer-Purgstall (1774-1856). Em 1857, foram traduzidos para o franc\u00eas por Nicolas. O ingl\u00eas Edward Fitzgerald (1809-1883), ao l\u00ea-la, encantou-se com os versos de Khayyam, e resolveu tamb\u00e9m traduzi-los. A partir de ent\u00e3o, o poeta persa ganharia seguidas tradu\u00e7\u00f5es em outros pa\u00edses e l\u00ednguas, inclusive no Brasil, onde foi feita uma tradu\u00e7\u00e3o por Ot\u00e1vio Tarqu\u00ednio em 1955, publicado pela editora Jos\u00e9 Olympio.<\/p>\n<p>A tradu\u00e7\u00e3o do <em>Rubaiyat<\/em> tem sido motivo para muitas discuss\u00f5es ao longo dos s\u00e9culos, tendo alguns de seus tradutores, em certos casos, lan\u00e7ado m\u00e3o de recursos nem sempre aconselh\u00e1veis. Assim aconteceu, por exemplo, com Edward Fitzgerald, que, embora tendo publicado um texto de grande beleza po\u00e9tica, alterou-lhe em demasia o sentido original.<\/p>\n<p>O poeta brasileiro Manuel Bandeira tamb\u00e9m se encantou com os versos do poeta persa e, para felicidade nossa, resolveu traduzi-los para a l\u00edngua portuguesa. Para tanto, tomou como refer\u00eancia a tradu\u00e7\u00e3o francesa de Franz Toussaint, de 1923, por consider\u00e1-la mais fiel ao texto original, se comparada com a de Fitzgerald. Em 2001 a Ediuouro fez uma edi\u00e7\u00e3o do texto traduzido por Bandeira. \u00c9 uma bel\u00edssima edi\u00e7\u00e3o, com capa dura e sobrecapa, al\u00e9m do texto\u00a0 emoldurado por arabescos.<\/p>\n<p>Nos versos do <em>Rubaiyat<\/em> tudo recende a hedonismo. O que importa \u00e9 viver o presente, fruir o momento, mas viv\u00ea-lo bem, pois a vida \u00e9 fugaz e dela nada se leva, uma vez que n\u00e3o se tem garantia de que exista vida no al\u00e9m. A prop\u00f3sito do hedonismo caracter\u00edstico do poema, encontrei um blog no qual\u00a0foi divulgada a fotografia de uma mo\u00e7a em cujo bra\u00e7o fizera tatuar uma estrofe do <em>Rubaiyat<\/em>. Tentando investigar a origem da fotografia, encontrei-a numa galeria de uma italiana chamada Federica Salvatore. Sob a fotografia, escreveu a mo\u00e7a:<\/p>\n<p><em>Il mio credo in um tatuaggio<\/em>, ou seja, ela afirma que os versos\u00a0tatuados s\u00e3o o seu credo. Para a estrofe, tatuada em caracteres \u00e1rabes, oferece a seguinte tadu\u00e7\u00e3o: <em>Non ricordare il giorno trascorso,\/ non perderti in lacrime sul domani che viene,\/ su passato e futuro non far fondamento, vivi oggi e non perdere al vento la vita. Omar Khayyam<\/em>.<\/p>\n<div id=\"attachment_612\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-612\" class=\"size-full wp-image-612\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/09\/350952122_5a9c0115f53.jpg\" alt=\"O Rubaiyat como filosofia de vida estamoada na pr\u00f3pria pele\" width=\"500\" height=\"375\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/09\/350952122_5a9c0115f53.jpg 500w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/09\/350952122_5a9c0115f53-300x225.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/09\/350952122_5a9c0115f53-120x90.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><p id=\"caption-attachment-612\" class=\"wp-caption-text\">O Rubaiyat como filosofia de vida estampada na pr\u00f3pria pele<\/p><\/div>\n<p>Cotejando com a tradu\u00e7\u00e3o de Manuel Bandeira os versos escritos na tatuagem, conclu\u00ed que a estrofe que mais se aproxima \u00e9 a seguinte: <em>N\u00e3o te mergulhes no passado\/ Nem no porvir. Teu pensamento\/ N\u00e3o v\u00e1 al\u00e9m do presente instante!\/ Este \u00e9 que \u00e9 o segredo da paz<\/em> (64, p. 59). (O site onde encontrei originalmente a fotografia \u00e9 o seguinte: <a href=\"http:\/\/www.blingdomofgod.com\/\">http:\/\/www.blingdomofgod.com<\/a>).<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito das altera\u00e7\u00f5es sofridas pelas tradu\u00e7\u00f5es do Rubaiyat, afirma Affonso Romano de Sant\u2019Anna: <em>Omar Khayyam \u00e9 um fen\u00f4meno, criado e recriado por muitas m\u00e3os<\/em> (texto da orelha da edi\u00e7\u00e3o comentada neste blog). A afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 absolutamente verdadeira. Na pr\u00f3xima quarta-feira, comentarei neste blog a tradu\u00e7\u00e3o do <em>Rubaiyat<\/em> feita por Paramahansa Yogananda a partir do texto de Fitzgerald. Ver-se-\u00e1 que n\u00e3o tem absolutamente nada em comum com a tradu\u00e7\u00e3o de Manuel Bandeira, comentada hoje.<\/p>\n<p>Por fim, para que n\u00e3o se pense que o hedonismo de Khayyam \u00e9 de natureza ego\u00edsta ou inconsequente, quero concluir com versos que revelam uma profunda compaix\u00e3o pelo ser humano: <em>Olha com indulg\u00eancia os homens\/ Que se embriagam. Dize que tens\/ Outros defeitos. Se quiseres\/ Ter a paz, a serenidade\/\/ Volta-te para os deserdados\/ Da exist\u00eancia, para os humildes\/ Que sob o peso do infort\u00fanio\/ Gemem, e sentir-te-\u00e1s feliz<\/em> (3, p. 13).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um jardim, uma mulher, vinho,\/ Meu desejo e minha amargura:\/ Eis o meu C\u00e9u e o meu Inferno.\/ Mas quem j\u00e1 viu o C\u00e9u e&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-604","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-03-arcano-iii-digressoes-de-um-bibliofilo"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/604","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=604"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/604\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=604"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=604"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=604"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}