{"id":6120,"date":"2021-04-23T17:39:45","date_gmt":"2021-04-23T20:39:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=6120"},"modified":"2021-04-23T17:57:13","modified_gmt":"2021-04-23T20:57:13","slug":"salvo-por-ter-escrito-um-livro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2021\/04\/23\/salvo-por-ter-escrito-um-livro\/","title":{"rendered":"Salvo por ter escrito um livro"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\">1. Reuni\u00e3o de folhas ou cadernos, soltos ou cosidos, ou por qualquer outra forma presos por um dos lados, e enfeixados ou montados em capa.<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Aur\u00e9lio Buarque de Holanda<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><strong>[Holanda, Aur\u00e9lio Buarque de. Minidicion\u00e1rio Aur\u00e9lio<\/strong>. 1\u00aa. ed., 3\u00aa reimpress\u00e3o. Ed. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 1977. Verbete: Livro, p. 295.]<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Levantei-me na manh\u00e3 deste 23 de abril de 2021 cheio de expectativas. \u00c9 que havia sido convidado para participar de uma reuni\u00e3o cujo tema seria um objeto que, sem exagero, posso dizer que \u00e9 uma das coisas que ainda s\u00e3o capazes de manter minha alegria de viver: o livro. Organizada pelo juiz Dr. Carlos Alexandre B\u00f6tcher, Membro do Comit\u00ea do Programa Nacional de Gest\u00e3o Documental e Mem\u00f3ria do Poder Judici\u00e1rio (Proname) do Conselho Nacional de Justi\u00e7a (CNJ), a reuni\u00e3o, marcada para as 10 horas, teria como foco a discuss\u00e3o sobre bibliotecas, gest\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o de acervos bibliogr\u00e1ficos. Ao abrir a reuni\u00e3o, o Dr. B\u00f6tcher disse que gostaria de registrar uma feliz coincid\u00eancia, pois lembrara que hoje se celebra o Dia internacional do livro e dos direitos autorais. \u00a0<\/span><span style=\"color: #800080\">Pois bem, coerente com o conceito que serviu de inspira\u00e7\u00e3o para o t\u00edtulo deste blog, onde o Dr. B\u00f6tcher usou a palavra coincid\u00eancia eu substituiria por sincronicidade. Os assuntos abordados, a partir da abertura, foram t\u00e3o envolventes que uma reuni\u00e3o planejada para durar uma hora e meia estendeu-se por duas horas e quarenta e cinco minutos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Em que pese a relev\u00e2ncia de tudo o que foi abordado, a mim me causou especial emo\u00e7\u00e3o ouvir o Dr. Claudemiro Avelino de Souza, juiz do Tribunal de Justi\u00e7a de Alagoas, discorrer sobre a forma\u00e7\u00e3o de sua cole\u00e7\u00e3o privada de Hist\u00f3ria da Justi\u00e7a. Poucas coisas s\u00e3o t\u00e3o empolgantes ou envolventes quanto escutar um bibli\u00f3filo falando de seus livros. \u00c9 indescrit\u00edvel. O prazer com que ele fala de cada nova aquisi\u00e7\u00e3o, das andan\u00e7as pelos sebos, das obras raras, da emo\u00e7\u00e3o experimentada quando da aquisi\u00e7\u00e3o de um exemplar autografado por determinado autor ou de um manuscrito, enfim, s\u00e3o tantas as hist\u00f3rias que um bibli\u00f3filo tem para contar, que a vontade que se sente \u00e9 de poder fazer um <em>tour<\/em> por sua biblioteca examinando cada exemplar. Inclusive, o Dr. Claudemiro disse, no final, que gostaria de mostrar algumas de suas raridades, mas n\u00e3o o faria pela exiguidade do tempo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Finalizada a reuni\u00e3o, imediatamente me veio a ideia de escrever um pequeno texto para celebrar o dia em que se homenageia este objeto maravilhoso. Comecei a lembrar das minhas hist\u00f3rias com os livros. Olhando nas estantes, as hist\u00f3rias foram surgindo e as que eu usaria neste texto j\u00e1 foram sendo selecionados a medida em que eu pegava os exemplares. O primeiro que retirei da estante foi um exemplar do Minidicion\u00e1rio Aur\u00e9lio, envelhecido e desgastado pelos muitos manuseios que dele fiz em outros tempos. Em 1980, ano em que vim morar em Fortaleza, a Livraria Educativa convidou o Aur\u00e9lio Buarque de Holanda para uma palestra seguida do lan\u00e7amento de uma nova edi\u00e7\u00e3o do seu dicion\u00e1rio. Ao saber disso, fiquei morrendo de vontade de adquirir um exemplar para que ele o autografasse. Entretanto, minhas parcas economias s\u00f3 deram pra adquirir o &#8220;Minidicion\u00e1rio&#8221;. Lembro como se fosse hoje de o quanto me senti encabulado, com aquele livro pequeninho numa fila em que todos ostentavam o \u201cAurelh\u00e3o\u201d, \u00e0 espera do ansiado aut\u00f3grafo. Durante a palestra, o autor contou uma anedota que nunca esqueci. Disse que, no col\u00e9gio, perguntaram ao seu neto o que o av\u00f4 dele fazia. Com a espontaneidade e desenvoltura pr\u00f3prias de uma crian\u00e7a, o menino respondeu: \u201cEle n\u00e3o faz nada n\u00e3o, passa o dia todo lendo e escrevendo\u201d. Guardo ainda com muito carinho o meu \u201cAurelhinho\u201d autografado. Com ele adquiri o h\u00e1bito de consultar o dicion\u00e1rio. Ainda hoje o \u201cAurelh\u00e3o\u201d, adquirido posteriormente, n\u00e3o sai do meu bir\u00f4, mesmo que vez por outra o google leve a melhor, devido \u00e1 pressa e \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o da comodidade a que nem sempre consigo resistir.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Uma outra hist\u00f3ria sobre livros \u00e9 tamb\u00e9m j\u00e1 meio antiga, remontando ao ano de 1981. No ano anterior a Editora Vozes havia publicado o livro \u201cCante l\u00e1 que eu canto c\u00e1: Filosofia de um trovador nordestino\u201d, do grande bardo cearense Patativa do Assar\u00e9. Adquiri imediatamente um exemplar. Em 1981, descobri que o autor faria uma palestra na Faculdade de Direito da UFC. No dia do evento, muito cedo eu j\u00e1 me encontrava no audit\u00f3rio, com o livro em m\u00e3os. Quando vi o Patativa entrar conduzido por um rapaz, sem nenhuma cerim\u00f4nia me levantei e perguntei discretamente: \u201cSer\u00e1 que o Patativa autografaria este livro para mim?\u201d O rapaz se virou para ele e falou: \u201cPatativa, este rapaz \u00e9 um f\u00e3 do senhor. Ele est\u00e1 perguntando se o senhor poderia autografar o seu livro para ele\u201d. Patativa, com muita delicadeza, j\u00e1 me estendendo a m\u00e3o, respondeu: \u201cClaro!\u201d a seguir, tirou os \u00f3culos escuros que estava usando, posicionou o livro pr\u00f3ximo ao rosto e, apoiando-o no ombro, falou: \u201cOs outros botam os \u00f3culos pra escrever, eu tiro\u201d. E desenhou, letra por letra, com todo cuidado: \u201cAnt\u00f4nio Gon\u00e7alves da Silva (Patativa do Assar\u00e9) Fortaleza 6-11-81\u201d. Troquei mais um aperto de m\u00e3o com o Patativa e voltei, alegre como uma crian\u00e7a que ganha um brinquedo muito desejado, para a plateia para esperar a palestra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">A \u00faltima hist\u00f3ria que narrarei \u00e9 mais recente. H\u00e1 alguns anos fui convidado pela Desembargadora Gizela Nunes da Costa, ent\u00e3o Vice-presidente do TRE-CE, para fazer uma palestra na Academia Brasileira de Hagiologia sobre um livro que eu havia publicado em 2001, narrando a viagem que fiz de Lhasa, no Tibet, a Kathmandu, no Nepal, pela cordilheira do Himalaia, peregrinando por templos e mosteiros budistas e hindu\u00edstas. Enfatizei, na minha fala, as semelhan\u00e7as e os pontos de converg\u00eancia entre as religi\u00f5es abordadas, inclusive o Cristianismo. Quando terminou a palestra, o poeta Hor\u00e1cio D\u00eddimo, que era membro da Academia e fora \u00e0 palestra acompanhado de sua esposa, levantou-se, pediu o microfone e falou: \u201cVasco, eu e minha esposa aprendemos muito com a sua palestra. N\u00f3s n\u00e3o conhec\u00edamos nada sobre o Tibet. Voc\u00ea \u00e9 um pont\u00edfice na acep\u00e7\u00e3o etimol\u00f3gica da palavra, um construtor de pontes entre as religi\u00f5es\u201d. Exultei! Meu Deus, foi o maior elogio que recebi em toda minha vida, pois fomentar o di\u00e1logo inter-religioso sempre foi o grande foco das minhas aulas quando fui professor de Hist\u00f3ria das Religi\u00f5es. Em 2016, compareci ao lan\u00e7amento do &#8220;Livro de Sonetilhos&#8221;, lan\u00e7ado pelo autor. Na primeira p\u00e1gina, ele escreveu: \u201cPara Vasco Arruda, nosso pont\u00edfice, com a homenagem e a amizade de Hor\u00e1cio D\u00eddimo. Junho 2016\u201d. Nem acreditei quando li a dedicat\u00f3ria. Na verdade, de todos os meus livros, provavelmente seja este o de maior valor afetivo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Para concluir, quero transcrever o trecho de um lind\u00edssimo poema do Patativa do Assar\u00e9, em que ele atribui a salva\u00e7\u00e3o a um autor pelo simples fato de ter escrito um livro:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">\u201cEu nasci aqui no mato, \/ Vivi sempre a trabai\u00e1, \/ Neste meu pobre recato, \/ Eu n\u00e3o pude estud\u00e1. \/ No verd\u00f4 de minha idade, \/ S\u00f3 tive a felicidade \/ De d\u00e1 um pequeno insaio \/ In dois livro do iscrit\u00f4, \/ O famoso profess\u00f4 \/ Filisberto de Carvaio.\u00a0 \/\/\u00a0 No prem\u00earo livro havia \/ Belas figuras na capa, \/ E no come\u00e7o se lia: \/ A p\u00e1 \u2013 O dedo do Papa, \/ Papa, pia, dedo, dado, \/ Pua, o pote de melado, \/ D\u00e1-me o dado, a fera \u00e9 m\u00e1 \/ E tantas coisa bonita, \/ Qui o meu cora\u00e7\u00e3o parpita \/ Quando eu pego a rescord\u00e1.\u00a0 \/\/\u00a0 Foi os livro de val\u00f4 \/ Mais mai\u00f3 que vi no mundo, \/ Apenas daquele aut\u00f4 \/ Li o prem\u00earo e o segundo; \/ Mas, por\u00e9m, esta leitura, \/ Me tir\u00f4 da treva escura, \/ Mostrando o caminho certo, \/ Bastante me protegeu; \/ Eu juro que Jesus deu \/ Sarva\u00e7\u00e3o a Felisberto\u201d. (Patativa do Assar\u00e9. Cante l\u00e1 que eu canto c\u00e1: Filosofia de um trovador nordestino. Ed. Vozes: Petr\u00f3polis, RJ: 1980, p. 17).<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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