{"id":6140,"date":"2021-09-11T14:10:04","date_gmt":"2021-09-11T17:10:04","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=6140"},"modified":"2025-02-23T12:23:14","modified_gmt":"2025-02-23T15:23:14","slug":"puxando-conversa-sobre-pensamento-deocolonial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2021\/09\/11\/puxando-conversa-sobre-pensamento-deocolonial\/","title":{"rendered":"Puxando conversa sobre pensamento decolonial"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\">\u00c9 preciso recuperar a ideia de que existem alternativas, \u00e9 preciso demonstrar que o pensamento cr\u00edtico euroc\u00eantrico se esgotou na sua capacidade de formular caminhos para lutas contra a domina\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o. \u00c9 momento de p\u00f4r fim ao imp\u00e9rio cognitivo, \u00e9 momento de realizarmos um giro decolonial.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Francisco Uribam Xavier de Holanda<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">[<strong>Holanda, Francisco Uribam Xavier de. Crise Civilizacional e Pensamento Decolonial: Puxando Conversa em Tempos de Pand<\/strong><\/span><span style=\"color: #800080\"><strong>emia<\/strong>. \u2013 Belo Horizonte: Editora Dial\u00e9tica, 2021, p. 52]<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Deliberadamente iniciei a leitura deste livro no dia 7 de setembro. Gosto de atribuir um valor simb\u00f3lico aos fatos e acontecimentos da minha vida, e essa decis\u00e3o tinha um sentido eivado de muito simbolismo, tendo em vista as graves circunst\u00e2ncias em que se previa que seria celebrada a data da Independ\u00eancia do Brasil neste 7 de setembro de 2021. Foi ele, tamb\u00e9m, o primeiro livro adquirido por mim que faz refer\u00eancias \u00e0 pandemia de COVID-19, inclusive explicitada no pr\u00f3prio t\u00edtulo. Isso lhe confere um duplo valor simb\u00f3lico. Foi, digamos, o primeiro livro gestado e vindo a lume nesse momento pand\u00eamico a ser inclu\u00eddo na minha biblioteca.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Quanto ao interesse em adquiri-lo \u2013 provid\u00eancia adotada t\u00e3o logo soube da sua publica\u00e7\u00e3o -, poderia elencar dois motivos. Primeiro, minha admira\u00e7\u00e3o pelo autor, a quem tive oportunidade de ouvir por mais de uma vez em palestras que muito me agradaram, seja pelo conte\u00fado, seja por sua forma de expor o assunto proposto. Segundo, pelo t\u00edtulo, que se desdobra em dois aspectos. O primeiro, a express\u00e3o \u201cpensamento decolonial\u201d, para mim, at\u00e9 ent\u00e3o, desconhecida. O segundo aspecto diz respeito a uma express\u00e3o tamb\u00e9m usada no t\u00edtulo, \u201cpuxando conversa\u201d, que me fez rememorar minhas viagens a Massap\u00ea, ocasi\u00e3o em que eu, meu pai, j\u00e1 falecido, e minha m\u00e3e nos sent\u00e1vamos na cal\u00e7ada pra puxar conversa, depois do jantar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Talvez alguns dos assuntos mais interessantes aflorem nessas ocasi\u00f5es, quando se puxa conversa em fam\u00edlia ou entre amigos. Segundo informa o prof. Uribam na Introdu\u00e7\u00e3o, foi exatamente de uma situa\u00e7\u00e3o como essa, inspirada nas conversas puxadas por Totonho, um pescador da Barra da Sucatinga, que lhe veio o mote para o livro. Paradoxalmente, num momento em que, devido ao fantasma da pandemia, ainda estamos privados da liberdade de p\u00f4r as cadeiras na cal\u00e7ada pra puxar conversa, somos convidados a isso. Talvez, quem sabe, a pandemia com suas lives \u2013 referidas pelo autor no livro -, tenha inaugurado uma nova forma de puxar conversa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Todas as dificuldades vividas pela pandemia tornaram o momento prop\u00edcio para reflex\u00f5es sobre assuntos de grande relev\u00e2ncia, como, por exemplo, a economia. \u00c9 muito oportuna a reflex\u00e3o proposta pelo puxador de conversa (em se tratando dessa obra, prefiro usar essa express\u00e3o ou a palavra conversador para me referir ao autor) logo no in\u00edcio do segundo cap\u00edtulo, ao afirmar: \u201cA crise da COVID-19 nos cria uma oportunidade para que possamos fazer com que a sociedade resgate o sentido original da economia, a saber: de ser um conhecimento voltado para dar resposta \u00e0 escassez de bens materiais necess\u00e1rios \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o coletiva da vida. Mesmo no mundo ocidental encontramos exemplos e reflex\u00f5es que nos ajudam a entender que a origem da economia tem como finalidade os imperativos da vida e n\u00e3o a acumula\u00e7\u00e3o de riquezas\u201d (p. 30).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Est\u00e1 posto a\u00ed um excelente assunto para puxar muita conversa: uma concep\u00e7\u00e3o de economia que tenha por foco n\u00e3o o mercado e a produ\u00e7\u00e3o de bens com vistas \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o e ao lucro, mas a manuten\u00e7\u00e3o da vida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Continuando a conversa puxada pela discuss\u00e3o sobre o papel que caberia ser desempenhado pela economia, prossegue o conversador: \u201cSe adotarmos um modelo de economia voltada para o bem viver e para uma vida plena, para o uso comunit\u00e1rio ou a servi\u00e7o comum da humanidade, a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica existente no mundo hoje j\u00e1 permitiria, desprivatizadas, a melhoria de vida das pessoas e da natureza. J\u00e1 seria poss\u00edvel diminuir, em muito, a pobreza e a necessidade m\u00e9dia do tempo de trabalho di\u00e1rio dedicado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o para o uso coletivo, e com isso ter\u00edamos mais tempo livre para viver e aperfei\u00e7oar as nossas rela\u00e7\u00f5es pessoais e a nossa humaniza\u00e7\u00e3o\u201d (p. 36).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">O problema \u00e9 o entrave causado por pessoas a quem tal mudan\u00e7a de perspectiva certamente causaria enorme pavor, como adverte o nosso puxador de conversa j\u00e1 quase concluindo o assunto: \u201cEssa mudan\u00e7a assusta as mentes estruturadas para dominar, explorar e subordinar. O pavor delas \u00e9 a ideia de ter uma economia que seja uma economia do comum, que tenha a vida como finalidade \u00faltima, em que a igualdade econ\u00f4mica e social possa conviver com as diferen\u00e7as culturais\u201d (p. 36). \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Numa das ocasi\u00f5es em que conversa especificamente sobre o pensamento decolonial, o nosso puxador de conversa acena com uma proposta t\u00e3o ousada quanto necess\u00e1ria; proposta essa que, se levada a efeito, provocaria uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o no ensino e aprendizagem. Diz ele:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">\u201cA constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pol\u00edtica de um projeto transmoderno, do tipo transdisciplinar, para decoloniza\u00e7\u00e3o do modelo de conhecimento sedimentado nas universidades da Am\u00e9rica Latina e, em particular, do Brasil, implica a coexist\u00eancia, no mesmo processo de forma\u00e7\u00e3o, entre distintos elementos pedag\u00f3gicos dos saberes (dos povos origin\u00e1rios, dos povos negros, dos camponeses, dos pescadores, dos povos das florestas, da economia dom\u00e9stica, da constru\u00e7\u00e3o civil, da arte popular, da medicina popular, etc.) e os saberes universit\u00e1rios vigentes. Implica a constru\u00e7\u00e3o de centros educacionais de produ\u00e7\u00e3o, reprodu\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o de usos dos saberes n\u00e3o euroc\u00eantricos. Implica, ainda, o reconhecimento da validade desses saberes e da garantia para que eles possam ser transmitidos em igualdade de condi\u00e7\u00f5es, embora n\u00e3o sejam equivalentes e nem sempre possam ser ensinados de forma disciplinar\u201d (p. 69).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Explicitando o modo de troca de conhecimentos com seus interlocutores, nosso conversador diz, a certa altura da conversa: \u201cGosto de ser professor; um puxador de conversa em sala de aula. Entendo que puxar conversa \u00e9 um ato livre, o que n\u00e3o significa que n\u00e3o possa ter sua complexidade; puxar conversa \u00e9 uma forma de constru\u00e7\u00e3o e socializa\u00e7\u00e3o de saberes complexos porque se trata de um di\u00e1logo que \u00e9 tecido conjuntamente por conversadores diversos, cada qual com o seu saber diferente e complementar, como diz Edgar Morin\u201d. (p.10).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">O professor Uribam \u00e9 um excelente conversador, e o seu livro \u201cCrise Civilizacional e Pensamento Decolonial: Puxando Conversa em Tempos de Pandemia\u201d \u00e9, como uma boa cal\u00e7ada dessas que ainda se encontram em pequenas cidades do interior, uma \u00f3tima oportunidade para puxar conversa com ele sobre assuntos que, pelo tom coloquial como s\u00e3o expostos, ganham em simplicidade sem perder a profundidade, proporcionando a leitores n\u00e3o iniciados nos meandros de assuntos complexos como economia, conjuntura pol\u00edtica e cong\u00eaneres \u2013 dentre os quais me incluo -, possam participar da conversa sem se sentir exclu\u00eddos. Sobre o prop\u00f3sito do livro, ele afirma: \u201cEste livreto \u00e9 o mote da conversa, o primeiro passo, o convite para que possamos tecer juntos uma reflex\u00e3o sobre a crise do processo civilizador da modernidade, sobre o pensamento decolonial, sobre as m\u00faltiplas crises que assolam o Brasil e sobre o car\u00e1ter do Governo Bolsonaro\u201d (p.10).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Sua estrat\u00e9gia foi certeira. Al\u00e9m de me proporcionarem o entendimento dos assuntos puxados na conversa, cheguei ao fim do livro conhecendo um pouco mais sobre o modo de pensar do professor Uribam Xavier, um homem simples que gosta de cuscuz, tapioca, caf\u00e9 com leite, peixe do mar frito com pir\u00e3o e frutas de \u00e9poca. Atualmente \u00e9 ativista decolonial, anti-imperialista e professor titular do Departamento de Ci\u00eancias Sociais da UFC e mora em Fortaleza. Seu \u00faltimo livro publicado foi: \u201cAm\u00e9rica Latina no S\u00e9culo XXI: As resist\u00eancias ao Padr\u00e3o Mundial de Poder\u201d. Escreve com frequ\u00eancia para o site segundaopiniao.jor.br.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Concluo este breve texto com uma fala dele que oferece lastro suficiente para puxar muita conversa na cal\u00e7ada, seja ela de pedra, impressa ou at\u00e9 mesmo virtual: \u201cSe o l\u00edder e intelectual ind\u00edgena Ailton Krenak nos oferece ideias para adiar o fim do mundo, podemos nos juntar a ele e ao seu povo para pensar um outro fim do mundo\u201d (p. 36).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 preciso recuperar a ideia de que existem alternativas, \u00e9 preciso demonstrar que o pensamento cr\u00edtico euroc\u00eantrico se esgotou na sua capacidade de formular caminhos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":6141,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[549,548],"class_list":["post-6140","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-03-arcano-iii-digressoes-de-um-bibliofilo","tag-pensamento-decolonial","tag-uriban-xavier"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6140","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6140"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6140\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6269,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6140\/revisions\/6269"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6141"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6140"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6140"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6140"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}