{"id":6168,"date":"2023-04-21T19:47:04","date_gmt":"2023-04-21T22:47:04","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=6168"},"modified":"2023-04-21T19:50:44","modified_gmt":"2023-04-21T22:50:44","slug":"a-quinquagesima-terceira-conta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2023\/04\/21\/a-quinquagesima-terceira-conta\/","title":{"rendered":"A quinquag\u00e9sima terceira conta"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #993366\"><em>Tu, pelo contr\u00e1rio, me asseguravas que, nas coisas de Deus, n\u00e3o h\u00e1 que considerar a possibilidade, mas a vontade, e que n\u00e3o pode faltar a palavra a quem tem f\u00e9 na Palavra. <\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\"><em>S\u00e3o Jer\u00f4nimo<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\">[Carta escrita no ano de 374, em Antioquia, endere\u00e7ada a Inoc\u00eancio, presb\u00edtero]<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\">Era um homem que acreditava, e, para um homem que acredita, n\u00e3o existem imposs\u00edveis. Aprendera isso havia muito tempo, desde que lera uma hist\u00f3ria que lhe ficaria para sempre impressa na mem\u00f3ria como marca indel\u00e9vel. Estava l\u00e1, registrada no Livro, uma hist\u00f3ria esquisita que falava de um certo anjo que apareceu, assim como que vindo do nada, materializado para transmitir uma mensagem. Talvez, antes mesmo da mensagem, a materializa\u00e7\u00e3o do anjo, ela pr\u00f3pria, j\u00e1 fosse um imposs\u00edvel se realizando.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\">Mais adiante, no mesmo Livro, aquele homem lera um trecho que tomaria como conclus\u00e3o da estranha hist\u00f3ria, em que algu\u00e9m falava para a mulher a quem se dirigira o anjo: \u201cBem-aventurada aquela que acreditou que se cumpriria o que lhe foi dito da parte do Senhor!\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\">\u201cEnt\u00e3o \u00e9 isso!\u201d, concluiu com seus bot\u00f5es, \u201co segredo \u00e9 acreditar.\u201d Mas, acreditar em qu\u00ea? Ou, melhor, em quem? O pior de tudo \u00e9 que aquele era um homem do tipo a quem se poderia qualificar como desconfiado. Simultaneamente cr\u00e9dulo e incr\u00e9dulo. Por isso experimentava contradi\u00e7\u00f5es atrozes que, em frequentes ocasi\u00f5es, lhe martelavam a cabe\u00e7a, deixando sua mente em polvorosa. Nessas horas, imaginem, tinha vontade de que houvesse um mecanismo que, acionando-o, lhe tornasse poss\u00edvel ausentar-se de si mesmo. Mas do que se \u00e9, em ess\u00eancia, ningu\u00e9m se livra; a gente leva a si mesmo, consigo, pra onde for.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\">A\u00ed veio o convite, irresist\u00edvel, tentador. O desafio lhe fora lan\u00e7ado. Uma informa\u00e7\u00e3o tornou a proposta ainda mais tentadora: seriam publicados cinquenta e tr\u00eas contos, numa refer\u00eancia \u00e0s cinquenta e tr\u00eas contas do Ros\u00e1rio, \u00e0s cinquenta e tr\u00eas Ave-Marias. O dele, informou-lhe o amigo, organizador da colet\u00e2nea, seria o quinquag\u00e9simo terceiro, o \u00faltimo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\">Como sempre ocorre nessas ocasi\u00f5es, sobreveio-lhe a grande tortura: aceitar ou n\u00e3o o convite? Foi a\u00ed que se lembrou do livro de S\u00e3o Lu\u00eds Maria Grignion de Montfort, <em>O Segredo Admir\u00e1vel do Sant\u00edssimo Ros\u00e1rio<\/em>. Leria trechos dele e talvez lhe ocorresse alguma inspira\u00e7\u00e3o. Um problema: sabia que a obra se encontrava na sua biblioteca, n\u00e3o junto a outras dispostas lado a lado em uma prateleira, como \u00e9 de praxe, mas em um amontoado de livros empilhados uns sobre os outros. De qualquer maneira, em que pese a dificuldade da tarefa, a busca valia o esfor\u00e7o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\">Ao se curvar diante da enorme pilha de livros, deu uma olhada de cima a baixo, sem conseguir visualizar o que procurava. Num impulso, ergueu de uma vez uns dez livros da pilha, pegando o primeiro que apareceu. E a\u00ed veio a grande surpresa. Pegou um que, apesar de adquirido havia algum tempo, n\u00e3o o tinha lido ainda. Al\u00e9m do t\u00edtulo bastante atrativo, tinha uma rela\u00e7\u00e3o expl\u00edcita com o convite.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\">Aquele homem, al\u00e9m de cr\u00e9dulo, era tamb\u00e9m dado a essas pequenas coisinhas do dia a dia que parecem sinais. Ele gostava de sinais. E se algo lhe acontecia que pudesse ser interpretado como um sinal, ele logo se apegava ao fato e tentava encontrar uma interpreta\u00e7\u00e3o que garantisse um sentido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\">Pois ali estava um sinal incontest\u00e1vel. Havia uma mensagem para ele naquela busca do livro. Afinal, por que pegara exatamente aquele, se nem ao menos se lembrara dele naquele momento? Como sempre faz nessas ocasi\u00f5es, t\u00e3o logo o pegou, abriu-o aleatoriamente (essa pr\u00e1tica, denominada sortes apostolorum, era conhecida desde a Antiguidade, tornando-se popular e muito usada na Idade M\u00e9dia). Abriu-o na p\u00e1gina 15 e leu num \u00e1timo as primeiras palavras que lhe saltaram aos olhos:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\"><em>Na Anuncia\u00e7\u00e3o<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\"><em>Maria contempla a Face de Cristo<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\"><em>Com os olhos do cora\u00e7\u00e3o.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\">Ficou um tempo ali parado, folheando o livro e se perguntando: \u201cPor que exatamente este livro? E por que exatamente estas palavras?\u201d Pensou no Ros\u00e1rio. E lembrou um fato curioso. Havia pouco mais de um ano, indo \u00e0 cidade de Aparecida, adquiriu alguns Ros\u00e1rios para presentear parentes e amigos quando retornasse. Certo dia, pegou um deles para d\u00e1-lo de presente a um amigo. Antes de fazer a embalagem, abriu a caixinha para conferir o conte\u00fado. Para surpresa sua, aquele Ros\u00e1rio era diferente dos demais. Os Ros\u00e1rios, em geral, ao final da sequ\u00eancia dos cinco mist\u00e9rios, t\u00eam uma medalhinha, seguindo-se uma conta maior do Pai-Nosso, tr\u00eas das Ave-Marias, uma outra do Pai-Nosso, terminando com uma cruz.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\">Pois bem, acontece que aquele Ros\u00e1rio tinha, em vez de uma medalha e uma cruz, duas medalhas de Nossa Senhora Aparecida: uma menor, finalizando os mist\u00e9rios, e outra maior, diferente da primeira, substituindo a cruz. Na ocasi\u00e3o, resolveu que ficaria com aquela pe\u00e7a, n\u00e3o a presenteando a ningu\u00e9m. E desde ent\u00e3o, sempre indagava a si mesmo qual o sentido daquela singularidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\">\u201c\u00c9 isso!\u201d, exclamou para si mesmo, juntando a imagem do Ros\u00e1rio com as palavras que fitava, indagativo. Ali estava a chave. Eis o motivo pelo qual aquele estranho Ros\u00e1rio, em vez do crucifixo, trazia uma medalha de Nossa Senhora Aparecida. Na verdade, a cruz estava l\u00e1, mas ele nunca atentara para isso. Cristo estava ali, e o homem n\u00e3o se dera conta. \u00c9 necess\u00e1rio contemplar a Cristo pelo olhar de Maria. Ela nos conduz a Ele. Pelo olhar de Maria, que o contempla com os olhos do cora\u00e7\u00e3o, n\u00f3s contemplamos a Cristo. Ao tocar a ef\u00edgie de Maria, na medalha, cada vez que aquele homem rezava o Ros\u00e1rio, tocava tamb\u00e9m a cruz de Cristo e dele se aproximava, sem que disso tivesse consci\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\">Tomado pelo encanto, decidiu ler o livro na \u00edntegra, e foi ent\u00e3o que se viu agraciado com mais um daqueles epis\u00f3dios luminosos com que Deus o brindava de vez em quando, forte o suficiente para provocar-lhe uma mudan\u00e7a de rumo na vida. A certa altura, depara-se com uma estrofe que se inicia por uma palavra destacada em negrito, provavelmente, para que n\u00e3o passasse despercebida ao leitor (embora, para aquele homem, tal palavra jamais tenha passado despercebida, n\u00e3o importa o contexto em que a tenha lido, pois ele a perseguia havia anos como se persegue a coisa mais desejada, capaz de fornecer a chave do enigma de uma vida):<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\"><em>Metanoia<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\"><em>chega o tempo<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\"><em>em que o que mais importa<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\"><em>n\u00e3o importa mais<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\"><em>Deus resplandece no c\u00e9u e na terra<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\"><em>e em toda a parte<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\">Ler aqueles versos teve o valor de uma revela\u00e7\u00e3o. Ali estava explicitado um apelo e um convite diversas vezes reiterados a ele quando rezava o Ros\u00e1rio, cuja aceita\u00e7\u00e3o fora sempre postergada. Agora, havia chegado o momento. Era algo assim como se lhe tivesse sendo oferecida uma \u00faltima chance.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\">E ali mesmo uma ideia lhe veio \u00e0 mente. Pegaria o Ros\u00e1rio e tiraria dele a \u00faltima conta das cinquenta e tr\u00eas Ave-Marias e a colaria \u00e0 imagem de Nossa Senhora Aparecida, simbolizando uma penit\u00eancia interior. Assim, cada vez que rezasse o Ros\u00e1rio, lembrar-se-ia de que aquela quinquag\u00e9sima terceira conta ausente fora, na verdade, doada a Maria como um pequeno e afetuoso presente, o presente mais valioso de que ele dispunha. O teor da penit\u00eancia, aquele homem, dado a mist\u00e9rios, a ningu\u00e9m revelaria, devendo permanecer para sempre como um segredo entre ele, a Virgem Maria e S\u00e3o Jer\u00f4nimo. Num trabalho delicado e dedicado, fez-se artes\u00e3o para retirar a conta do Ros\u00e1rio e oferec\u00ea-la \u00e0 Virgem Maria, colando-a \u00e0 sua imagem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\">Ocorreu-lhe, tamb\u00e9m, agregar \u00e0 penit\u00eancia interior algo que ofereceria como um pequeno regalo a Nossa Senhora. Quanto a isso, o certo \u00e9 que ele, a quem nunca ocorrera a ideia ou possibilidade de escrever um conto, fizera-se contista para louvar \u00e0 M\u00e3e de Deus e sua maravilhosa e surpreendente intercess\u00e3o pelos filhos que a amam e reverenciam. De fato, o poeta, autor do livro que proporcionara \u00e0quele homem insights de tanta magnitude, tinha consci\u00eancia da verdade que proferira quando escreveu:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\"><em>A palavra po\u00e9tica \u00e9 um reflexo da Palavra restauradora de Deus.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\">Num \u00faltimo gesto, antes de fechar o livro, circunspecto, leu, no sil\u00eancio mais reverente de que at\u00e9 ent\u00e3o fora capaz:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\"><em>CALEI-ME, J\u00c1 N\u00c3O ABRO A BOCA, PORQUE SOIS V\u00d3S QUE OPERAIS. (Sl 38,10)<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993366\">[Conto de autoria de Vasco Arruda, publicado no livro: Eu conto com Nossa Senhora \u00a0\u2215 Bruno Paulino e Luciano D\u00eddimo, organizadores. Fortaleza: Instituto Hor\u00e1cio D\u00eddimo, 2021, p. 152-155.]<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tu, pelo contr\u00e1rio, me asseguravas que, nas coisas de Deus, n\u00e3o h\u00e1 que considerar a possibilidade, mas a vontade, e que n\u00e3o pode faltar a&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":299,"featured_media":6169,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16,43],"tags":[],"class_list":["post-6168","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-13-arcano-xiii-de-maria-nunquam-satis","category-23-o-bau-do-escriba-artaban"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6168","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/299"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6168"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6168\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6172,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6168\/revisions\/6172"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6169"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6168"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6168"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6168"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}