{"id":6262,"date":"2024-11-05T21:07:06","date_gmt":"2024-11-06T00:07:06","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=6262"},"modified":"2024-11-05T21:07:06","modified_gmt":"2024-11-06T00:07:06","slug":"um-parque-de-doze-jardins-e-cem-preciosas-rosas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2024\/11\/05\/um-parque-de-doze-jardins-e-cem-preciosas-rosas\/","title":{"rendered":"Um parque de doze jardins e cem preciosas rosas"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #800080\"><em>Voc\u00ea tem em m\u00e3os umas das mais apuradas constru\u00e7\u00f5es do \u201ctraje a rigor do pensamento\u201d, usando a feliz express\u00e3o do poeta Paulo Bonfim. O soneto exige de quem o cria (e, em certa medida, mesmo de quem o l\u00ea) uma certa dosagem de culto, no sentido primordial desta palavra. \u00c9 algo l\u00f3gico: a cultura de algum valor pressup\u00f5e um culto anterior \u00e0quele valor. A primeira s\u00f3 poder\u00e1 se dar com a presen\u00e7a daquele.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>Luciano Maia<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">[Um livro para a ascese \u2013 texto de Luciano Maia, publicado na orelha do livro <strong>A rosa de p\u00e9rola: sonetos preciosos<\/strong>. <strong>Luciano D\u00eddimo<\/strong>. 1. ed. \u2013 Fortaleza,CE: Instituto Hor\u00e1cio D\u00eddimo, IHD, 2023.]<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Semana passada, enquanto me deleitava com a leitura de um belo livro de sonetos, em determinado momento me veio \u00e0 mente a lembran\u00e7a do Parque Amantikir, que visitei quando estive em Campos do Jord\u00e3o. Ocorre que, assim como este parque, o qual \u00e9 composto por diversos jardins de grande beleza, assim \u00e9 o livro de sonetos que eu tinha em m\u00e3os, \u201cA Rosa de P\u00e9rola: sonetos preciosos\u201d. Dividido em 12 partes, ou melhor, doze jardins \u2013 No jardim da esperan\u00e7a, No jardim do poeta, No jardim de Maria, No jardim do amor, No jardim da vida, No jardim do s\u00edtio, No jardim da semana, No jardim da dor, No jardim da Justi\u00e7a, No jardim da minha terra, No jardim do soneto e No jardim da saudade -, cada um deles composto por uma determinada quantidade de rosas, o livro \u00e9 uma met\u00e1fora para um imenso parque ao longo do qual o leitor poder\u00e1 se deliciar e dar asas \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o ao se deparar com cada uma das cem rosas disseminadas pelos jardins. Pois \u00e9 isso que cada um dos cem sonetos que comp\u00f5em \u201cA Rosa de P\u00e9rola: sonetos preciosos\u201d pode ser considerado, uma rosa que \u00e9 oferecida em cada jardim para deleite do leitor. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">O soneto que d\u00e1 nome \u00e0 publica\u00e7\u00e3o \u00e9 uma homenagem do autor \u00e0 sua esposa, Ruth Leite Vieira, em comemora\u00e7\u00e3o \u00e0s suas bodas de p\u00e9rola, celebradas por meio do lan\u00e7amento do livro. Saliente-se que o soneto foi classificado na categoria \u201cDestaques\u201d no XXII Pr\u00eamio Estadual Ideal Clube de Literatura \u2013 2022, Pr\u00eamio Jos\u00e9 Telles, promovido pelo Ideal Clube e chancelado pela Academia Brasileira de Letras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">A Rosa de P\u00e9rola<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">As p\u00e9talas da rosa preciosa \/ S\u00e3o p\u00e9rolas que encantam nossa vida, \/ Riqueza firmemente bem polida, \/ S\u00e3o joias de beleza esplendorosa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">As p\u00e9rolas da rosa valiosa \/ S\u00e3o p\u00e9talas da vida oferecida, \/ Ef\u00edgie que, na dor, foi esculpida, \/ Por ostra em resist\u00eancia impetuosa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Amor em alian\u00e7a renovada, \/ A rosa dessa cor eu ofere\u00e7o \/ Em p\u00e9talas nascida na jornada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">A rosa desabrocha um recome\u00e7o, \/ Amor envolto em b\u00ean\u00e7\u00e3o perolada \/ S\u00e3o p\u00e9talas de amor que n\u00e3o tem pre\u00e7o! (p. 62)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">N\u00e3o se pense que escrever sonetos seja tarefa f\u00e1cil. A prop\u00f3sito, gostaria de destacar um trecho do Pref\u00e1cio do livro escrito pelo poeta e professor Gilliard Santos, no qual afirma: \u201cTodo sonetista \u00e9, por uma quest\u00e3o de l\u00f3gica, tamb\u00e9m poeta, mas nem todo poeta pode ser considerado sonetista. \u00c9 que o processo de confec\u00e7\u00e3o de um soneto, para al\u00e9m da beleza po\u00e9tica (que \u00e9 um elemento fundamental), \u00e9 tamb\u00e9m uma arte quase matem\u00e1tica. Cada verso \u00e9 minuciosamente pensado, arquitetado, cada palavra cada s\u00edlaba, cada fonema&#8230; Cada som, forte ou fraco, tem o seu lugar milimetricamente projetado&#8230; Mas n\u00e3o pense, leitor, que poesia metrificada \u00e9 o ato de torturar as palavras, de imprens\u00e1-las, de sufoc\u00e1-las&#8230; Muito pelo contr\u00e1rio. Cabe ao bom poeta encontrar a palavra adequada, para o verso certo\u201d (p. 5).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">\u00c9 exatamente desta dificuldade de escrever um bom soneto, que prime, a um s\u00f3 tempo, pela concis\u00e3o e pela clareza de sentido, que surgiu o conhecido dito popular \u201cA emenda saiu pior do que o soneto\u201d. O fato \u00e9 que alguns pretensos sonetistas, n\u00e3o conseguindo escrever um soneto que transmitisse em poucos versos uma mensagem clara e com sentido, incorriam na v\u00e3 tentativa de acrescentar algumas palavras, piorando mais ainda o que j\u00e1 n\u00e3o estava l\u00e1 t\u00e3o bom.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">N\u00e3o \u00e9, nem de longe, o que ocorre com os sonetos apresentados na obra aqui comentada. Todos s\u00e3o de grande beleza, expressando de forma clara e concisa como requer este g\u00eanero liter\u00e1rio mensagens que enaltecem a vida e a arte de bem viver. Al\u00e9m da grande maioria dos sonetos de \u201cA Rosa de P\u00e9rola: sonetos preciosos\u201d serem encabe\u00e7ados por uma ep\u00edgrafe, geralmente de origem b\u00edblica, uma caracter\u00edstica que confere \u00e0 publica\u00e7\u00e3o um valor especial \u00e9 o fato do autor explicitar, ao p\u00e9 da pagina, o estilo de cada um deles. Isso proporciona ao leitor leigo no assunto uma oportunidade para conhecer as diversas formas de escrita desse g\u00eanero liter\u00e1rio. Outra peculiaridade \u00e9 o di\u00e1logo que o autor estabelece, por meio de sua poesia, com algumas obras de arte, como \u00e9 o caso do soneto abaixo, em que dialoga com a obra \u201cAbaporu\u201d, de Tarsila do Amaral.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">A Esperan\u00e7a<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">O sol, pupila ardente grandiosa, \/ Com for\u00e7a, vela o povo brasileiro, \/ Que sofre, resistente, no espinheiro, \/ Em sua via-sacra dolorosa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">H\u00e1 pouca forma\u00e7\u00e3o no seu celeiro, \/ Assim se evita a mente revoltosa. \/ A m\u00e3o, gigante for\u00e7a numerosa, \/ Trabalha, conformada, sem dinheiro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Enormes p\u00e9s, na terra, enraizados, \/ Sem boca, sem ouvidos, norte a sul, \/ Em corpos que parecem deformados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">O intuito \u00e9 que se tornem desumanos. \/ Por\u00e9m, no contemplar do c\u00e9u azul, \/ O povo espera o fim dos desenganos! (p. 21).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">O autor, Luciano D\u00eddimo Camur\u00e7a Vieira nasceu em Fortaleza, CE, em 1971. \u00c9 casado com Ruth Leite Vieira, com quem tem cinco filhos. \u00c9 servidor p\u00fablico federal do Tribunal Regional do Trabalho da 7\u00aa Regi\u00e3o. \u00c9 membro da Ordem dos Carmelitas Descal\u00e7os Seculares (OCDS \u2013 Prov\u00edncia S\u00e3o Jos\u00e9), a qual presidiu por dois tri\u00eanios consecutivos. \u00c9 Presidente do Instituto Hor\u00e1cio D\u00eddimo de Arte, Cultura e Espiritualidade(IHD); membro da Academia Brasileira de Hagiologia (ABRHAGI), a qual presidiu por dois bi\u00eanios consecutivos; membro fundador e Vice-presidente da Academia Brasileira de Sonetistas (ABRASSO). \u00c9 membro da Academia Fortalezense de Letras (AFL), da Academia de Letras dos Munic\u00edpios Cearenses (ALMECE), dentre outras associa\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias da qual tamb\u00e9m faz parte. \u00c9 autor dos livros de poemas \u201cA Rosa da Certeza\u201d (2016), \u201cA Rosa Marrom\u201d (2020), \u201cA Rosa Verde \u2013 Soneto de Esperan\u00e7a\u201d (2021), al\u00e9m de diversas colet\u00e2neas das quais foi o organizador. \u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Para concluir, transcrevo um soneto que, tivesse eu o dom de ser sonetista, gostaria de ter escrito:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">A Porta<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">A porta, sempre aberta \u00e0 minha frente, \/ Convida-me a sair logo de mim, \/ Aguarda, paciente, por meu sim \/ E insiste no convite eternamente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Na porta estreita, pulsa o amor latente, \/ E eu vejo verdes pastos&#8230; n\u00e3o tem fim \/ As rosas coloridas no jardim, \/ Com \u00e1gua rebentando da nascente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Na minha imperfei\u00e7\u00e3o e na pobreza, \/ Contemplo o p\u00e3o e o vinho sobre a mesa; \/ Constato que sou flecha e tamb\u00e9m alvo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Ferido, descortina-me a grandeza, \/ De fato, s\u00f3 me resta uma certeza: \/ Quem passa pela porta ser\u00e1 salvo! (p. 16)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em><strong>Contatos com Luciano D\u00eddimo<\/strong>:<\/em> e-mail: <a style=\"color: #800080\" href=\"mailto:ihd@institutohoraciodidimo.org\">ihd@institutohoraciodidimo.org<\/a> Cel: (85)988955966<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea tem em m\u00e3os umas das mais apuradas constru\u00e7\u00f5es do \u201ctraje a rigor do pensamento\u201d, usando a feliz express\u00e3o do poeta Paulo Bonfim. 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