{"id":6288,"date":"2025-09-28T14:02:53","date_gmt":"2025-09-28T17:02:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=6288"},"modified":"2025-09-28T17:11:29","modified_gmt":"2025-09-28T20:11:29","slug":"do-apocalipse-a-a-invencao-do-desejo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2025\/09\/28\/do-apocalipse-a-a-invencao-do-desejo\/","title":{"rendered":"Do Apocalipse \u00e0 inven\u00e7\u00e3o do desejo"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\">E eu t\u00e3o in\u00e9dita\/ Esperando ser aberta\/ Como um livro sobre o apocalipse de um planeta\/ que n\u00e3o este<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Ana Beatriz Rangel<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">[<strong>A inven\u00e7\u00e3o do desejo<\/strong> \/ <strong>Ana Beatriz Rangel<\/strong>. \u2013 Belo Horizonte: Caravana, 2023. Poema: O livro das revela\u00e7\u00f5es, p. 10]<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Diferentemente do que ocorre na B\u00edblia, ele come\u00e7a pelo Apocalipse. Talvez porque a natureza do tema que lhe serviu como mote e inspira\u00e7\u00e3o seja, em \u00faltima inst\u00e2ncia \u2013 apesar de Freud e Lacan \u2013, t\u00e3o indevass\u00e1vel quanto subversiva, o livro se faz reverso, come\u00e7ando pelo que se esperaria fosse a conclus\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">O verso inicial do poema que abre a publica\u00e7\u00e3o d\u00e1 o tom do que o leitor ter\u00e1 pela frente: \u201cUm rumor sideral atravessa-nos esta noite\u201d, (O livro das revela\u00e7\u00f5es, p. 10). Palavras certeiras e cortantes. Porque se trata disso mesmo, est\u00e1 l\u00e1, na etimologia latina da palavra: <em>De-sidera<\/em> \u2013 algo que tem a ver com estrelas e constela\u00e7\u00f5es. Talvez por isso a palavra c\u00e9u seja reiteradamente repetida, aparecendo em diversos poemas: \u201cTento segurar meus seios\/ Como se eles fossem escapar\/ Para dentro do c\u00e9u\u201d (Extrema-un\u00e7\u00e3o, p. 12); \u201cNada sobe aos c\u00e9us\/ Cair no corpo\/ Cair em si\/ Experimentar a paix\u00e3o sem milagre&#8221; (S\u00e1bado de aleluia, p.13); \u201cOs humanos lan\u00e7am aos c\u00e9us\/ Sua risada\/ Adivinhando a inveja que t\u00eam dos anjos&#8221; (A com\u00e9dia humana, p. 18); \u201cProcuro J\u00fapiter no c\u00e9u\u201d (&#8230;) \u201cEstou sempre mais atrasada que o c\u00e9u\/ N\u00e3o encontro\/ Apenas penso encontrar\u201d (\u00d3rbita familiar, p. 46).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Passado o \u201crumor sideral\u201d explicitado no verso que abre a primeira parte da publica\u00e7\u00e3o, intitulada O Apocalipse, a segunda parte, que tem por t\u00edtulo O teatro, lhe contrap\u00f5e, logo no primeiro poema, \u201cUm sil\u00eancio impregnado\/ De ternura pornogr\u00e1fica\u201d (Estreia, p. 24). A prop\u00f3sito, vale destacar que mesmo numa ocasi\u00e3o em que se deveria antever barulho, som, o que se faz presente \u00e9 o sil\u00eancio: \u201cA solidez desse sil\u00eancio\/ Uma palavra l\u00e2mina\/ Que recolhe a hist\u00f3ria\u201d (Aplauso, p. 29).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Transpostos os umbrais do \u201crumor sideral\u201d experimentado no Apocalipse, e aconchegada ao estranho \u201csil\u00eancio impregnado de ternura pornogr\u00e1fica\u201d vivenciado n\u2019O teatro, torna-se poss\u00edvel, agora, quem sabe, desfrutar de um suave descanso, ao termo da viagem: \u201cMe alegro ao adormecer\/ Sei que regresso aos meus\u201d (Blefe, p. 37). E n\u00e3o poderia ser diferente, posto que A m\u00e1quina a que se refere a terceira e \u00faltima parte da publica\u00e7\u00e3o \u00e9 a pr\u00f3pria alma: \u201cUm bom encontro\/ Corpo a corpo\/ E a alma ent\u00e3o\/ Torna-se m\u00e1quina l\u00edrica\u201d (A m\u00e1quina, p.44). Que ideia instigante: a alma, &#8220;m\u00e1quina l\u00edrica&#8221;, brotando do encontro de corpos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Assim \u00e9 <em>A Inven\u00e7\u00e3o do desejo<\/em> (Caravana, 2023), um livro que fala de \u201cPequenos trajetos\/ E grandes viagens\u201d (Carta a Ulisses, p.51). O livro, dividido em tr\u00eas partes, O Apocalipse, O teatro e A m\u00e1quina, \u00e9 composto por quarenta poemas. Ao concluir a leitura, me perguntei: seria este um n\u00famero casual ou haveria, nisso, tamb\u00e9m um aspecto simb\u00f3lico? Inevit\u00e1vel a associa\u00e7\u00e3o aos quarentas anos que durou a travessia do povo hebreu pelo deserto e aos quarenta dias durante os quais Cristo jejuou, realizando tamb\u00e9m sua travessia pelo deserto da alma. Parece-me vislumbrar algo em comum com a travessia realizada, qui\u00e7\u00e1, tamb\u00e9m pela autora, aqui transmutada em poemas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Ontem \u00e0 noite, ao perceber o quanto A inven\u00e7\u00e3o do desejo est\u00e1 impregnado de uma linguagem em que o sagrado se faz t\u00e3o presente, respingado com toques m\u00edticos e oraculares, n\u00e3o pude me furtar \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de pegar a B\u00edblia e ler alguns trechos do Apocalipse. <\/span><span style=\"color: #800080\">Ap\u00f3s a leitura b\u00edblica, n\u00e3o tendo ainda conclu\u00eddo a reda\u00e7\u00e3o deste texto, me ocorreu uma inusitada ideia: e se eu lesse os poemas de tr\u00e1s pra frente, come\u00e7ando pelo \u00faltimo e terminando no primeiro? O que me provocou essa ideia foi a releitura do poema G\u00eanesis, que, ao contr\u00e1rio do que se poderia esperar, n\u00e3os est\u00e1 posto no in\u00edcio, mas na \u00faltima parte do livro. Mais um caso de revers\u00e3o, j\u00e1 apontada por mim no primeiro par\u00e1grafo deste texto. Assim procedendo estaria eu, talvez, intentando uma poss\u00edvel revers\u00e3o da revers\u00e3o operada pela autora? N\u00e3o resisti \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o e me lancei \u00e0 leitura. Mas, por algum motivo que desconhe\u00e7o, antes de chegar \u00e0 metade do livro, comecei a sentir um estranho inc\u00f4modo e desisti. Conclu\u00ed que ele deveria ser lido na ordem em que os poemas foram publicados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Dediquei alguns dias dessa semana \u00e0 leitura e releitura de A Inven\u00e7\u00e3o do desejo. Uma obra que se presta a muitos olhares e interpreta\u00e7\u00f5es. Um livro que \u00e9, penso, fruto do extravasamento po\u00e9tico que pode resultar quando \u201cO corpo pesado de linguagem\u201d (Estreia, p. 24), j\u00e1 n\u00e3o suportando o sil\u00eancio, d\u00e1 passagem \u00e0 palavra, conferindo-lhe outro corpo, sob a forma de poesia do mais alto quilate. Afinal, \u201cEm sil\u00eancio nenhum deus nasce\u201d (G\u00eanesis, p. 45).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">A autora, Ana beatriz Rangel, \u00e9 jornalista, pesquisdora, oraculista e doutora em Comunica\u00e7\u00e3o e Cultura pela UFRJ. Nasceu em Campos dos Goytacazes em 1991 e desde 2009 reside no Rio de Janeiro. Lan\u00e7ou em 2016 seu primeiro livro de poemas <em>\u00c9 preciso dan\u00e7ar na l\u00edngua dos predadores<\/em>. Atualmente pesquisa, escreve e ministra cursos sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a palavra po\u00e9tica e os saberes oraculares.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Concluo estas breves impress\u00f5es de leitura transcrevendo alguns versos de um poema que, a meu ver, sintetizam de forma lapidar aquilo de que se ocupa Ana Beatriz Rangel nos seus inspirados poemas, o desejo \u2013 e que, por extens\u00e3o, podem se aplicar tamb\u00e9m \u00e0 sua poesia: \u201cRecomenda-se n\u00e3o olhar diretamente para o sol\/ Conv\u00e9m diante do sol \/Proteger a escurid\u00e3o\u201d (Feche os olhos, p. 22). Palavra de oraculista.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Encontre a autora no Instagram: @apalavrabeatriz. \u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E eu t\u00e3o in\u00e9dita\/ Esperando ser aberta\/ Como um livro sobre o apocalipse de um planeta\/ que n\u00e3o este Ana Beatriz Rangel [A inven\u00e7\u00e3o do&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":299,"featured_media":6303,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[660,659,663,662,661],"class_list":["post-6288","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-03-arcano-iii-digressoes-de-um-bibliofilo","tag-a-invencao-do-desejo","tag-ana-beatriz-rangel","tag-desejo","tag-o-futuro-e-absurdo","tag-poesia"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6288","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/299"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6288"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6288\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6305,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6288\/revisions\/6305"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6303"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6288"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6288"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6288"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}