{"id":6308,"date":"2025-10-28T19:09:42","date_gmt":"2025-10-28T22:09:42","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=6308"},"modified":"2025-10-28T19:24:37","modified_gmt":"2025-10-28T22:24:37","slug":"pelas-trilhas-e-veredas-com-pierre-nadie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2025\/10\/28\/pelas-trilhas-e-veredas-com-pierre-nadie\/","title":{"rendered":"Pelas trilhas e veredas com Pierre Nadie"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\">H\u00e1 um prov\u00e9rbio \u00e1rabe que diz: Busque as pessoas e depois escolha o caminho. O caminho jamais ser\u00e1 secund\u00e1rio, pois \u00e9 ele o condutor da jornada. No entanto, ele n\u00e3o se faz a si mesmo, nem \u00e9 uma trilha isolada.<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Pedro Bezerra de Ara\u00fajo<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">[<strong>Sol ao Luar<\/strong> \/ <strong>Pedro Bezerra de Ara\u00fajo<\/strong>. &#8211; Fortaleza: RDS, 2025, p. 204.]<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Cada vez que encomendo um livro, aguardo sempre com muita expectativa a alegria daquele momento em que o porteiro do condom\u00ednio interfona informando que chegou uma encomenda. Entretanto, quando isso acontece sem que eu nada houvesse encomendado, a alegria \u00e9 redobrada, pois tem o sabor de uma surpresa. Foi o que me aconteceu ter\u00e7a-feira passada, quando recebi um pacote cujo conte\u00fado e remetente eu ignorava.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Ao abri-lo, deparei-me com um alentado volume de 359 p\u00e1ginas. Confesso que o t\u00edtulo me intrigou um pouco. Estaria estampada naquela capa uma contradi\u00e7\u00e3o? Ou se trataria, antes, de um paradoxo? Ou algo mais que o autor pretendera propor como enigma a ser desvelado somente ao longo da leitura? N\u00e3o importa em qual dessas alternativas se enquadre, o fato \u00e9 que, quanto a mim, aquele t\u00edtulo j\u00e1 cumprira uma importante fun\u00e7\u00e3o, qual seja, a de agu\u00e7ar a minha curiosidade, despertando-me o interesse pela leitura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Mais um aspecto curioso. Acima do t\u00edtulo, estavam grafados os nomes dos dois autores da publica\u00e7\u00e3o. Tratei logo de procurar os respectivos dados biogr\u00e1ficos. Estranhamente, s\u00f3 havia informa\u00e7\u00f5es a respeito de um deles, estando ausentes quaisquer informa\u00e7\u00f5es, por m\u00ednimas que fossem, sobre o outro. Mais um fator a agu\u00e7ar a minha curiosidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Motivado por essas curiosidades iniciais, lancei-me no mesmo dia \u00e0 leitura. N\u00e3o tardei a descobrir que aquele livro se oferecia a mim, na condi\u00e7\u00e3o de leitor, como a met\u00e1fora de uma grande jornada a ser encetada por dois companheiros de viagem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Por algum motivo pareceu-me que a figura que aparecia como um dos autores da obra, cuja biografia, no entanto, permanecia oculta, me convidava a segui-lo. E foi assim que, conduzido pela enigm\u00e1tica figura de Pierre Nadie, embarquei numa jornada movido pela sedutora promessa de, em algum lugar e ocasi\u00e3o para mim ainda n\u00e3o revelados, desfrutar da curiosa experi\u00eancia de contemplar o Sol ao Luar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Ao longo da jornada, informou-me Pierre Nadie, percorrer\u00edamos muitas trilhas. Fez quest\u00e3o de precisar o n\u00famero: noventa e tr\u00eas, al\u00e9m de cinco trilhas conclusivas. Vez por outra nos deparar\u00edamos com algumas veredas, mas, disse-me, n\u00e3o precisava me preocupar com isso. Na verdade, tais veredas, ao inv\u00e9s de desvios, cumpriam a fun\u00e7\u00e3o de balizas, delimitando um pouco as trilhas percorridas. Completou, \u00e0 guisa de explica\u00e7\u00e3o:\u00a0 \u201cQuais trilhas, o caminho do amor \u00e9 entrela\u00e7ado de veredas, que fortalecem e oxigenam o relacionamento e a amizade\u201d (p. 187).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Com tanto ch\u00e3o para percorrer, vislumbrei de imediato a possibilidade de que uma excitante aventura estivesse come\u00e7ando para mim por meio daquele inusitado encontro. Pierre Nadie, ali desempenhando o papel de guia de viagem para mim, p\u00f4s a m\u00e3o no meu ombro e mostrou-me, pouco \u00e0 frente de onde nos encontr\u00e1vamos, uma pequena ponte sobre um regato, indo dar numa trilha cuja entrada era guarnecida por cinco palmeiras. O lugar me fez lembrar um pouco o Balne\u00e1rio Veneza, da cidade de Caxias, no Maranh\u00e3o. Ao cruzarmos a ponte, meu companheiro me informou que est\u00e1vamos acessando a Entrada Alfa. \u201cEstamos entrando no mundo do outro e o outro entrando no nosso mundo\u201d, disse-me, um tanto enigmaticamente, completando, a seguir, com uma senten\u00e7a que me soou como uma injun\u00e7\u00e3o: \u201cO \u2018eu\u2019 \u00e9 o administrador dessa jornada. Oxal\u00e1, n\u00e3o seja apenas o figurante!\u201d (p.63; p.173). Sem que o percebesse de imediato, eu come\u00e7ava, ali, a receber as primeiras pistas que, aos poucos, me fariam desvendar o termo daquele p\u00e9riplo. Mais adiante, nos deparar\u00edamos, ainda, com duas outras entradas: Entrada Beta e Entrada Gama.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Enquanto segu\u00edamos, cada um absorto em seus pensamentos e rumina\u00e7\u00f5es, deixamos a trilha e seguimos por uma vereda que conflu\u00eda para um apraz\u00edvel campo onde medravam bambus t\u00e3o altos que pareciam tocar o c\u00e9u, o que levou meu companheiro a observar que \u201cO bambu, diferente de uma \u00e1rvore r\u00edgida, curva-se ao vendaval e tempestades para n\u00e3o se quebrar, retornando a sua posi\u00e7\u00e3o original, ap\u00f3s o \u2018sufoco\u2019\u201d (p. 111).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Prosseguimos palmilhando outras tantas trilhas e veredas, cujas peculiaridades ofereciam a oportunidade para que Pierre tecesse met\u00e1foras sempre pass\u00edveis de serem transpostas para a pr\u00f3pria vida, como, por exemplo, quando tomamos uma trilha \u00edngreme e pedregosa, e ele logo admoestou: \u201cN\u00e3o importa tanto a aspereza do terreno, quanto a determina\u00e7\u00e3o do querer e o querer da determina\u00e7\u00e3o. Terrenos s\u00e3o trat\u00e1veis e quereres, respeit\u00e1veis\u201d (p. 149). Manter o passo, pois, demanda f\u00e9, confian\u00e7a e muita esperan\u00e7a. \u201cF\u00e9, que n\u00e3o seja subservi\u00eancia, confian\u00e7a que n\u00e3o seja insana esperan\u00e7a, amor que n\u00e3o seja autofagia\u201d, nunca esquecendo que \u201cA esperan\u00e7a confia no acontecer, sai \u00e0 porfia, tenta, ousa, muda, recome\u00e7a e jamais desiste\u201d (p. 255;p. 148).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Quando, ao entrarmos por uma vereda, o terreno se fez seco e des\u00e9rtico, Pierre Nadie aproveitou para falar do complexo tema da amizade, segredando-me que, na vida, vez por outra \u201cUm deserto vem e p\u00f5e-nos \u00e0 prova\u201d. Por isso, \u201cAntes de chegar aos o\u00e1sis do relacionamento e da amizade, nada melhor a fazer do que passear pelos nossos desertos e fruir, sofregamente, de nossos o\u00e1sis\u201d, completando, a seguir: \u201cO deserto ajuda-nos a burilar-nos e lapidar, sem a ing\u00eanua e tir\u00e2nica preocupa\u00e7\u00e3o de mudar o outro para \u2018poder am\u00e1-lo\u2019\u201d (p.223; p. 224).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Creio que tenha sido a essa altura da jornada que comecei a vislumbrar a chave do enigma. Sob o pretexto de uma viagem, Pierre Nadie me proporcionava a oportunidade de vivenciar uma grande jornada metaf\u00f3rica cujo destino era chegar ao \u00e2mago de mim mesmo. Eis a explica\u00e7\u00e3o para a necessidade de percorrer tantas e t\u00e3o diversificadas trilhas e veredas. \u201cTais conhecen\u00e7as da caminhada, aos poucos, delineiam nossa viv\u00eancia, engendram atitudes e definem o \u2018status\u2019 de como nos vamos relacionar, tanto nas rela\u00e7\u00f5es macroestruturais, quanto nas micro conjunturais, amizades e intimidades\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Agora se tornava claro porque, no in\u00edcio da jornada, meu companheiro me falara de entrar no mundo do outro, de amizade e, tamb\u00e9m, do eu. Talvez quisesse me indicar que a caminhada da vida se faz e acontece na intersubjetividade, na rela\u00e7\u00e3o, em suma, na amizade e no amor. Em que pese tais considera\u00e7\u00f5es, \u201cO caminho do encontro nasce no jardim, imp\u00e1vido, pelos campos interiores e d\u00e1-se na conflu\u00eancia deles\u201d, possibilitand0-nos \u00a0\u201c&#8230;retomar as r\u00e9deas de si e ressignificar o que est\u00e1 incomodando e azucrinando a vida\u201d (p. 182; p. 233).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">J\u00e1 quase ao termo da jornada, chegamos a um lindo bosque no centro do qual vislumbramos uma enorme \u00e1rvore a cujo tronco recostava-se um homem de bra\u00e7os abertos como a posar para uma fotografia. Pierre Nadie, apontando-o, disse-me que tudo que experiment\u00e1ramos ao longo da jornada se devia \u00e0quele homem. Foi da cabe\u00e7a dele que saiu Sol ao Luar, livro de reflex\u00f5es filos\u00f3ficas sobre a vida e a arte de bem viver, publica\u00e7\u00e3o que tem a peculiaridade de ser dividida em entradas, trilhas e veredas, ao inv\u00e9s de cap\u00edtulos. Seu nome, disse-me, \u00e9 Pedro Bezerra de Ara\u00fajo. Esse homem que voc\u00ea v\u00ea a\u00ed recostado a essa \u00e1rvore tem uma rica hist\u00f3ria, sobre a qual lhe darei apenas algumas informa\u00e7\u00f5es, pois fosse dizer tudo o que ele fez na vida, passar\u00edamos aqui um dia inteiro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">De fam\u00edlia cearense, nascido em Caxias-Maranh\u00e3o, Pedro Bezerra de Ara\u00fajo \u00e9 ex-seminarista capuchinho, educador, professor aposentado da UECE e UFC, com especializa\u00e7\u00e3o em Medicina comunit\u00e1ria e situa\u00e7\u00f5es de cat\u00e1strofes, Mestrado, todos em Paris. Tem forma\u00e7\u00e3o em Medicina, Psicologia, Matem\u00e1tica, Pedagogia, Filosofia, Teologia, Sa\u00fade Comunit\u00e1ria, Rela\u00e7\u00f5es Humanas Intra e Interpessoais, Empreendedorismo. \u00c9 membro da Academia de Ci\u00eancias Sociais do Cear\u00e1-ACSC, da Sociedade Portuguesa de Estudos do S\u00e9culo XVIII, da Academia Brasileira de Hagiologia (vice-presidente), da Academia Independente de Letras, da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo e Arc\u00e1dia Alencarina, dentre outras. Como escritor, publicou 38 livros, dentre os quais Sol ao Luar, fonte de inspira\u00e7\u00e3o para este texto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Como \u00faltimo ato daquele singular encontro, Pierre Nadie apertou-me a m\u00e3o, deu-me um caloroso abra\u00e7o, e me olhando nos olhos, disse que eu nunca esquecesse que \u201cNossa jornada \u00e9 \u00fanica, n\u00e3o tem ensaio e prescinde de retorno\u201d (p. 355). E sumiu na \u00faltima trilha que partia daquele bosque.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">&#8220;Mas afinal, Vasco&#8221;, poder\u00e1 indagar algum leitor ou leitora deste texto, &#8220;voc\u00ea informou alguns dados biogr\u00e1ficos do Pedro Bezerra de Ara\u00fajo. Mas, e quanto ao outro autor, Pierre Nadie, que foi para voc\u00ea o \u201ccompanheiro desta epopeia humana\u201d? (p.33) Quanto a isso, respondo apenas que, para descobri-lo, cada um ter\u00e1 que ler Sol ao Luar, pois n\u00e3o vou roubar ao leitor o prazer e a aventura de solucionar por si mesmo este enigma. Ou pergunte diretamente ao Pedro, o que poder\u00e1 faz\u00ea-lo pelo e-mail: paieutica@gmail.com.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um prov\u00e9rbio \u00e1rabe que diz: Busque as pessoas e depois escolha o caminho. O caminho jamais ser\u00e1 secund\u00e1rio, pois \u00e9 ele o condutor da&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":299,"featured_media":6315,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[665,666,667],"class_list":["post-6308","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-03-arcano-iii-digressoes-de-um-bibliofilo","tag-pedro-bezerra-de-araujo","tag-pierre-nadie","tag-sol-ao-luar"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6308","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/299"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6308"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6308\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6310,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6308\/revisions\/6310"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6315"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6308"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6308"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6308"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}