{"id":653,"date":"2009-09-13T12:21:39","date_gmt":"2009-09-13T15:21:39","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=653"},"modified":"2009-09-13T12:21:39","modified_gmt":"2009-09-13T15:21:39","slug":"interludio-a-meio-caminho-entre-palmyra-e-tagaste-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/09\/13\/interludio-a-meio-caminho-entre-palmyra-e-tagaste-ii\/","title":{"rendered":"Interl\u00fadio a meio caminho entre Palmyra e Tagaste (II)"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #800080\">Na manh\u00e3 seguinte, prosseguiram viagem pelo mesmo caminho. Enquanto seguiam, Hermas dirigiu-lhe a palavra: \u201cN\u00e3o tens ainda um nome, porque dele n\u00e3o te fizeste ainda merecedor. Um nome n\u00e3o se ganha, conquista-se. E n\u00e3o conquistaste ainda o teu. N\u00e3o te iludas, no entanto.\u00a0 Nunca te esque\u00e7as de que n\u00e3o depende exclusivamente de ti conquistar o almejado nome. Este \u00e9 tamb\u00e9m, em certa medida, dom, e um dom \u00e9 sempre gratuito.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Aquelas palavras o deixaram perturbado. At\u00e9 que ponto, afinal, era ele respons\u00e1vel pela conquista do nome? Atribu\u00eda a si toda responsabilidade pela conquista, mas eis que Hermas, o Pastor, acenava-lhe agora com uma nova possibilidade. Mas uma possibilidade que o deixava numa encruzilhada: se a conquista do nome era em parte responsabilidade dele e, em parte, fruto de um dom, que medida lhe cabia nessa enigm\u00e1tica situa\u00e7\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Estava desapontado, decepcionado consigo mesmo. Porque aquele homem pensava que era capaz de tudo, ou de quase tudo. Comportava-se como uma esp\u00e9cie de super-her\u00f3i a quem fora dada a incumb\u00eancia de salvar o mundo. Mas, se ele n\u00e3o conseguia salvar nem a si mesmo? Ainda assim, atribu\u00eda a si ares de grande import\u00e2ncia. As palavras de Hermas, por\u00e9m, lan\u00e7aram por terra boa parte de suas certezas acerca do processo inici\u00e1tico em andamento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">\u201cVejo que minhas palavras te causaram inc\u00f4modo. Melhor assim. N\u00e3o te perturbes. A matura\u00e7\u00e3o deve acontecer no \u00edntimo de ti mesmo. Devo recordar-te que aos impacientes n\u00e3o \u00e9 concedido qualquer acesso aos grandes mist\u00e9rios. Uma escuta atenta e a paci\u00eancia para que as palavras provoquem a necess\u00e1ria transforma\u00e7\u00e3o constituem condi\u00e7\u00f5es primordiais e indispens\u00e1veis para galgar o n\u00edvel de saber por ti almejado\u201d, disse Hermas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Paci\u00eancia. Nenhuma palavra seria t\u00e3o inc\u00f4moda para aquele homem. &#8220;Paci\u00eancia&#8221;, murmurou entre dentes de si para si. N\u00e3o ousava ainda dizer nada. Paci\u00eancia. Paci\u00eancia. Paci\u00eancia. At\u00e9 no andar aquele homem era impaciente. Recordou que certa vez, h\u00e1 muitos anos, enquanto caminhava com uma amiga em dire\u00e7\u00e3o a um restaurante, esta lhe perguntara \u00e0 queima-roupa: \u201cTens pressa de viver?\u201d Ao que ele retrucou, surpreso: \u201cPor qu\u00ea?\u201d A resposta foi imediata: \u201cPelo teu modo de caminhar, parece que tens pressa de viver\u201d. Profundamente impressionado e, mais que isso, surpreso pela observa\u00e7\u00e3o, passou anos remoendo o fato. Ali, enquanto caminhavam para Tagaste, passados mais de vinte anos, a observa\u00e7\u00e3o intempestiva voltava-lhe \u00e0 mente. \u201cPressa de viver\u201d. Parece que ele tinha mesmo pressa de viver.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Uma oliveira que margeava a estrada despertou-lhe a aten\u00e7\u00e3o. F\u00ea-lo lembrar de uma hist\u00f3ria que um condisc\u00edpulo lhe contara, de que o Mestre a cuja morada se dirigiam tinha por costume conversar com seus disc\u00edpulos sob uma centen\u00e1ria oliveira. Seria aquela vis\u00e3o um sinal a lhe indicar\u00a0que dentro de pouco mais de cinco dias teria o almejado encontro com o Mestre?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Porque uma coisa era certa: aquele homem, devido aos longos anos de busca, aprendera a ler os sinais. Olhou para o lado para observar a rea\u00e7\u00e3o do companheiro de jornada. A Hermas, pareceu-lhe, a presen\u00e7a da velha oliveira \u00e0 margem da estrada passara inc\u00f3lume. \u201cQue coisa, essa minha mania de ver sinais em tudo.\u00a0At\u00e9 numa inocente \u00e1rvore \u00e0 margem da estrada eu vejo sinais!\u201d, murmurou para si mesmo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Quando o sol j\u00e1 declinava, avistaram algumas tendas que abrigavam fam\u00edlias de tuaregues. Aproximaram-se de uma delas e ali encontraram comida quente e um teto para pernoitar. J\u00e1 noite, ficou a cismar fitando o belo c\u00e9u estrelado do deserto. Olhar para aquele c\u00e9u e pensar no infinito causava-lhe vertigem. Sentiu-se t\u00e3o pobre, t\u00e3o s\u00f3, t\u00e3o desolado. Aquele era um homem que seguia. Para onde? Nem ele sabia.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na manh\u00e3 seguinte, prosseguiram viagem pelo mesmo caminho. 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