{"id":672,"date":"2009-09-14T06:21:31","date_gmt":"2009-09-14T09:21:31","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=672"},"modified":"2009-09-14T06:21:31","modified_gmt":"2009-09-14T09:21:31","slug":"da-surpresa-de-se-saber-lido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/09\/14\/da-surpresa-de-se-saber-lido\/","title":{"rendered":"Da surpresa de se saber lido"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\">Na fala, a palavra que digo ou me escapa est\u00e1 dita. N\u00e3o h\u00e1 como fugir ao fato. Mas na escrita posso apag\u00e1-la, suprimi-la ou substitu\u00ed-la. No ato de escrever sinto-me dono de meu pr\u00f3prio texto. Posso mud\u00e1-lo a qualquer momento, destru\u00ed-lo at\u00e9. Quando, por\u00e9m, ele ganha mundo, quando passa ao dom\u00ednio p\u00fablico, sinto que me fugiu, emancipou-se, escapou de meu alcance. Uma sensa\u00e7\u00e3o muito viva e estranha: a de s\u00f3 agora ver a cara de meu filho ao mesmo tempo que dele me despe\u00e7o; v\u00ea-lo cair na vida, ausentar-se entregue \u00e0 indiscri\u00e7\u00e3o de quem n\u00e3o conhe\u00e7o, a destinos que fogem a meu controle. Talvez \u00e0 chacota e ao desprezo, talvez \u00e0 acolhida amiga, \u00e0 simp\u00e1tica oportunidade de ser \u00fatil a algu\u00e9m. \u00c9 isso que faz dram\u00e1tico meu ato de escrever, e cheio de surpresas, de temores e alegrias.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Mario Osorio Marques<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[Marques, Mario Osorio. Escrever \u00e9 preciso: o princ\u00edpio da pesquisa. Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 2008, p. 27.]<\/span><\/em><\/p>\n<p>Desde que comecei a escrever para este blog tenho vivido algumas situa\u00e7\u00f5es que me t\u00eam surpreendido. Isso tem acontecido especialmente quando pessoas me interpelam para fazer algum coment\u00e1rio sobre um ou outro texto postado por mim. H\u00e1 v\u00e1rios motivos que podem levar uma pessoa a se dedicar ao of\u00edcio da escrita, mas um, parece-me, sobressai entre todos os poss\u00edveis por ser o fundamento mesmo do ato de escrever: uma pessoa escreve para ser lida.<\/p>\n<p>Recordo que li certa vez, n\u00e3o me recordo onde, um coment\u00e1rio de algu\u00e9m que dizia que at\u00e9 mesmo um di\u00e1rio, que supostamente \u00e9 escrito apenas por quest\u00f5es de foro \u00edntimo, quem o escreve o faz porque tem a secreta esperan\u00e7a de um dia vir a ser lido. Portanto, mesmo um di\u00e1rio destina-se a ser lido por outrem.<\/p>\n<p>Acontece que mesmo\u00a0se escrevendo com o intuito de ser lido, ainda assim, resta sempre, parece-me, um que de surpresa ao saber que algu\u00e9m leu o nosso texto. \u00c9 o que me tem ocorrido nos \u00faltimos dias. Quando algu\u00e9m me interpela e diz: \u201cTenho lido os textos do seu blog\u201d, e para por a\u00ed, \u00e9 inevit\u00e1vel que algumas quest\u00f5es se imponham a mim, tais como: o que pensar\u00e1 esta pessoa dos meus textos? Como ser\u00e1 que ela reage \u00e0s minhas id\u00e9ias? O que pensar\u00e1 do meu estilo? Ser\u00e1 que, de alguma forma, lhe \u00e9 \u00fatil o que escrevo? E se tudo, afinal, n\u00e3o passar de um desses coment\u00e1rios que se faz meio ociosamente, digamos assim, sem outro prop\u00f3sito a n\u00e3o ser o de agradar ao nosso interlocutor?<\/p>\n<p>Creio que a rela\u00e7\u00e3o que se estabelece entre o escritor e o leitor seja uma das mais singulares formas de di\u00e1logo que se possa elencar no rol da experi\u00eancia humana. Di\u00e1logo pressup\u00f5e conversa entre as partes envolvidas. Paradoxalmente, por\u00e9m, o di\u00e1logo entre quem escreve e aquele ou aquela que o l\u00ea se d\u00e1 em sil\u00eancio, mediado apenas pelo texto. Entre o sil\u00eancio do escritor e o sil\u00eancio do leitor se interp\u00f5e o texto. \u00c9 pelo texto que fala o autor e \u00e9 igualmente pelo texto que fala o leitor. Somente pela interpreta\u00e7\u00e3o que faz daquilo que lhe chega pela escrita \u00e9 que o leitor ganhar\u00e1 voz nessa curiosa rela\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Dois fatos ocorridos na ultima semana motivaram as reflex\u00f5es feitas aqui. Primeiro, quando uma amiga\u00a0chegou em minha casa e disse que, desde que soube deste blog, tem imprimido sempre os textos e lido com seu esposo. E completou: \u201cTamb\u00e9m tenho levado para mam\u00e3e ler aos domingos. No \u00faltimo domingo ela falou: \u2018Diga ao Vasco que eu mandei uma frase de um texto dele para um padre que \u00e9 meu amigo, mas eu pus a frase entre aspas\u2019\u201d. A primeira quest\u00e3o que me ocorreu foi: que frase ter\u00e1 sido essa e o que ter\u00e1 pensado o tal padre?<\/p>\n<p>O segundo fato, que me deixou igualmente surpreso, ocorreu no s\u00e1bado quando escrevia o texto que postaria no domingo e, indo \u00e0 cozinha para pegar um caf\u00e9, minha esposa, Naza, falou\u00a0que uma\u00a0amiga comentara com ela que gosta muito do meu estilo de escrever.\u00a0<\/p>\n<p>Na verdade, ainda me causa surpresa saber que algu\u00e9m se disp\u00f5e a gastar um pouco do seu tempo lendo o que escrevo. \u00c9 um sentir-se acolhido de que, talvez, n\u00e3o me sinta merecedor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na fala, a palavra que digo ou me escapa est\u00e1 dita. N\u00e3o h\u00e1 como fugir ao fato. 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