{"id":693,"date":"2009-09-16T06:21:50","date_gmt":"2009-09-16T09:21:50","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=693"},"modified":"2009-09-16T06:21:50","modified_gmt":"2009-09-16T09:21:50","slug":"o-rubaiyat-interpretacao-espiritual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/09\/16\/o-rubaiyat-interpretacao-espiritual\/","title":{"rendered":"O Rubaiyat, interpreta\u00e7\u00e3o espiritual"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #000080\"><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-694\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/2009\/09\/Digitalizar0002-300x392.jpg\" alt=\"Digitalizar0002\" width=\"300\" height=\"392\" \/>H\u00e1\u00a0 muito tempo, na \u00cdndia, conheci um vener\u00e1vel poeta persa que me disse ter a poesia da P\u00e9rsia, ami\u00fade, dois significados: um, interno e outro, externo. Recordo-me da grande satisfa\u00e7\u00e3o que produziram em mim suas explica\u00e7\u00f5es a respeito do duplo siginificado de v\u00e1rios poemas persas. Um dia, quando me encontrava profundamente concentrado nas p\u00e1ginas do <\/em>Rubaiyat <em>de Omar Khayyam, contemplei, de s\u00fabito, as paredes dos seus significados externos desmoronarem, e a imensa fortaleza interna de \u00e1ureos tesouros espirituais ofereceu-se, aberta, ao meu olhar. Desde ent\u00e3o, tenho admirado a beleza do castelo de sabedoria interior, antes invis\u00edvel, do <\/em>Rubayyat<em>. Tenho sentido que esse castelo on\u00edrico da verdade, que pode ser visto por qualquer olho perspicaz, haveria de ser um santu\u00e1rio para muitas almas que, invadidas pelos ex\u00e9rcitos inimigos da ignor\u00e2ncia, estivessem a buscar ref\u00fagio.<\/em><\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Paramahansa Yogananda<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[Yogananda, Paramahansa. O Vinho do M\u00edstico: O Rubayyat de Omar Khayyam, Interpreta\u00e7\u00e3o Espiritual (A partir da tradu\u00e7\u00e3o do Rubayyat de Edward FitGerald). \u2013 Traduzido em portugu\u00eas pela Self Realization Fellowship. Los Angeles: Calif\u00f3rnia, USA: 1998, p. ix.]<\/span><\/em><\/p>\n<p>Na \u00faltima quarta-feira comentei neste blog a tradu\u00e7\u00e3o do <em>Rubaiyat<\/em> feita por Manuel Bandeira, editada em 2001 pela Ediouro. No texto, informei que, nesta ter\u00e7a-feira, comentaria uma outra tradu\u00e7\u00e3o do <em>Rubaiyat<\/em>, neste caso, a que o Mestre indiano Paramahansa Yogananda fez a partir da tradu\u00e7\u00e3o inglesa de Edward FitzGerald. Ei-la, pois.<\/p>\n<p>Na Introdu\u00e7\u00e3o redigida para o livro, Yoganandaj\u00ed afirma, a prop\u00f3sito do poema: \u201cMuitas de suas estrofes s\u00e3o t\u00e3o puramente espirituais que dificilmente pode-se derivar delas algum significado material;\u00a0 \u00e9 o caso, por exemplo, das quadras XLIV, LX e LXVI. (&#8230;) Com a ajuda de um erudito persa, traduzi o <em>Rubaiyat<\/em> original para o ingl\u00eas. Descobri, por\u00e9m, que embora literalmente traduzido, ele carecia do esp\u00edrito ardente do original de Khayyam. Depois que comparei essa tradu\u00e7\u00e3o com a de FtzGerald, compreendi que esta \u00faltima fora divinamente inspirada para captar, em ingl\u00eas, a alma dos escritos de Omar em palavras gloriosamente musicais. Portanto, decidi interpretar o significado interno oculto dos versos de Omar a partir da tradu\u00e7\u00e3o de FitzGerald, e n\u00e3o da minha, ou de qualquer outra que houvesse lido\u201d (p.x).<\/p>\n<p>Yoganandaj\u00ed procedeu da seguinte maneira: primeiro, ele oferece a tradu\u00e7\u00e3o da quadra de Khayyam; segue-se um gloss\u00e1rio em que explica algumas palavras ou express\u00f5es usadas pelo autor; por fim, oferece uma interpreta\u00e7\u00e3o da quadra. Citemos, como exemplo, a tradu\u00e7\u00e3o da primeira quadra, conforme a estrutura adotada pelo Mestre indiano:<\/p>\n<p><em>Desperta! O Alvorecer no Graal da Noite atira\/ A Pedra que \u00e0s Estrelas seu fugir produz,\/ E o Ca\u00e7ador do Leste acaba de prender\/ A Torre do Sult\u00e3o em um La\u00e7o de Luz.<\/em><\/p>\n<p><em>Gloss\u00e1rio: <strong>Alvorecer<\/strong>: a alba do despertar da ilus\u00f3ria exist\u00eancia terrena. <strong>Graal da noite<\/strong>: as trevas da ignor\u00e2ncia, que aprisonam a alma imortal na consci\u00eancia mortal. <strong>Pedra<\/strong>: a disciplina espiritual. <strong>Estrelas<\/strong>: a atraente cintila\u00e7\u00e3o dos desejos materiais. <strong>Ca\u00e7ador do Leste<\/strong>: a sabedoria oriental, destruidor poderoso da ilus\u00e3o. <strong>Torre do sult\u00e3o<\/strong>: a alma soberana. <strong>La\u00e7o de luz<\/strong>: a ilumina\u00e7\u00e3o divina da sabedoria, que destr\u00f3i as trevas cativas que cercam a alma.<\/em> \u00a0\u00a0<\/p>\n<p><em>Interpreta\u00e7\u00e3o Espiritual: \u201cCanta o sil\u00eancio interior: Desperta! Abandona o sono da ignor\u00e2ncia, pois o alvorecer da sabedoria chegou. Lan\u00e7a a dura pedra da disciplina espiritual que rompe o c\u00e1lice do sombrio desconhecimento, pondo a fugir as p\u00e1lidas estrelas dos desejos materiais, de enganoso brilho. Olha que a Sabedoria Oriental, o Ca\u00e7ador e Destruidor da ilus\u00e3o, capturou, em um la\u00e7o de Luz, o orgulhoso minarete da alma principesca, dispersando as trevas mortais que a aprisionavam\u201d<\/em> (p. 3).<\/p>\n<p>O vinho, onipresente no poema de Khayyam, \u00e9 considerado por Yoganandaj\u00ed como uma met\u00e1fora: \u201cOmar afirma, claramente\u201d, escreve o Iogue, \u201cque o vinho simboliza a embriaguez do divino amor e da divina alegria\u201d (p. x). O \u00faltimno verso da quadra XLI \u00e9 assim traduzida: \u201cA nada me entreguei a fundo, s\u00f3 ao Vinho!\u201d No gloss\u00e1rio, \u00e9 atribu\u00eddo ao vinho o seguinte sentido: \u201co vinho inebriante da real percep\u00e7\u00e3o divina\u201d. Na Interpreta\u00e7\u00e3o Espiritual do verso citado escreve Yoganandaj\u00ed: \u201cNunca mergulhei completamente em qualquer outra coisa que n\u00e3o o vinho do \u00eaxtase\u201d (p. 127).<\/p>\n<p>Valendo-se da met\u00e1fora de sorver o vinho, Yoganandaj\u00ed escreveu um texto, publicado como adendo no final da tradu\u00e7\u00e3o do Rubaiyat, intitulado \u201cO Vinho On\u00edrico do Amor de Omar Khayyam\u201d. Eis um trecho de grande beleza po\u00e9tica e m\u00edstica:<\/p>\n<p><em>Eu sou o Amor. Por\u00e9m, a fim de experimentar o ato de amar e a d\u00e1diva do amor, dividi-Me em tr\u00eas: o amor, o amante e o amado. Meu amor \u00e9 belo, puro, eternamente jubiloso; e Eu o saboreio de muitas maneiras, por meio de muitas formas.<\/em><\/p>\n<p><em>Como pai, bebo o amor reverente do manancial do cora\u00e7\u00e3o de meu filho. Em forma de m\u00e3e, bebo o n\u00e9ctar do amor incondicional do c\u00e1lice da alma de meu bebezinho. Na crian\u00e7a, absorvo o amor protetor da raz\u00e3o justa do pai. Como infante, bebo o amor imotivado no santo graal da materna atra\u00e7\u00e3o. Patr\u00e3o, bebo o amor cheio de considera\u00e7\u00e3o que vem do frasco da amabilidade do servidor. Como servidor, sorvo o amor respeitoso no copo do apre\u00e7o do patr\u00e3o. Na forma de guru-preceptor, desfruto do mais puro amor, proveniente do c\u00e1lice da devo\u00e7\u00e3o do disc\u00edpulo em entrega total. Na forma de amigo, bebo dos mananciais borbulhantes do amor espont\u00e2neo. Como amigo divino bebo, a grandes sorvos, as \u00e1guas cristalinas do amor c\u00f3smico, provenientes do reservat\u00f3rio dos cora\u00e7\u00f5es que adoram a Deus<\/em> (p. 220). \u00a0\u00a0<\/p>\n<p>No texto escrito para a orelha da edi\u00e7\u00e3o do <em>Rubaiyat<\/em> comentada por mim na \u00faltima quarta-feira, afirma Affonso Romano de Sant\u2019Anna:\u00a0 \u201cFaz sentido que seja Manuel Bandeira o tradutor de Omar Khayyam, aquele poeta persa do s\u00e9culo XI, que com poemas escritos em forma de quadras, chamados <em>Rubaiyat<\/em>, tornou-se um dos autores mais populares do mundo. Faz sentido porque a obra de Bandeira, iniciada na est\u00e9tica do <em>decadentismo<\/em>, tem algo a ver com o sempre referido hedonismo de Omar Khayyam e a celebra\u00e7\u00e3o de vinhos e mulheres\u201d [Rubaiyat\/ Omar Khayyam; tradu\u00e7\u00e3o Manuel Bandeira (de Franz Toussaint). \u2013 Rio de Janeiro: Ediouro, 2001].<\/p>\n<p>Em contrapartida, na contracapa da tradu\u00e7\u00e3o de Paramahansa Yogananda est\u00e1 escrito o seguinte: \u201cO <em>Rubayyat de Omar Khayyam<\/em>, na tradu\u00e7\u00e3o de Edward FitzGerald tem sido, por muito tempo, um dos mais apreciados e menos compreendidos poemas em l\u00edngua inglesa. Lan\u00e7ando luz sobre o texto com uma nova interpreta\u00e7\u00e3o, Paramahansa Yogananda \u00a0&#8211; renomado autor da <em>Autobiografia de um Iogue<\/em> e de outras obras, e amplamente reverenciado como um dos grandes santos contempor\u00e2neos da \u00cdndia \u2013 revela a ess\u00eancia m\u00edstica desta enigm\u00e1tica obra-prima, trazendo \u00e0 luz a verdade e a beleza mais profundas que h\u00e1 por detr\u00e1s do v\u00e9u de suas met\u00e1foras. Comumente consideradas uma celebra\u00e7\u00e3o do vinho e de outros prazeres mundanos, essas l\u00edricas quadras persas exibem sua verdadeira voz quando s\u00e3o lidas como hino \u00e0s alegrias transcendentes do Esp\u00edrito\u201d. \u00a0<\/p>\n<p>Ler uma e outra tradu\u00e7\u00f5es do <em>Rubaiyat<\/em>, assim como o que \u00e9 afirmado a respeito delas, me levou a refletir sobre os diversos e t\u00e3o d\u00edspares destinos que pode seguir um texto ou um poema. De fato, arrisco dizer que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, um escrito n\u00e3o pertence ao autor que o escreveu. Ele pertence, de fato, a quem o leu, pois \u00e9 o leitor quem, atribuindo-lhe um sentido, dele se apropria, \u00e0 revelia do autor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1\u00a0 muito tempo, na \u00cdndia, conheci um vener\u00e1vel poeta persa que me disse ter a poesia da P\u00e9rsia, ami\u00fade, dois significados: um, interno e outro,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-693","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-03-arcano-iii-digressoes-de-um-bibliofilo"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/693","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=693"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/693\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=693"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=693"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=693"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}