{"id":700,"date":"2009-09-17T06:21:23","date_gmt":"2009-09-17T09:21:23","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=700"},"modified":"2009-09-17T06:21:23","modified_gmt":"2009-09-17T09:21:23","slug":"escolhe-se-um-caminho-ou-e-o-caminho-que-nos-escolhe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/09\/17\/escolhe-se-um-caminho-ou-e-o-caminho-que-nos-escolhe\/","title":{"rendered":"Escolhe-se um caminho ou \u00e9 o caminho que nos escolhe?"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-701\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/09\/Proezas-1-sepia.jpg\" alt=\"Proezas-1 sepia\" width=\"378\" height=\"327\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/09\/Proezas-1-sepia.jpg 378w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/09\/Proezas-1-sepia-300x260.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/09\/Proezas-1-sepia-120x104.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 378px) 100vw, 378px\" \/>A tarde tinha um ar desconsolado. Eram nuvens escuras, iguais a fuma\u00e7a que n\u00e3o se move, pondo sombras tristes em toda parte. O sol, cor de sangue, dava tons roxos a tudo em que batia. (&#8230;) De longe vinha o som de malho a bater em bigorna. Pausadamente. De som em som, enquanto o bra\u00e7o de quem batia ia em cima e descia. E era triste. E saudoso era. Lembrava um sino batendo, distante, l\u00e1 nos confins. O eco reproduzia o som, que se multiplicava nos vales, e mais baixo pelos quatro cantos repercutia. Entretanto havia sil\u00eancio. Fora o sino da bigorna, tudo emudeceu. E s\u00f3 de quando em quando, nos c\u00edrculos extensos que os pombos faziam, as asas como matracas batiam. Era como se tudo sofresse o efeito de estranha melancolia. O menino Jesus foi ao quintal despedir-se do que havia por l\u00e1. Sorriu para a pitangueira, apertando entre os dedos uma folha macia, como se a m\u00e3o da pitangueira apertasse. Outro adeus deu \u00e0 goiabeira, mais adiante \u00e0 rom\u00e3zeira deu outro adeus. Olhou os passarinhos, e eram muitos. Todos estavam parados, olhando o menino Jesus. <\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Lu\u00eds Jardim<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[Jardim, Lu\u00eds. Proezas do Menino Jesus. 2a. Ed. Rio de Janeiro: Livraria Jos\u00e9 Olympio Editora, 1968, p. 117.]<\/span><\/em><\/p>\n<p>Na \u00faltima quinta-feira, comentei neste blog um livro para crian\u00e7as escrito por Lu\u00eds Jardim, <em>Proezas do Menino Jesus<\/em>. Relatei a profunda marca que a leitura do livro, feita quando eu contava onze anos de idade, deixou impressa em mim. Destaquei especialmente a \u00faltima frase do livro. Por motivos que me s\u00e3o alheios e que n\u00e3o me disponho a tentar interpretar neste momento, cometi um lapso ao escrever a frase. Os que leram aquele texto e lerem este que ora apresento, n\u00e3o ter\u00e3o dificuldade em identificar o lapso.<\/p>\n<p>O motivo, por\u00e9m, de estar hoje dando continuidade ao assunto, n\u00e3o se deve ao lapso, do qual somente agora me dei conta. Fa\u00e7o-o movido por uma outra quest\u00e3o, qual seja, dos motivos que nos levam a escolher um caminho para seguir na vida. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o sobre a qual tenho refletido muitas vezes ao longo dos \u00faltimos anos. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, ela tem seu escoadouro na quest\u00e3o da predestina\u00e7\u00e3o, em outras palavras, do destino.<\/p>\n<p>Existe um destino? Em caso afirmativo, ele \u00e9 predeterminado? Caso seja predeterminado, o que o determina? Ou tudo na vida n\u00e3o passa de acasos encadeados, de uma soma de fatos aleat\u00f3rios e sem um objetivo predeterminado? O que determina as nossas escolhas? At\u00e9 que ponto somos, efetivamente, respons\u00e1veis por elas? Escolhemos ou somos escolhidos? Existe livre-arb\u00edtrio? Se h\u00e1 predestina\u00e7\u00e3o, pode-se afirmar que\u00a0existe livre-arb\u00edtrio?<\/p>\n<p>Essas quest\u00f5es s\u00e3o muito inquietantes e confesso que n\u00e3o tenho um ponto de vista formado e absoluto sobre elas. Tenho apenas algumas hip\u00f3teses muito parciais. Mas olhando para tr\u00e1s, repassando na mem\u00f3ria a minha hist\u00f3ria de vida e a forma como as coisas foram acontecendo, mais uma quest\u00e3o, e essa inclui todas as anteriores, se me imp\u00f5e: os fatos da inf\u00e2ncia determinam o que uma pessoa ser\u00e1 na idade adulta? (Propositalmente, me eximo aqui de considerar o ponto de vista psicanal\u00edtico). Partindo do pressuposto de que a resposta seja afirmativa, e transformando-se a pergunta numa premissa tomada como verdadeira, pode-se, ent\u00e3o, afirmar que os fatos da inf\u00e2ncia foram antecipa\u00e7\u00f5es premonit\u00f3rias da idade adulta.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o, posta pela leitura do livro de Lu\u00eds jardim, continua para mim t\u00e3o atual quanto esteve h\u00e1 trinta e sete anos, quando li pela primeira vez <em>Proezas do menino Jesus<\/em>. O \u00faltimo cap\u00edtulo, de tom absolutamente soturno tanto pelo texto quanto pelas ilustra\u00e7\u00f5es \u2013 Lu\u00eds Jardim foi um dos maiores ilustradores que o Brasil j\u00e1 teve \u2013 continua me a\u00e7ulando a mente com quest\u00f5es ainda sem resposta. A primeira e a \u00faltima ilustra\u00e7\u00e3o do referido cap\u00edtulo, bem como os primeiros e os \u00faltimos par\u00e1grafos, h\u00e3o de reverberar ainda na minha mente por muitos anos, como tem sido desde o final da minha inf\u00e2ncia e in\u00edcio da adolesc\u00eancia. As palavras iniciais s\u00e3o as que pus em ep\u00edgrafe a este texto.\u00a0Quanto \u00e0s palavras finais, transcrevo-os abaixo\u00a0(p. 124):\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p><em>Olhando o c\u00e9u, mais feio ainda com nuvens escuras que subiam, envolvendo <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-702\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/09\/Proezas-4_tons-de-cinza.jpg\" alt=\"Proezas-4_tons de cinza\" width=\"358\" height=\"441\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/09\/Proezas-4_tons-de-cinza.jpg 358w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/09\/Proezas-4_tons-de-cinza-300x370.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/09\/Proezas-4_tons-de-cinza-120x148.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 358px) 100vw, 358px\" \/>tudo com sombras tristonhas, o menino Jesus disse assim: &#8211; \u00c9 hora de partir. Escurece. E Rufo s\u00f3 pode andar devagar. \u2013 E voc\u00ea conhece bem o caminho? \u2013 Jo\u00e3o indagou. \u2013 Acho que sim \u2013 respondeu o menino Jesus. \u2013 Qual deles \u00e9 o seu, se h\u00e1 tr\u00eas caminhos? \u2013 perguntou o menino Judas. O menino Jesus sorriu e informou: &#8211; Por nenhum dos dois largos, bonitos, cada um ao lado do feio. Os dois largos adiante se desviam, e o feio segue, sempre em linha reta, at\u00e9 se perder de vista. \u00c9 pelo caminho feio que eu vou, e j\u00e1 sei que ele \u00e9 cheio de espinhos. Por l\u00e1 h\u00e1 muitos daqueles, os espinhos chamados coroa-de-cristo. \u2013 Qual? \u2013 perguntou de novo o menino Judas, olhando os tr\u00eas caminhos. \u2013 O do centro. Aquele que leva ao alto, onde no topo est\u00e1 a cruz. V\u00eas? Olha ela l\u00e1 em cima, de bra\u00e7os abertos, sempre a esperar outros bra\u00e7os.<\/em><\/p>\n<p><em>O menino Jesus deu com a m\u00e3o, \u00faltima despedida, e l\u00e1 se foi, subindo, pelo caminho onde estava a cruz. Sem saber por que, o menino Jo\u00e3o, de olhos a derramar l\u00e1grimas, repetia as palavras do sonho do menino Jesus:<\/em><\/p>\n<p><em>ENSAIAS AGORA, MENINO, TEUS PASSOS DA VIDA DEPOIS.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tarde tinha um ar desconsolado. Eram nuvens escuras, iguais a fuma\u00e7a que n\u00e3o se move, pondo sombras tristes em toda parte. 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