{"id":725,"date":"2009-09-20T12:21:38","date_gmt":"2009-09-20T15:21:38","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=725"},"modified":"2009-09-20T12:21:38","modified_gmt":"2009-09-20T15:21:38","slug":"o-grande-silencio-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/09\/20\/o-grande-silencio-de-deus\/","title":{"rendered":"O grande sil\u00eancio de Deus"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o percebera ainda que a Grande Inicia\u00e7\u00e3o acontecia no dia a dia. A Grande Inicia\u00e7\u00e3o era apenas viver. A vida acontecia e isso \u00e9 tudo. Mas aquele homem queria viver coisas extraordin\u00e1rias. \u00c9 que para ele a vida n\u00e3o bastava. Ele era sequioso. Queria mais, sempre mais. Ele era um homem insaci\u00e1vel. Por isso cercara-se de Mestres. Mas os Mestres, estes talvez n\u00e3o quisessem a sua companhia. Ouvira dizer que n\u00e3o \u00e9 o disc\u00edpulo que busca o Mestre, mas o inverso. E, afinal, \u00e9 necess\u00e1rio ter um Mestre?<\/p>\n<p>Seguia cabisbaixo imerso nestes pensamentos.<\/p>\n<p>Seguiam ele e Hermas em sil\u00eancio pela estrada que os levaria a Tagaste. Por todos esses anos, desde que perdera a f\u00e9, buscara ind\u00edcios de que Deus, de fato, existia, e ainda o escutava. Aquele homem lutava contra si mesmo. Era um dilaceramento sem fim. Nada nem ningu\u00e9m o respondiam. Buscava uma porta que lhe servisse como poss\u00edvel sa\u00edda. Mas n\u00e3o vislumbrava portas. Ouvira dizer que \u201cquando Deus nos fecha uma porta Ele abre uma janela\u201d. Mas, naquele momento crucial de sua vida, parece que nem mesmo janelas havia. Ele estava s\u00f3 com o imenso, o cruciante sil\u00eancio de Deus. Em dicion\u00e1rio algum encontraria o necess\u00e1rio e absoluto adjetivo para qualificar o que sentia.<\/p>\n<p>Enquanto seguiam, o \u00fanico rumor que ouviam era o de seus passos na estrada poeirenta e assobio do vento que passava acariciando-lhes o corpo. Esperava uma palavra de Hermas que lhe desse um lento, por m\u00ednimo que fosse. Mas Hermas, naquele dia, era o sil\u00eancio em pessoa.<\/p>\n<p>Estaria ele vivendo uma grande quimera? E as escrituras, estavam todas equivocadas? O grade equ\u00edvoco&#8230; Sabia de vidas desperdi\u00e7adas, vidas dilaceradas pela quim\u00e9rica busca que se revelara, por fim, n\u00e3o mais que um grande equ\u00edvoco. Aquele homem tremia. Ningu\u00e9m se dispusera ainda a lhe atribuir um nome. Mas ele precisava ser nomeado. No dia anterior Hermas lhe falara do nome. Mas antes de ganhar um nome, ele precisava nomear aquilo que vivia. Ele precisava nomear o caminho.<\/p>\n<p>Aquele sil\u00eancio do Universo era um espinho fincado na carne. Do\u00eda-lhe como um cil\u00edcio que lhe penetrasse a pele rasgando-a e fazendo sagrar. Lembrou que lera sobre a vida de santos e monges que impunham a si mesmo o uso do sil\u00edcio como forma de aperfei\u00e7oamento e purga\u00e7\u00e3o de suas faltas. Mas ele, ele n\u00e3o precisava de um cil\u00edcio material, aquele sil\u00eancio cortante como navalha superava em tudo o mais trucidante objeto de tortura.<\/p>\n<p>Ele agora abusava dos adjetivos e das met\u00e1foras. Mas como qualificar aquilo que experimentava, sen\u00e3o apelando para a linguagem, t\u00e3o pobre em recursos quando se tratava de dizer do sentido? Ele, por\u00e9m, n\u00e3o estava s\u00f3 nesta busca. Essa hist\u00f3ria se repetia h\u00e1 s\u00e9culos. Mas naquele momento a experi\u00eancia dos outros que veio antes dele de nada lhe valiam. Saber daquelas vidas e hist\u00f3rias n\u00e3o lhe servia como lenitivo para a alma exangue pelos muitos anos de busca sem que obtivesse uma resposta.<\/p>\n<p>Porque ele n\u00e3o tinha qualquer garantia de que encontraria a resposta. Ningu\u00e9m tem. Os que enveredam pelo caminho que ele trilhava n\u00e3o t\u00eam garantias. T\u00eam apenas a busca. Estes s\u00e3o os danados, os que tiveram coragem de se lascar. Estava na imin6encia de se lascar. Dava a \u00faltima gota do seu sangue, mas n\u00e3o desistia. Pelo menos, n\u00e3o o fizera ainda.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Tagaste acenava-lhe com as poss\u00edveis respostas em v\u00e3o at\u00e9 agora buscadas. Encontraria a solu\u00e7\u00e3o para o grande enigma que se propusera investigar? Sil\u00eancio. Sil\u00eancio. Sil\u00eancio. Talvez o vento lhe estivesse sussurrando, na amplid\u00e3o daquela estrada que o levava qui\u00e7\u00e1 a lugar nenhum, um poss\u00edvel ind\u00edcio, uma poss\u00edvel chave que lhe abrisse o ba\u00fa onde encontraria, impressas, as palavras ansiosamente buscadas.<\/p>\n<p>Por enquanto, por\u00e9m, impunha-se o sil\u00eancio, a ele e a Hermas, com quem seguia como se um n\u00e3o se apercebesse da presen\u00e7a do outro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o percebera ainda que a Grande Inicia\u00e7\u00e3o acontecia no dia a dia. A Grande Inicia\u00e7\u00e3o era apenas viver. 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