{"id":825,"date":"2009-10-07T09:21:20","date_gmt":"2009-10-07T12:21:20","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=825"},"modified":"2009-10-07T09:21:20","modified_gmt":"2009-10-07T12:21:20","slug":"aventuras-e-rotinas-de-gilberto-freyre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/10\/07\/aventuras-e-rotinas-de-gilberto-freyre\/","title":{"rendered":"Aventuras e rotinas de Gilberto Freyre"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-826\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/10\/242474_4.jpg\" alt=\"242474_4\" width=\"300\" height=\"400\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/10\/242474_4.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/10\/242474_4-120x160.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>As notas de viagem que recolhi quase taquigraficamente tomam aqui forma menos impressionista que expressionista. Chegam algumas a ser rea\u00e7\u00e3o cr\u00edtica \u2013 e n\u00e3o apenas l\u00edrica \u2013 ao que observei. Outras a servir de pretexto a coment\u00e1rios \u00e0s vezes abstratos. At\u00e9 a devaneios especulativos. A expans\u00f5es autobiogr\u00e1ficas de que pe\u00e7o perd\u00e3o aos soci\u00f3logos que \u00e0s vezes me sup\u00f5em preso a eles por votos, que nunca fiz, de castidade sociol\u00f3gica. Direitos de expressionista que pode passar do fato concreto \u00e0 abstra\u00e7\u00e3o, do objetivo ao transobjetivo, do social ao pessoal, dentro da t\u00e9cnica de que, ali\u00e1s, foi mestre, em l\u00edngua portuguesa, o hoje reabilitado, mas sempre inclassific\u00e1vel, autor de \u201cPeregrina\u00e7\u00e3o\u201d.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Gilberto Freyre<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[Freyre, Gilberto. Aventura e Rotina. Pref\u00e1cio por Alberto da Costa e Silva. \u2013 3\u00aa. ed. revista com 45 ilustra\u00e7\u00f5es. Rio de Janeiro: Topbooks: UniverCidade, 2001, p. 29.]<\/span><\/em><\/p>\n<p>\u00a0Os leitores que t\u00eam lido os meus textos neste blog desde o in\u00edcio sabem que estreei com um pequeno paneg\u00edrico a Gilberto Freyre. Entre as poucas raridades da minha pequena biblioteca, exibo com orgulho a edi\u00e7\u00e3o de <em>Casa Grande e Senzala<\/em> autografada pela filha do Mestre de Apipucos, Dona S\u00f4nia Freire,\u00a0 a quem tive o grande privil\u00e9gio de conhecer pessoalmente. Gilberto Freyre \u00e9 para mim muito mais que\u00a0um Mestre, \u00e9 um exemplo de vida por tudo o que foi e fez. Pois bem, aqui estou mais uma vez a dedicar algumas linhas a este grande int\u00e9rprete da nossa brasilidade.<\/p>\n<p>Em 1951, a convite do ministro portugu\u00eas de ultramar, Sarmento Rodrigues, Gilberto Freyre partiu para uma viagem de seis meses que inclu\u00eda Portugal e suas possess\u00f5es africanas e asi\u00e1ticas. A viagem foi realizada em parte sozinho e, em parte, em companhia da fam\u00edlia. A jornada teve in\u00edcio em Lisboa, prosseguindo por Coimbra, Porto, \u00c9vora, F\u00e1tima, Braga, Bragan\u00e7a, Nazar\u00e9, entre outras. Depois seguiram para a Guin\u00e9 Portuguesa, passando por Senegal e Ziguichor. Viria, ainda, a \u00cdndia Portuguesa, com desembarque em Bombaim seguindo para Goa.\u00a0Esteve, ainda, em S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe, Cabo Verde, Angola, Mo\u00e7ambique e Ilha da Madeira.<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia da viagem, Gilberto Freyre legaria aos seus leitores um belo livro, intitulado <em>Aventura e Rotina<\/em>, cuja primeira edi\u00e7\u00e3o foi publicada em 1953. Em 1980 veio a lume uma segunda edi\u00e7\u00e3o. Mais recentemente, a Topbooks publicou uma terceira edi\u00e7\u00e3o, revista, em conv\u00eanio com a UniverCidade. O livro traz tamb\u00e9m 45 fotografias tiradas durante o p\u00e9riplo de Gilberto Freyre.<\/p>\n<p>Como tudo que emana da pena do Solit\u00e1rio de Apipucos, a leitura de <em>Aventura e Rotina<\/em> proporciona imenso prazer. Observa\u00e7\u00f5es de cunho antropol\u00f3gico e sociol\u00f3gico se sucedem, mesmo que o autor n\u00e3o tenha almejado elenc\u00e1-las sob estes r\u00f3tulos. Encontram-se no livro observa\u00e7\u00f5es sobre h\u00e1bitos e costumes n\u00e3o raras vezes ex\u00f3ticos e estranhos. A descri\u00e7\u00e3o de alguns desses h\u00e1bitos pode, inclusive, despertar em algumas pessoas uma certa repulsa. Cite-se, por exemplo, o caso das garotas tatuadas da Guin\u00e9, assim descrito por Freyre:\u00a0<\/p>\n<p><em>Volto \u00e0s tatuagens para observar que nunca pensei, antes de vir \u00e0 Guin\u00e9, <\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_827\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-827\" class=\"size-medium wp-image-827\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/Digitalizar0003-300x289.jpg\" alt=\"Em Cai\u00f3, na Guin\u00e9: raparigas manjacas tatuadas. ((Foto Ant\u00f4nio Carreira - 09\/10\/1951)\" width=\"300\" height=\"289\" \/><\/em><p id=\"caption-attachment-827\" class=\"wp-caption-text\">Em Cai\u00f3, na Guin\u00e9: raparigas manjacas tatuadas. (Foto Ant\u00f4nio Carreira - 09\/10\/1951)<\/p><\/div>\n<p><em>ser poss\u00edvel a um corpo de homem ou de mulher ainda mo\u00e7a, \u00e0s vezes quase menina, conter tantas e t\u00e3o profundas incis\u00f5es, recortadas em t\u00e3o diferentes formas sobre carne jovem e \u00e0s vezes virgem. S\u00e3o os corpos pardos ou quase pretos, assim tatuados, como se fossem bolos de chocolate que a doceira tivesse decorado com desenhos de flores, estrelas, p\u00e1ssaros. Bolos de noiva. Bolos de carne com apar\u00eancia dos de chocolate; com os mesmos recortes sensualmente art\u00edsticos ou esteticamente afrodis\u00edacos para atra\u00edrem a gula dos indiferentes ou dos frios de apetite. E na verdade s\u00e3o assim tatuados que certos corpos de meninas ainda virgens e sem ancas de mulher s\u00e3o entregues a velhos de prest\u00edgio que patriarcalmente se servem delas e dessa mocidade ou desse verdor de sexo como podem<\/em> (p. 241).<\/p>\n<p>Em virtude de a viagem ter se realizado por iniciativa do governo portugu\u00eas Ant\u00f4nio de Oliveira Salazar, Gilberto Freyre foi alvo de muitas cr\u00edticas por ter aceitado o convite. Vale, a prop\u00f3sito, transcrever aqui o que disse Alberto da Costa e Silva com rela\u00e7\u00e3o a tais cr\u00edticas.\u00a0 Em <em>Notas de um companheiro de viagem<\/em>, texto escrito em 1999\u00a0e posto na edi\u00e7\u00e3o atual a guisa de pref\u00e1cio, o historiador e diplomata afirma:<\/p>\n<p><em>Ainda bem que Gilberto Freyre aceitou o convite se Sarmento Rodrigues. A indigna\u00e7\u00e3o, a zanga, os arrufos e os calundus dos seus amigos anti-salazaristas perderam-se no passado. Conosco ficou este livro, mais de aventura que de rotina. Um livro escrito por um grande escritor. Um livro armado de esporas. Um livro que reclama de quem l\u00ea que comece a ver o Brasil de fora para dentro e a lig\u00e1-lo ao resto do\u00a0 mundo. Pois parte da hist\u00f3ria dos brasileiros \u2013 cochicha Gilberto Freyre \u2013 desenrolou-se nos oceanos e no al\u00e9m-mar, assim como parte da hist\u00f3ria dos portugueses, dos italianos, dos ambundos, dos congos, dos iorubas, dos fons e de outros povos e outros continentes se prolongou no Brasil. O \u00cdndico chegava at\u00e9 a foz dos nossos rios, e o Atl\u00e2ntico entra por eles terra adentro<\/em> (p. 24).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As notas de viagem que recolhi quase taquigraficamente tomam aqui forma menos impressionista que expressionista. 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