{"id":897,"date":"2009-10-16T08:21:10","date_gmt":"2009-10-16T11:21:10","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=897"},"modified":"2009-10-16T08:21:10","modified_gmt":"2009-10-16T11:21:10","slug":"as-oferendas-liricas-de-tagore","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/10\/16\/as-oferendas-liricas-de-tagore\/","title":{"rendered":"As oferendas l\u00edricas de Tagore"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-898\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/Digitalizar0005-300x494.jpg\" alt=\"Digitalizar0005\" width=\"300\" height=\"494\" \/>Minhas d\u00edvidas s\u00e3o grandes, minhas falhas s\u00e3o enormes e a minha vergonha \u00e9 secreta e pesada. Todavia, quando venho pedir um benef\u00edcio, tremo de medo de que a minha s\u00faplica seja atendida.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Rabindranath Tagore<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[Tagore, Rabindranath. Gitanjali (oferenda l\u00edrica). Tradu\u00e7\u00e3o de Ivo Storniolo. 2\u00aa. ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1991, poema 28.]<\/span><\/em><\/p>\n<p>Na semana passada postei neste blog um texto sobre Rabindranath Tagore. Na ocasi\u00e3o citei alguns coment\u00e1rios do poeta a respeito de Cristo. Hoje, conforme prometido naquela ocasi\u00e3o, volto a Tagore para comentar o livro que \u00e9 considerado por muitos cr\u00edticos e estudiosos sua obra-prima, e que o tornaria conhecido no Ocidente ao ser traduzido, pelo pr\u00f3prio autor, para o ingl\u00eas. Refiro-me a <em>Gitanjali<\/em> (pronuncia-se guit\u00e1njali), cujo t\u00edtulo foi traduzido como \u201cOferenda l\u00edrica\u201d.<\/p>\n<p><em>Gitanjali<\/em> \u00e9, todo ele, um grandioso canto de amor a Deus. Nele, Tagore revela toda a for\u00e7a da sua m\u00edstica e da sua incans\u00e1vel busca de Deus. Este Deus que \u00e9 tanto mais ansiado e procurado quanto mais se esconde. Por isso, Tagore o denomina <em>Senhor do sil\u00eancio<\/em>. Eis a\u00ed a pedra de toque do poema tagoriano. Em Tagore, Deus \u00e9 uma figura paradoxal, porque, simultaneamente, se revela e se esconde. \u00c9 algo assim como se Ele aparecesse sempre na semiobscuridade, num lusco-fusco em que s\u00f3 se d\u00e1 a conhecer parcialmente. No poema 19, reclama Tagore, como num lamento:<\/p>\n<p>\u201cSe n\u00e3o falas, vou encher o meu cora\u00e7\u00e3o com o teu sil\u00eancio, esperando, como a noite em sua vig\u00edlia estrelada, com a cabe\u00e7a pacientemente<\/p>\n<div id=\"attachment_899\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-899\" class=\"size-medium wp-image-899\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/20060527-673px-Tagore_Gandhi-300x267.jpg\" alt=\"Dois expoentes da na\u00e7\u00e0o indiana se encontram: Tagore e Mahatma Gandhi\" width=\"300\" height=\"267\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/10\/20060527-673px-Tagore_Gandhi-300x267.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/10\/20060527-673px-Tagore_Gandhi-120x107.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/10\/20060527-673px-Tagore_Gandhi.jpg 673w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-899\" class=\"wp-caption-text\">Dois expoentes da na\u00e7\u00e3o indiana se encontram: Tagore e Mahatma Gandhi<\/p><\/div>\n<p>inclinada\u201d. E, no poema 39, suplica: \u201cQuando o trabalho tumultuoso espalhar por toda parte o seu ru\u00eddo, isolando-me do al\u00e9m, vem a mim, Senhor do sil\u00eancio, com a tua paz e serenidade\u201d.<\/p>\n<p>Para quem conhece a poesia de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, \u00e9 imposs\u00edvel passar despercebida a semelhan\u00e7a entre os versos do m\u00edstico espanhol no <em>C\u00e2ntico Espiritual <\/em>e aqueles do poeta bengalense expressos no poema 41. Indaga Tagore no in\u00edcio do poema:<\/p>\n<p>\u201cOnde est\u00e1s, meu amor? Por que te escondes na sombra, por tr\u00e1s de todos? Eles te empurram e passam por ti na estrada poeirenta, pensando que n\u00e3o \u00e9s ningu\u00e9m. E eu fico aqui, esperando por horas intermin\u00e1veis, com as minhas oferendas para ti; os passantes chegam, tomam as minhas flores uma por uma, e a minha cesta j\u00e1 est\u00e1 quase vazia\u201d.<\/p>\n<p>O Doutor M\u00edstico, por sua vez, exclama, em tom indagativo: \u201c1. Onde \u00e9 que te escondeste,\/ Amado, e me deixaste com gemido?\/ Como o cervo fugiste,\/ Havendo-me ferido;\/ Sa\u00ed, por ti clamando, e eras j\u00e1 ido.\/ 2. Pastores que subirdes\/ Al\u00e9m, pelas malhadas, ao Outeiro,\/ Se, porventura, virdes\/ Aquele a quem mais quero,\/ Dizei-lhe que adoe\u00e7o, peno e morro.\/ 3. Buscando meus amores,\/ Irei por estes montes e ribeiras;\/ N\u00e3o colherei as flores,\/ Nem temerei as feras,\/ E passarei os fortes e fronteiras\u201d (S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz. C\u00e2ntico Espiritual. Em: Obras Completas. Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 1984, p. 30).\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito do <em>Gitanjali<\/em>, escreveu Ivo Storniolo no pr\u00f3logo para a tradu\u00e7\u00e3o da editora Paulus: \u201cPoder\u00edamos ler este livro em apenas uma hora. N\u00f3s o consumir\u00edamos, mas talvez n\u00e3o ir\u00edamos perceber o que ele tem a nos dizer, nem a escola de vida que nele se esconde: redescoberta da natureza, percep\u00e7\u00e3o do tempo, mist\u00e9rio das rela\u00e7\u00f5es, demitiza\u00e7\u00e3o das ilus\u00f5es, anseio pelo absoluto, alegria de descobrir-se amado por tudo e, por tr\u00e1s de tudo, amado por Deus.<\/p>\n<p>\u201cGitanjali\u201d, conclui Storniolo, \u201cn\u00e3o \u00e9 um romance, mas livro de vida. \u00c9 para ser lido pouco a pouco, conferindo a cada momento a percep\u00e7\u00e3o po\u00e9tica e m\u00edstica do autor com a experi\u00eancia que temos da nossa vida. Ele come\u00e7a comparando-se com um instrumento nas m\u00e3os de Deus (Gitanjali, 1). Ao terminar, ele exclama: \u201c\u00d3 meu Deus, permite que todos os meus sentidos se dilatem, e eu farei este mundo ro\u00e7ar os teus p\u00e9s, numa derradeira sauda\u00e7\u00e3o a ti\u201d (Gitanjali, 103). Oxal\u00e1 cada um de n\u00f3s possa dizer o mesmo, n\u00e3o mais com as palavras de Tagore, mas com a pr\u00f3pria vida\u201d (p. VIII\/IX).<\/p>\n<p>Para concluir, quero fazer aqui uma revela\u00e7\u00e3o. Enquanto transcrevia os trechos em que comparo Tagore e S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, por duas vezes tive que interromper o texto. A primeira, para pegar len\u00e7o de papel; a segunda, para lavar o rosto. Em ambas as ocasi\u00f5es, os meus olhos ficaram t\u00e3o marejados, que n\u00e3o conseguia distinguir as letras do teclado. \u00c9 assim que me acontece algumas vezes em que volto aos escritos destes dois grandes expoentes da m\u00edstica. Embriagados pela busca do Divino, eles cantam. Quanto a mim, um reles e insignificante mortal, silencio e choro \u00e0 leitura de seus extasiantes versos.<\/p>\n<div id=\"attachment_901\" style=\"width: 564px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-901\" class=\"size-full wp-image-901\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/10\/tagore-einstein1.jpg\" alt=\"Um g\u00eanio das letras encontra um g\u00eanio da ci\u00eancia: Tagore e Einstein\" width=\"554\" height=\"480\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/10\/tagore-einstein1.jpg 554w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/10\/tagore-einstein1-300x260.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/10\/tagore-einstein1-120x104.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 554px) 100vw, 554px\" \/><p id=\"caption-attachment-901\" class=\"wp-caption-text\">Um g\u00eanio das letras encontra um g\u00eanio da ci\u00eancia: Tagore e Einstein<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minhas d\u00edvidas s\u00e3o grandes, minhas falhas s\u00e3o enormes e a minha vergonha \u00e9 secreta e pesada. 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