{"id":906,"date":"2009-10-17T06:21:15","date_gmt":"2009-10-17T09:21:15","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=906"},"modified":"2009-10-17T06:21:15","modified_gmt":"2009-10-17T09:21:15","slug":"maria-atraves-das-imagens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/10\/17\/maria-atraves-das-imagens\/","title":{"rendered":"Maria atrav\u00e9s das imagens"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-907\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/10\/69856.jpg\" alt=\"69856\" width=\"81\" height=\"93\" \/>Os crist\u00e3os, no entanto, despojaram Maria de todos os tra\u00e7os destruidores, perversos ou sexuais ligados \u00e0s antigas divindades. Criaram um ser apagado e passivo, que irrita alguns crentes e sobretudo as feministas do s\u00e9culo XX, como Simone de Beauvoir ou Marina Warner. Mas a imagina\u00e7\u00e3o dos crentes tem outros poderes criadores. Segundo as \u00e9pocas, segundo os pa\u00edses e segundo as necessidades, eles reinventaram constantemente a imagem da personagem virtual que \u00e9 a Virgem Maria.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Marie-France Boyer<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[Boyer, Marie-France. Culto e imagem da Virgem. Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo Neves. S\u00e3o Paulo: Cosac &amp; Naify, 2000, p. 13.]<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\">O livro <em>Culto e imagem da Virgem<\/em>, de autoria da jornalista francesa Marie-France Boyer \u00e9, antes de tudo, um deleite para os olhos. Com 190 ilustra\u00e7\u00f5es, impresso em papel cuch\u00ea, \u00e9 uma obra primorosa, como, ali\u00e1s, tudo o que a editora Cosac &amp; Naify publica. Remontando \u00e0quela que, conforme algumas tradi\u00e7\u00f5es, teria sido supostamente a primeira imagem da Virgem, atribu\u00edda a S\u00e3o Lucas, a autora comenta diversas representa\u00e7\u00f5es pict\u00f3ricas da M\u00e3e de Deus.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\">O texto estabelece um paralelo entre Nossa Senhora e outras imagens da Deusa-M\u00e3e presentes em diversas civiliza\u00e7\u00f5es, mostrando, a seguir, o quanto o cristianismo tornou unilateral a figura da Virgem Maria, ao despoj\u00e1-la de atributos pr\u00f3prios do feminino que, no entanto, n\u00e3o cabem na perspectiva moralista crist\u00e3, como, por exemplo, a sexualidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\">Escreve Marie-France Boyer: \u201cA Virgem \u00e9 aquela de quem tudo se pode esperar, sem nenhum temor. \u00c0 deusa Ishtar, cujos ex-votos gravados na pedra 2500 anos antes de Cristo foram redescobertos na Babil\u00f4nia, j\u00e1 eram pedidos filhos e riquezas. Para a Virgem convergem os mesmos desejos de fecundidade. Radiosa de felicidade na aceita\u00e7\u00e3o de sua <em>animalidade humana<\/em>, a Virgem-m\u00e3e \u2013 a <em>Alma Mater<\/em> \u2013 e sua ternura atraem tanto as mulheres que se identificam com ela quanto os homens que gostam de reconhecer nela sua pr\u00f3pria m\u00e3e, na medida em que se trata de uma figura feminina despojada de todo desejo e mesmo de toda sexualidade\u201d (p. 26).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\">O curioso, por\u00e9m, \u00e9 que mesmo com todos os esfor\u00e7os por parte da hierarquia da igreja no sentido de despojar a Virgem de alguns atributos considerados inaceit\u00e1veis, ainda assim, em algumas ocasi\u00f5es e lugares, a contraparte humana do feminino se imp\u00f4s, para consterna\u00e7\u00e3o de n\u00e3o poucos que sempre se esfor\u00e7aram no sentido de tornar a Virgem Maria uma figura et\u00e9rea, beirando a desumaniza\u00e7\u00e3o. Um exemplo citado pela autora \u00e9 o da <em>virgo lactans<\/em>, conforme o trecho a seguir:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\"><span style=\"color: #0000ff\">\u201cNo entanto, a <em>virgo lactans<\/em> \u2013 a Virgem que amamenta -, bastante rara, <\/span><\/span><span style=\"color: #0000ff\">prop\u00f5e uma imagem muito diferente do corpo. Muito sensual, ela sucede, entre os coptas a partir do s\u00e9culo IX, ao culto de \u00cdsis, deusa negra que alimenta. Tendo os crist\u00e3os se apressado a raspar as faces internas da gruta de Bel\u00e9m onde Maria teria alimentado o Cristo, j\u00e1 no s\u00e9culo I, na Jud\u00e9ia, o p\u00f3 branco proveniente dessas paredes, imediatamente assimilado \u00e0 id\u00e9ia do leite, torna-se o centro de todas as cobi\u00e7as, tanto quanto rel\u00edquias. Foi assim que <em>tr\u00eas gotas de leite<\/em> chegaram a Biz\u00e2ncio antes de circular em toda a Europa \u2013 elas se encontram tanto em Walsingham, na Inglaterra, como nas capelas mais isoladas nos confins da Bretanha. Carlos Magno, que as conservava num medalh\u00e3o com uma mecha dos cabelos da Virgem, as levava consigo quando partia para a guerra. S\u00e3o Bernardo, quando um dia orava diante da est\u00e1tua da Virgem, teria recebido dela algumas gotas diretamente na boca. Na Idade M\u00e9dia, o leite, metamorfose do corpo em alimento, \u00e9 <em>a<\/em> rel\u00edquia que simboliza a vida. O momento em que Fouquet decide pintar o seio exuberante de Agn\u00e8s Sorel na <em>Virgem com o Menino<\/em> corresponde \u00e0 interdi\u00e7\u00e3o desse culto extravagante, que n\u00e3o obstante reaparecer\u00e1 esporadicamente e de forma inesperada\u201d (p. 30).<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_908\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption alignright\"><span style=\"color: #0000ff\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-908\" class=\"size-full wp-image-908\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/10\/agnes_sorel.jpg\" alt=\"Nos\u00e9c. XV, o rei Carlos VII pediu ao pintor Jean Fouquet para representar sua amante Agn\u00e8s Sorel como a Virgem com o Menino. Esse quadro causou esc\u00e2ndalo.\" width=\"400\" height=\"452\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/10\/agnes_sorel.jpg 400w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/10\/agnes_sorel-300x339.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/10\/agnes_sorel-120x136.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/span><p id=\"caption-attachment-908\" class=\"wp-caption-text\">No s\u00e9c. XV, o rei Carlos VII pediu ao pintor Jean Fouquet para representar sua amante Agn\u00e8s Sorel como a Virgem com o Menino. Esse quadro causou esc\u00e2ndalo.<\/p><\/div>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\">O livro de Marie-France Boyer oferece ao leitor a possibilidade de contato com um texto de leitura agrad\u00e1vel e elucidativa, com passagens que muitas vezes surpreendem pelas peculiaridades associadas ao culto e devo\u00e7\u00e3o \u00e0 Virgem Maria. \u00c9, de certo modo, um contraponto a outros livros de mariologia que t\u00eam um car\u00e1ter mais apolog\u00e9tico.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os crist\u00e3os, no entanto, despojaram Maria de todos os tra\u00e7os destruidores, perversos ou sexuais ligados \u00e0s antigas divindades. Criaram um ser apagado e passivo, que&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-906","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-13-arcano-xiii-de-maria-nunquam-satis"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/906","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=906"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/906\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=906"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=906"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=906"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}