{"id":914,"date":"2009-10-28T09:21:43","date_gmt":"2009-10-28T12:21:43","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=914"},"modified":"2009-10-28T09:21:43","modified_gmt":"2009-10-28T12:21:43","slug":"por-amor-a-leitura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/10\/28\/por-amor-a-leitura\/","title":{"rendered":"Por amor a leitura"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-915\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/10\/como-um-romance.jpg\" alt=\"como um romance\" width=\"217\" height=\"320\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/10\/como-um-romance.jpg 217w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/10\/como-um-romance-120x177.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 217px) 100vw, 217px\" \/>Amar \u00e9, pois, fazer dom de nossas prefer\u00eancias \u00e0queles que preferimos. E esses partilhamentos povoam a invis\u00edvel cidadela de nossa liberdade. Somos habitados por livros e amigos. Quando um ser querido nos d\u00e1 um livro para ler, \u00e9 a ele quem primeiro buscamos nas linhas: seus gostos, as raz\u00f5es que o levaram a nos colocar esse livro entre as m\u00e3os, os fraternos sinais. Depois \u00e9 o texto que nos carrega e esquecemos aquele que nos mergulhou nele: toda a for\u00e7a de uma obra est\u00e1, justamente, no varrer mais essa conting\u00eancia! Entretanto, com o passar dos anos, acontece que a evoca\u00e7\u00e3o do texto traz a lembran\u00e7a do outro; certos t\u00edtulos se transformam, ent\u00e3o, em rostos.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Daniel Pennac<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[Pennac, Daniel. Como um romance. Tradu\u00e7\u00e3o de Leny Werneck. \u2013 Rio de Janeiro: Rocco, 1993, p. 84.]<\/span><\/em><\/p>\n<p>Retornando de uma visita ao Museu de Arte da UFC, onde fora com o objetivo de visitar a exposi\u00e7\u00e3o de Descartes Gadelha inspirada n\u2019Os Sert\u00f5es, de Euclides da Cunha, passei pela livraria Arte e Ci\u00eancia, \u00e0 procura de alguns livros publicados pela editora Casa da Palavra. Essa editora tem publicado excelentes obras dedicadas especificamente ao livro. Indaguei ao Vladimir, propriet\u00e1rio da Arte e Ci\u00eancia, se ele vendia os livros da Casa da Palavra. Depois de me mostrar algumas edi\u00e7\u00f5es, dirigiu-se a uma prateleira e, tirando de l\u00e1 um pequeno livro de capa amarela, inquiriu-me: \u201cVasco, voc\u00ea\u00a0j\u00e1 leu este livro?\u201d Como eu respondesse negativamente, ele completou: \u201cPois leia! Tenho certeza de que voc\u00ea vai gostar!\u201d Peguei-o, dei uma r\u00e1pida folheada e mandei inclu\u00ed-lo entre os demais que estavam separados para mim sobre o balc\u00e3o.<\/p>\n<p>Chegando em casa, naquela manh\u00e3 mesmo iniciei a leitura do livro recomendado por Vladimir: <em>Como um romance<\/em>, de autoria do escritor e professor franc\u00eas Daniel Pennac.\u00a0Foi com relut\u00e2ncia que fechei o livro quando tive que sair para trabalhar. \u00c0 noite j\u00e1 estava novamente me deleitando com o texto de Pennac. Conclu\u00ed a leitura na manh\u00e3 seguinte.<\/p>\n<p>Daniel Pennac, nascido em 1944, \u00e9 professor de franc\u00eas h\u00e1 mais de vinte anos, atividade que divide com o of\u00edcio de escritor, tendo publicado seu primeiro livro em 1973. O tema do livro <em>Como um romance<\/em>\u00a0 \u00e9 um assunto que o autor conhece muito bem: a leitura. O livro \u00e9 um ensaio escrito de forma deliciosa, ao longo do qual\u00a0Pennac vai discorrendo em forma de di\u00e1logo sobre o aparentemente simples e, no entanto, controvertido h\u00e1bito da leitura.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 dividido em quatro partes.\u00a0A primeira parte, intitulada \u201cO nascimento do alquimista\u201d,\u00a0aborda o despertar da crian\u00e7a para a leitura. O t\u00edtulo atribu\u00eddo a essa parte n\u00e3o poderia ter sido mais bem escolhido. De fato, o leitor \u00e9 um alquimista, uma vez que o contato com o texto lhe permitir\u00e1 operar transmuta\u00e7\u00f5es, a exemplo do que faziam os alquimistas. Duas frases\u00a0se destacam no texto que abre essa parte.\u00a0A primeira \u00e9 aquela em que Pennac afirma: \u201cO verbo ler n\u00e3o suporta o imperativo\u201d (p. 13), e a segunda em que escreve, como num lamento: \u201cO livro \u00e9 sagrado, como \u00e9 poss\u00edvel n\u00e3o gostar de ler?\u201d (p. 13).<\/p>\n<p>As duas frases servem como motes para os argumentos que o autor desenvolver\u00e1 a partir de ent\u00e3o, calcados no pressuposto de que ler \u00e9, antes de tudo, uma atividade prazerosa, da\u00ed por que o ato de ler n\u00e3o pode ser imposto. As tr\u00eas outras partes do livro s\u00e3o: \u201c\u00c9 preciso ler (O dogma)\u201d, \u201cDar a ler\u201d e, por fim, \u201cO que lemos, quando lemos\u201d. Na \u00faltima parte, o autor apresenta o que chama de \u201cDireitos imprescrit\u00edveis do leitor\u201d:\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<em>1. O direito de n\u00e3o ler; 2. O direito de pular p\u00e1ginas; 3. O direito de n\u00e3o terminar um livro; 4. O direito de reler; 5. O direito de ler qualquer coisa; 6. O direito ao bovarismo (direito textualmente transmiss\u00edvel); 7. O direito de ler em qualquer lugar; 8. O direito de ler uma frase aqui e outra ali; 9. O direito de ler em voz alta; 10. O direito de calar<\/em> (p. 141ss.).\u00a0\u00a0<\/p>\n<p><em>Como um romance<\/em> \u00e9 um livro que deveria ser lido por todos os pais cujos filhos ainda est\u00e3o sendo iniciados na leitura, bem como por todos os professores, seja de crian\u00e7as ou de adultos. Um dos seus mais belos trechos \u00e9 aquele em que o autor, se referindo \u00e0s historinhas que os pais l\u00eaem para as crian\u00e7as antes de dormir, compara a leitura a uma prece:<\/p>\n<p><em>A intimidade perdida&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>Pensando bem, nesse come\u00e7o de ins\u00f4nia, aquele ritual da leitura, toda noite, \u00e0 sua cabeceira, quando ele era pequeno \u2013 hora certa e gestos imut\u00e1veis \u2013 tinha um pouco de prece. Aquele s\u00fabito armist\u00edcio depois da barulhada do dia, aqueles reencontros fora de todas as conting\u00eancias, o momento de recolhido sil\u00eancio antes das primeiras palavras do conto, nossa voz enfim igual a ela mesma, a liturgia dos epis\u00f3dios&#8230; Sim, a hist\u00f3ria lida cada noite preenchia a mais bela das fun\u00e7\u00f5es da prece, a mais desinteressada, a menos especulativa e que n\u00e3o diz respeito sen\u00e3o aos homens: o perd\u00e3o das ofensas. N\u00e3o se confessava falta alguma, n\u00e3o se pensava na gra\u00e7a de um quinh\u00e3o de eternidade, era um momento de comunh\u00e3o entre n\u00f3s, a absolvi\u00e7\u00e3o do texto, um retorno ao \u00fanico para\u00edso v\u00e1lido: a intimidade. Sem saber, descobr\u00edamos uma das fun\u00e7\u00f5es essenciais do conto e, mais amplamente, da arte em geral, que \u00e9 impor uma tr\u00e9gua ao combate entre os homens.<\/em><\/p>\n<p><em>O amor ganhava pele nova.<\/em><\/p>\n<p><em>Era gratuito <\/em>(p. 33).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amar \u00e9, pois, fazer dom de nossas prefer\u00eancias \u00e0queles que preferimos. E esses partilhamentos povoam a invis\u00edvel cidadela de nossa liberdade. 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