{"id":925,"date":"2009-10-29T06:21:05","date_gmt":"2009-10-29T09:21:05","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=925"},"modified":"2009-10-29T06:21:05","modified_gmt":"2009-10-29T09:21:05","slug":"do-gosto-pela-filosofia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/10\/29\/do-gosto-pela-filosofia\/","title":{"rendered":"Do gosto pela filosofia"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\">Existe um prazer na filosofia, e um atrativo mesmo nas miragens da metaf\u00edsica, que todo estudioso sente at\u00e9 que as vulgares necessidades da exist\u00eancia f\u00edsica o arrastem do auge do pensamento para o mercado da disputa e do lucro econ\u00f4mico. A maioria de n\u00f3s conheceu certo per\u00edodo \u00e1ureo no junho de nossas vidas, quando a filosofia era, de fato, como Plat\u00e3o a chama \u201cesse caro deleite\u201d; quando o amor de uma Verdade modestamente esquiva parecia incomparavelmente mais glorioso do que a \u00e2nsia pelos prazeres carnais e do que as impurezas do mundo. E sempre h\u00e1, em n\u00f3s, um sequioso remanescente daquele antigo namoro com a sabedoria.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Will Durant<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[Durant, Will.\u00a0 A Hist\u00f3ria da Filosofia. Tradu\u00e7\u00e3o de Luiz Carlos do Nascimento Silva. &#8211;\u00a0 2\u00aa. ed. \u2013 Rio de Janeiro: Record, 1996, p. 21.]<\/span><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1\u00a0dez dias recebi de volta um livro que havia emprestado a uma amiga h\u00e1 alguns anos, e que ela julgara perdido: \u201cA Hist\u00f3ria da Filosofia\u201d, de Will Durant. N\u00e3o posso negar que foi com imensa alegria que o tomei em minhas m\u00e3os. Depois que a colega saiu, me pus a folhe\u00e1-lo. Rememorei um per\u00edodo da minha vida em que andei muito enamorado da filosofia e, por via de consequ\u00eancia, de alguns fil\u00f3sofos. Repassei pela mente nomes e textos. Alguns marcaram \u00e9poca, provocando em mim grandes e profundas transforma\u00e7\u00f5es. Houve algumas leituras filos\u00f3ficas depois das quais nunca mais fui o mesmo.<\/p>\n<p>O detonador dessas reflex\u00f5es foi a afirma\u00e7\u00e3o de Will Durant, escrita na introdu\u00e7\u00e3o ao livro aqui mencionado, e posta por mim no in\u00edcio deste texto a guisa de ep\u00edgrafe. Ao ler as palavras do autor, me dei conta de quanto me dediquei com intensidade \u00e0 leitura da filosofia durante\u00a0um per\u00edodo\u00a0da minha vida e como tal interesse feneceu de uns anos para c\u00e1.<\/p>\n<p>Por que isso aconteceu? Ser\u00e1 que Will Durant tem raz\u00e3o? A filosofia est\u00e1 reservada ou, pior, restrita, aos verdes anos da nossa vida, ao per\u00edodo que o autor denomina \u201cjunho de nossas vidas\u201d?<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que \u00a0Durant tenha raz\u00e3o, mas apenas parcialmente. De fato, parece-me, h\u00e1 um per\u00edodo da vida em que somos especialmente abertos \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o, quando nos al\u00e7amos de corpo e alma \u00e0 busca do sentido da exist\u00eancia. Talvez o mais adequado com rela\u00e7\u00e3o a esse per\u00edodo nem seja exatamente dizer que estamos mais abertos, mas que estamos mais dispon\u00edveis.\u00a0Desconfio que esta seja a palavra, disponibilidade. Tudo no in\u00edcio da idade adulta conspira nesse sentido.<\/p>\n<p>Para os que n\u00e3o se iniciaram ainda na vida profissional, para os que t\u00eam o privil\u00e9gio de se dedicar ainda exclusivamente aos estudos \u2013 o que, diga-se de passagem, constitui uma minoria em se tratando de Brasil \u2013 a ocasi\u00e3o \u00e9 especialmente prop\u00edcia. N\u00e3o h\u00e1, ainda, a preocupa\u00e7\u00e3o em prover a fam\u00edlia das necess\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es materiais, nem com a educa\u00e7\u00e3o dos filhos e tudo mais que uma vida de casado acarreta. Ainda desincumbidos, digamos, de responsabilidades mais urgentes, resta tempo para pensar no sentido da vida, resta tempo para filosofar.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos enganemos, por\u00e9m. N\u00e3o se pense que filosofar\u00a0seja uma atividade para desocupados, de maneira alguma o afirmamos. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 essa. Da\u00ed porque falei de disponibilidade, e da\u00ed, tamb\u00e9m, porque disse que Will Durant est\u00e1 certo apenas parcialmente no que afirma. A disponibilidade para filosofar est\u00e1 ligada \u00e0 disponibilidade para a busca do sentido. E quanto a isso, parece que muitos adultos desistem. \u00c9 como se houvesse uma esp\u00e9cie de acomoda\u00e7\u00e3o. Por raz\u00f5es diversas, o adulto se acomoda em sua busca. Ele simplesmente deixa de buscar, abandona o saud\u00e1vel h\u00e1bito de inquirir. \u00c9 a\u00ed que muitos estacionam e fenecem.<\/p>\n<p>Folhear novamente &#8220;A Hist\u00f3ria da Filosofia&#8221;\u00a0provocou em mim\u00a0esse racioc\u00ednio, o\u00a0que\u00a0me fez pensar: \u00e9 hora de revisitar alguns fil\u00f3sofos e, quem sabe, descobrir outros. O junho da minha vida j\u00e1 passou, mas minha \u00e2nsia pela busca do sentido, nem por isso, decresceu; apenas\u00a0sofreu algumas acomoda\u00e7\u00f5es e reacomoda\u00e7\u00f5es, o que eu denominaria, com mais proriedade,\u00a0de mudan\u00e7a de foco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe um prazer na filosofia, e um atrativo mesmo nas miragens da metaf\u00edsica, que todo estudioso sente at\u00e9 que as vulgares necessidades da exist\u00eancia f\u00edsica&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-925","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-05-na-soleira-do-partenon"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/925","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=925"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/925\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=925"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=925"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=925"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}