{"id":951,"date":"2009-11-02T10:21:00","date_gmt":"2009-11-02T13:21:00","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=951"},"modified":"2009-11-02T10:21:00","modified_gmt":"2009-11-02T13:21:00","slug":"esse-misterio-que-nos-ultrapassa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/11\/02\/esse-misterio-que-nos-ultrapassa\/","title":{"rendered":"Esse mist\u00e9rio que nos ultrapassa"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-952\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/11\/239884_4.jpg\" alt=\"239884_4\" width=\"300\" height=\"400\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/11\/239884_4.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/11\/239884_4-120x160.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Aos sete anos, tive meu primeiro vislumbre do vasto poder da tradi\u00e7\u00e3o de que eu estava me tornando parte, e comecei a entender o sentido da pr\u00e1tica espiritual. A pr\u00e1tica dera a Samten a aceita\u00e7\u00e3o da morte, bem como a clara compreens\u00e3o de que o sofrimento e a dor podem ser parte de um processo natural e profundo de purifica\u00e7\u00e3o. A pr\u00e1tica havia dado a meu mestre um conhecimento completo do que \u00e9 a morte e uma tecnologia precisa para guiar os indiv\u00edduos atrav\u00e9s dela.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Sogyal Rinpoche<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[Rinpoche, Sogyal. O livro tibetano do viver e do morrer. Tradu\u00e7\u00e3o de Luiz Carlos Lisboa. \u2013 S\u00e3o Paulo: Talento: Palas Athena, 1999, p. 20.]<\/span><\/em><\/p>\n<p>A morte, um dos maiores mist\u00e9rios da vida, \u00e9 tamb\u00e9m um fato que, apesar de inevit\u00e1vel, constitui um dos aspectos da exist\u00eancia humana com os quais \u00e9 mais dif\u00edcil lidar. H\u00e1 pessoas que evitam at\u00e9 mesmo mencionar a palavra, como se pronunci\u00e1-la fosse uma esp\u00e9cie de agouro que atra\u00edsse essa indesejada visitante que a ningu\u00e9m poupa. Ao longo dos s\u00e9culos, a forma como a morte \u00e9 tratada tem passado por muitas transforma\u00e7\u00f5es, especialmente nos \u00faltimos dec\u00eanios, culminando com sua quase nega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As sociedades adotam formas muito diferentes de lidar com a morte. Em algumas, ela \u00e9 cercada por rituais muito elaborados e de grande sofistica\u00e7\u00e3o. No Ocidente crist\u00e3o, os rituais mortu\u00e1rios t\u00eam passado por grandes transforma\u00e7\u00f5es. Da antiga tradi\u00e7\u00e3o de velar o morto na sua pr\u00f3pria casa pouco resta nos dias atuais. Pouco restou, tamb\u00e9m, da antiga pr\u00e1tica de reunir a fam\u00edlia em torno do agonizante, quando eram recitadas ora\u00e7\u00f5es com vistas ao conforto da alma que se preparava para sua jornada para o al\u00e9m.<\/p>\n<p>O comum, nos nossos dias, \u00e9 que uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o morra em hospitais, \u00e0s vezes em leitos de UTIs, sem assist\u00eancia e a companhia de seus entes queridos. Quanto aos rituais mortu\u00e1rios, h\u00e1 hoje uma verdadeira ind\u00fastria das funer\u00e1rias que obrigam os familiares a dispenderem grandes somas, poupando-lhes, por\u00e9m, o trabalho de ter que arcar com os detalhes desagrad\u00e1veis do vel\u00f3rio e enterro. Com isso, nega-se, de certa forma, a morte. O per\u00edodo de luto, ent\u00e3o, passou tamb\u00e9m por grandes transforma\u00e7\u00f5es. Isso levou a que a elabora\u00e7\u00e3o da perda, sempre necess\u00e1ria, fosse tamb\u00e9m, at\u00e9 certo ponto, escamoteada. A morte chega quase a ser negada.<\/p>\n<p>Em algumas culturas orientais, por\u00e9m, a rela\u00e7\u00e3o com a morte se d\u00e1 de forma bem diferente. \u00c9 o caso, por exemplo, do Tibet, pa\u00eds que tem uma longa e bem fundada tradi\u00e7\u00e3o que o faz sobressair entre as sociedades detentoras dos mais elaborados rituais mortu\u00e1rios. Essa tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 minuciosamente descrita no \u201cLivro tibetano dos mortos\u201d. Esta obra atravessou os s\u00e9culos e constitui, ainda hoje, objeto de interesse para muitos pesquisadores ocidentais, entre os quais mencionar\u00edamos o psiquiatra su\u00ed\u00e7o C. G. Jung, que lhe dedicou um ensaio.<\/p>\n<p>Inspirado no \u201cLivro tibetano dos mortos\u201d, o mestre tibetano Sogyal Rinpoche escreveu um livro valioso sobre o tema, intitulado \u201cO livro tibetano do viver e do morrer\u201d. \u00c9 uma obra de leitura altamente recomend\u00e1vel por todas as quest\u00f5es que o autor analisa a prop\u00f3sito da morte e do morrer. Numa sociedade como a nossa, em que a morte ainda \u00e9 cercada de muito tabu, vale a pena conhecer outras perspectivas de lidar com a quest\u00e3o. Sogyal Rinpoche oferece ao longo da obra sugest\u00f5es valiosas a prop\u00f3sito de como lidar com a morte de entes pr\u00f3ximos e queridos. Mas o melhor est\u00e1 nas reflex\u00f5es acerca de nossa pr\u00f3pria morte e de como lidamos com ela. A grande dificuldade em lidar com o assunto ancora-se no fato de que a morte nos faz confrontar com nossa finitude, e numa sociedade em que tudo conspira no sentido de negar a morte, essa n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil. Isso aumenta ainda mais os m\u00e9ritos do livro de Rinpoche.<\/p>\n<p>Para concluir, cito a sugest\u00e3o oferecida pelo autor como forma de<\/p>\n<div id=\"attachment_955\" style=\"width: 243px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-955\" class=\"size-full wp-image-955\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/11\/rinpoche_11.jpg\" alt=\"Sogyal Rinpoche\" width=\"233\" height=\"352\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/11\/rinpoche_11.jpg 233w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/11\/rinpoche_11-120x181.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 233px) 100vw, 233px\" \/><p id=\"caption-attachment-955\" class=\"wp-caption-text\">Sogyal Rinpoche<\/p><\/div>\n<p>aprendermos a lidar com a nossa morte iminente: \u201cOlhar honestamente para os seus medos tamb\u00e9m vai ajudar voc\u00ea na sua\u00a0pr\u00f3pria jornada para a maturidade. \u00c0s vezes penso que n\u00e3o h\u00e1 maneira mais efetiva de acelerarmos nosso crescimento como seres humanos do que trabalhar com os que v\u00e3o morrer. Cuidar deles j\u00e1 \u00e9 uma profunda contempla\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o sobre a nossa pr\u00f3pria morte. \u00c9 um modo de enfrent\u00e1-la e trabalhar com ela. Quando voc\u00ea lida com os desenganados, pode chegar a uma decis\u00e3o, a um claro entendimento do que \u00e9 a mais importante quest\u00e3o da vida. Aprender a ajudar de fato os que est\u00e3o morrendo \u00e9 come\u00e7ar a tornar-se corajoso e respons\u00e1vel no que diz respeito \u00e0 pr\u00f3pria morte, e a descobrir em si o ponto de partida de uma compaix\u00e3o infinita, cuja exist\u00eancia voc\u00ea pode nunca ter suspeitado antes\u201d(p. 233).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos sete anos, tive meu primeiro vislumbre do vasto poder da tradi\u00e7\u00e3o de que eu estava me tornando parte, e comecei a entender o sentido&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-951","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-03-arcano-iii-digressoes-de-um-bibliofilo"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/951","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=951"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/951\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=951"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=951"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=951"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}