{"id":962,"date":"2009-11-06T06:21:52","date_gmt":"2009-11-06T09:21:52","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=962"},"modified":"2009-11-06T06:21:52","modified_gmt":"2009-11-06T09:21:52","slug":"qual-e-o-seu-mito-pessoal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/11\/06\/qual-e-o-seu-mito-pessoal\/","title":{"rendered":"Qual \u00e9 o seu mito pessoal?"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\">Um mito \u00e9 um modo de dar sentido a um mundo sem sentido. Mitos s\u00e3o padr\u00f5es narrativos que d\u00e3o significado \u00e0 nossa exist\u00eancia. Se o sentido da exist\u00eancia \u00e9 apenas o que colocamos na vida por nossa pr\u00f3pria for\u00e7a individual, como Sartre defenderia, ou se existe um sentido que precisamos descobrir, como afirmaria Kierkegaard, o resultado \u00e9 o mesmo: os mitos s\u00e3o nosso modo de encontrar esse sentido e esse significado. Mitos s\u00e3o como as vigas de uma casa: invis\u00edveis a uma vis\u00e3o exterior, s\u00e3o a estrutura que mant\u00e9m a casa de p\u00e9 para que as pessoas possam morar nela. Criar mitos \u00e9 essencial para se obter sa\u00fade mental e o terapeuta compassivo n\u00e3o o desencorajaria. Na verdade, a real origem e prolifera\u00e7\u00e3o da psicoterapia em nossa era contempor\u00e2nea advieram exclusivamente da desintegra\u00e7\u00e3o de nossos mitos.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Rollo May<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[May, Rollo. A procura do mito. Tradu\u00e7\u00e3o de Anna Maria Dalle Luche. \u2013 S\u00e3o Paulo: Manole, 1992,\u00a0 p. 3.]<\/span><\/em><\/p>\n<p>As sociedades arcaicas, seja as que j\u00e1 desapareceram, seja as que ainda subsistem em pleno s\u00e9culo XXI, s\u00e3o pr\u00f3digas em mitos e ritos. Os mitos s\u00e3o hist\u00f3rias, geralmente transmitidas de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da tradi\u00e7\u00e3o oral, que remetem aos tempos primordiais, \u00e0s origens. Os mitos visam, sobretudo, explicar porque as coisas s\u00e3o como s\u00e3o. Ao contr\u00e1rio do que muitos, erroneamente, pensam, os mitos n\u00e3o s\u00e3o inven\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias de mentes imaginativas. Pelo contr\u00e1rio, os mitos surgem de fontes arquet\u00edpicas para dar conta de uma realidade \u00e0 qual, de outra forma, n\u00e3o se poderia ter acesso. Nesse sentido, os mitos guardam certa similaridade com os sonhos.<\/p>\n<p>J\u00e1 os ritos s\u00e3o a forma que os agrupamentos humanos encontraram de dramatizar os mitos. Pode-se afirmar que os rituais s\u00e3o a teatraliza\u00e7\u00e3o dos mitos. Toda sociedade tem seus mitos fundadores, mesmo as mais desenvolvidas. Engana-se quem pensa que mito \u00e9 coisa do passado ou de sociedades subdesenvolvidas. V\u00e1rios autores que dedicaram muitos anos de estudos e pesquisas aos mitos, concluindo que eles s\u00e3o mais presentes e atuantes do\u00a0que se poderia supor. Entre tais autores destacar\u00edamos dois: Joseph Campbell e Rollo May.\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0<\/p>\n<p>A ritualiza\u00e7\u00e3o dos mitos permitia aos membros de uma determinada sociedade vivenciar as diversas etapas da vida sob a l\u00f3gica de um processo de inicia\u00e7\u00e3o. Algumas mudan\u00e7as, que ainda hoje s\u00e3o vivenciadas como rupturas, como \u00e9 o caso da passagem da inf\u00e2ncia para a adolesc\u00eancia, ou da adolesc\u00eancia para a idade adulta; o casamento, a morte, o nascimento de uma crian\u00e7a etc., tudo era ritualizado e tudo era explicado sob a perspectiva de um determinado mito. Quando as sociedades modernas sepultaram os seus mitos, perderam, com isso, o contato com aquilo que conferia um sentido \u00e0 vida, tanto \u00e0 vida em comunidade quanto \u00e0 exist\u00eancia individual. O resultado foi que o indiv\u00edduo se viu\u00a0 s\u00f3, sem ter como resolver suas ang\u00fastias existenciais, o que acabou por precipit\u00e1-lo num niilismo vazio e ca\u00f3tico.<\/p>\n<p>Uma vez tendo perdido o contato com suas ra\u00edzes m\u00edticas mais profundas, restou-lhe como alternativa refugiar-se na neurose. O neur\u00f3tico vive perdido num mundo de fantasias. A fantasia, em si, n\u00e3o \u00e9 um mal. A arte, como se sabe, tem na fantasia uma de suas fontes mais prof\u00edcuas. O mal est\u00e1 em n\u00e3o encontrar um sentido para a fantasia. Nesse caso, o contato com os mitos pode oferecer ao indiv\u00edduo uma alternativa. A fantasia, quando contextualizada numa perspectiva m\u00edtica, pode-se revelar um instrumento poderoso no tratamento das neuroses.<\/p>\n<p>Mas para que isso seja vi\u00e1vel \u00e9 necess\u00e1rio, antes, ter acesso ao mito que o indiv\u00edduo est\u00e1 vivenciando. \u00c9 interessante observar que todos n\u00f3s repetimos em nosso dia a dia, sem que disso nos demos conta, padr\u00f5es m\u00edticos. Recordo que um dos grandes momentos de ultrapassagem no meu tempo de an\u00e1lise foi quando o meu psicanalista me fez ver que, ante uma determinada situa\u00e7\u00e3o na qual eu \u201cemperrara\u201d, eu estava repetindo o mito de S\u00edsifo. S\u00edsifo fora condenado a rolar eternamente uma enorme pedra montanha acima. Quando estava quase atingindo o topo da montanha, a pedra rolava encosta abaixo e S\u00edsifo tinha que come\u00e7ar tudo de novo. E assim, indefinidamente, nunca atingindo o topo da montanha.<\/p>\n<p>Era isso que eu estava fazendo. Quando estava quase atingindo o meu objetivo, inconscientemente eu dava um jeito de fazer a minha pedra rolar montanha abaixo, e l\u00e1 se iam todos os meus esfor\u00e7os, como afirma o dito popular, por \u00e1gua abaixo, tendo que recome\u00e7ar tudo outra vez. Reconhecer esse aspecto do meu comportamento provocou em mim uma grande mudan\u00e7a. Tentar compreender que padr\u00f5es m\u00edticos estamos repetindo em nossas vidas \u00e9 um bom caminho para a sempre almejada mudan\u00e7a de comportamento, de forma que possamos quebrar o c\u00edrculo vicioso da neurose.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um mito \u00e9 um modo de dar sentido a um mundo sem sentido. Mitos s\u00e3o padr\u00f5es narrativos que d\u00e3o significado \u00e0 nossa exist\u00eancia. 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