{"id":997,"date":"2009-11-09T06:21:17","date_gmt":"2009-11-09T09:21:17","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=997"},"modified":"2009-11-09T06:21:17","modified_gmt":"2009-11-09T09:21:17","slug":"crimes-e-pecados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/11\/09\/crimes-e-pecados\/","title":{"rendered":"Crimes e pecados"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-998\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/11\/1700045.jpg\" alt=\"1700045\" width=\"150\" height=\"212\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/11\/1700045.jpg 150w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/11\/1700045-120x170.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/>Sempre fui um c\u00e9tico, mas tive forma\u00e7\u00e3o religiosa. Por mais que a tenha questionado, mesmo enquanto crian\u00e7a, algum sentimento religioso deve ter permanecido comigo. Lembro-me do meu pai dizendo: \u201cNada escapa aos olhos de Deus\u201d. Os olhos de Deus, que conceito para um garoto! Como seriam os olhos de Deus? Incrivelmente penetrantes, intensos, eu supunha. E me pergunto se foi mera coincid\u00eancia ter me especializado em oftalmologia.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Judah Rosenthal, personagem do filme \u201cCrimes e pecados\u201d<\/span><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 muitos anos elegi Woody Allen um dos meus diretores de cinema prediletos. Nunca perco a oportunidade de ver mais um filme desse americano que, al\u00e9m de diretor, \u00e9 tamb\u00e9m roteirista e ator. Alguns dos seus filmes, como, por exemplo, \u201cInteriores\u201d e \u201cA rosa p\u00farpura do Cairo\u201d, vi mais de uma vez. O humor de Allen tem sempre um toque sutil e inteligente, que faz rir tanto quanto faz pensar.<\/p>\n<p>Ontem tive oportunidade de assistir, pela primeira vez, \u201cCrimes e pecados\u201d, filme dirigido e protagonizado por Woody Allen em 1989. Fiquei impressionad\u00edssimo. O filme \u00e9, simultaneamente, drama e com\u00e9dia.\u00a0O\u00a0enredo\u00a0enfoca v\u00e1rios personagens cujas vidas est\u00e3o parcialmente entrela\u00e7adas. Sem entrar em maiores detalhes, gostaria de destacar aqui apenas o personagem principal, devido a alguns aspectos que me t\u00eam provocado desde ontem diversas reflex\u00f5es.<\/p>\n<p>Judah Rosenthal \u00e9 um bem sucedido oftalmologista, casado e respeitado por toda a comunidade. Depois de se envolver numa aventura amorosa fora do casamento, Judah se v\u00ea em apuros quando a amante amea\u00e7a contar tudo \u00e0 sua esposa, a menos que ele aquies\u00e7a em deixar a fam\u00edlia para viver com ela. A partir da\u00ed, o oftalmologista come\u00e7a a viver um grande drama de consci\u00eancia. Procura seu irm\u00e3o em busca de ajuda. Este sugere que d\u00eaem cabo da amante. A sugest\u00e3o o p\u00f5e num estado de grande tens\u00e3o, quando ele come\u00e7a a recordar uma frase que o pai lhe repetira v\u00e1rias vezes durante a inf\u00e2ncia: \u201cNada escapa aos olhos de Deus\u201d.<\/p>\n<p>Um dos momentos mais significativos do filme, para mim, \u00e9 a cena em que Judah procura Ben, um rabino que vinha se tratando com ele e estava em vias de perder a vis\u00e3o. Quando o m\u00e9dico fala para Ben sobre a proposta de seu irm\u00e3o para que dessem um sumi\u00e7o na amante, o rabino questiona o aspecto moral deste ato, uma vez que se tratava de eliminar uma vida. Interpela, ent\u00e3o, Judah com as seguintes palavras: \u201cEu n\u00e3o poderia viver sem a cren\u00e7a em um sistema moral com um verdadeiro significado e perd\u00e3o, regido por um poder superior. Sen\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 base de conduta. E sei que h\u00e1 uma centelha dessa cren\u00e7a em voc\u00ea tamb\u00e9m\u201d. E completa: \u201cAcha que Deus n\u00e3o ver\u00e1?\u201d A essa interpela\u00e7\u00e3o, retruca Judah: \u201cDeus \u00e9 um luxo que n\u00e3o posso me permitir\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cCrimes e pecados\u201d \u00e9 um filme com um enredo altamente complexo, permitindo ser analisado sob diversos enfoques. A quest\u00e3o da vis\u00e3o, por exemplo, permanece como pano de fundo do come\u00e7o ao fim. J\u00e1 no in\u00edcio do filme ela \u00e9 anunciada num discurso proferido por Judah, em que ele estabelece uma rela\u00e7\u00e3o entre a frase repetida pelo pai, que o m\u00e9dico levaria consigo pela vida afora, e o fato de ter escolhido a oftalmologia como profiss\u00e3o. Ben, o rabino, sofre de um problema de vista degenerativo, vindo a cegar no final, sendo, por isso, privado de ver o casamento da filha.<\/p>\n<p>A melhor an\u00e1lise que se pode fazer, por\u00e9m, \u00e9 do ponto de vista religioso. Quanto a isso, eu diria que o final da hist\u00f3ria promete algumas surpresas que provocam muitas reflex\u00f5es. Enquanto assistia \u201cCrimes e pecados\u201d, por mais de uma vez me veio \u00e0 lembran\u00e7a uma entrevista de Ariano Suassuna, na qual ele afirma que decidiu acreditar em Deus no dia\u00a0que leu uma frase de Dostoievski em que o escritor russo dizia que, se Deus n\u00e3o existe, ent\u00e3o tudo \u00e9 permitido.<\/p>\n<p>Mas, indago a mim mesmo ao pensar no desfecho de \u201cCrimes e pecados\u201d, ser\u00e1 mesmo verdade que \u201cNada escapa aos olhos de Deus?\u201d Haver\u00e1, de fato, um ser superior que pune os crimes e pecados e premia a virtude?&#8230; ? &#8230; ? &#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre fui um c\u00e9tico, mas tive forma\u00e7\u00e3o religiosa. Por mais que a tenha questionado, mesmo enquanto crian\u00e7a, algum sentimento religioso deve ter permanecido comigo. 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