{"id":589,"date":"2017-06-12T09:43:25","date_gmt":"2017-06-12T12:43:25","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/veiaesportiva\/?p=589"},"modified":"2017-06-12T09:43:25","modified_gmt":"2017-06-12T12:43:25","slug":"paginas-azuis-lars-grael-historia-reinventada-de-um-campeao-olimpico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/veiaesportiva\/2017\/06\/12\/paginas-azuis-lars-grael-historia-reinventada-de-um-campeao-olimpico\/","title":{"rendered":"P\u00e1ginas Azuis. Lars Grael, a hist\u00f3ria reinventada de um campe\u00e3o ol\u00edmpico"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_590\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-590\" class=\"size-medium wp-image-590\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/veiaesportiva\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/veiaesportiva\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2017\/06\/Lars-Grael-p\u00e1ginas-azuis-o-povo-300x450.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"450\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/veiaesportiva\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2017\/06\/Lars-Grael-p\u00e1ginas-azuis-o-povo-300x450.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/veiaesportiva\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2017\/06\/Lars-Grael-p\u00e1ginas-azuis-o-povo-120x180.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/veiaesportiva\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2017\/06\/Lars-Grael-p\u00e1ginas-azuis-o-povo.jpg 500w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-590\" class=\"wp-caption-text\">Acidente que lhe custou a amputa\u00e7\u00e3o da perna direita o obrigou a buscar outros objetivos, no esporte e na vida. (Foto: Aur\u00e9lio Alves\/ESPECIAL O POVO)<\/p><\/div>\n<p>Confira a entrevista do medalhista ol\u00edmpico Lars Grael, nas P\u00e1ginas Azuis, do <strong>O POVO<\/strong>. <strong>Entrevista:<\/strong> Bruno Balac\u00f3 |\u00a0<strong>Foto:<\/strong> Aur\u00e9lio Alves<\/p>\n<p>Em 1998, Lars Grael vivia o auge de sua carreira de velejador quando foi obrigado a reprogramar sua vida ap\u00f3s um acidente que resultou na amputa\u00e7\u00e3o da perna direita. O recome\u00e7o veio com v\u00e1rios convites para assumir cargos de gest\u00e3o esportiva.<br \/>\n<!--more--><\/p>\n<p>Aos poucos, retomou o ritmo de competi\u00e7\u00f5es na vela, tendo como ponto alto a conquista de mais um t\u00edtulo mundial, na classe Star, em 2015. Hist\u00f3ria de supera\u00e7\u00e3o que rende a ele uma movimentada agenda de palestrante.\u00a0Ao <strong>O POVO<\/strong>, al\u00e9m de contar sua trajet\u00f3ria de altos e baixos no esporte, tratou sobre o projeto para tornar o Brasil uma pot\u00eancia ol\u00edmpica, o legado da Rio-2016, o paradesporto e a gest\u00e3o esportiva no Brasil.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Velejador Lars Grael conta sua trajet\u00f3ria de altos e baixos no esporte | P\u00e1ginas Azuis\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/UllR2H7bRGo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600\"><strong>O POVO<\/strong> &#8211;<\/span> <span style=\"color: #ff6600\">De refer\u00eancia esportiva sua hist\u00f3ria de vida o colocou em outro patamar devido ao acidente (em 1998, em Vit\u00f3ria, uma lancha invadiu a \u00e1rea de competi\u00e7\u00e3o e bateu no barco, atingindo o velejador). O que passou pela sua cabe\u00e7a na \u00e9poca?<\/span><\/p>\n<p><strong>LARS GRAEL<\/strong> \u2013 Naquele momento estava no auge da minha carreira. Era rec\u00e9m-bimedalhista ol\u00edmpico, j\u00e1 sonhava em disputar as Olimp\u00edadas de Sidney, em 2000. Era um ano em que o campeonato mundial de vela da classe Tornado, onde eu competia na Olimp\u00edada, se realizava pela primeira vez no Brasil, em B\u00fazios. Ent\u00e3o, a motiva\u00e7\u00e3o estava l\u00e1 em cima. Tipo da coisa que voc\u00ea n\u00e3o programa para sua vida e, quando aconteceu, o ch\u00e3o sai de baixo.<\/p>\n<p>Primeiro foi um momento de incerteza, de luta pela vida. E a medida que fui ganhando essa luta veio todo um sentimento de \u201ce agora?\u201d. Do auge da carreira a aceitar ser um deficiente f\u00edsico, havia uma barreira psicol\u00f3gica consider\u00e1vel. Ent\u00e3o, na verdade, pessoas que passaram por situa\u00e7\u00f5es semelhantes foram fundamentais para me inspirar que a vida continuava. Enfrentar a vida do jeito que ela \u00e9, aceitar o pr\u00f3prio preconceito de, de uma hora para outra, me ver como deficiente. Mas, tentar produzir&#8230;<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600\"><strong>OP<\/strong>&#8211; Como voc\u00ea conseguiu reprogramar sua vida, seus objetivos?<\/span><\/p>\n<p><strong>LARS<\/strong> \u2013 A fam\u00edlia foi fundamental, a forma como a fam\u00edlia se uniu. Minha m\u00e3e, que j\u00e1 \u00e9 falecida, meus irm\u00e3os, minha esposa Renata, amigos do esporte e eu tentar realmente um sentido para a vida. Quando estava em uma fase ainda de voltar para Niter\u00f3i (RJ), que era onde eu morava, e tentar entender o que seria a minha proposta de vida, foi quando fui convidado para voltar a morar em Bras\u00edlia e ocupar cargos de gest\u00e3o, no ent\u00e3o Minist\u00e9rio de Esporte e Turismo (1998).<\/p>\n<p>A\u00ed virei secret\u00e1rio Nacional do Esporte (2001), fui secret\u00e1rio estadual em S\u00e3o Paulo (2003-2006), mas sem nunca perder essa paix\u00e3o pela vela. Ent\u00e3o, ficava sempre flertando em querer voltar a competir pelo simples prazer, j\u00e1 sem muitas ambi\u00e7\u00f5es. Foi quando o meu irm\u00e3o Torben (dono de cinco medalhas ol\u00edmpicas) mostrou a classe Star, a mais tradicional modalidade da vela internacional, em que ele se consagrou.<\/p>\n<p>Ele achava que, pela configura\u00e7\u00e3o do barco, eu poderia voltar a competir. No in\u00edcio servi como sparring, que \u00e9 o barco de refer\u00eancia para o treino do Torben, e estive nos Jogos de Sidney e Atenas (2004) como coordenador t\u00e9cnico da equipe ol\u00edmpica de vela. E depois voltei a competir e os t\u00edtulos vieram.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600\"><strong>OP<\/strong> &#8211; O que mais dificultou o processo de recupera\u00e7\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p><strong>LARS<\/strong> \u2013 Acho que, primeiro, o pr\u00f3prio preconceito. Aceitar essa nova exist\u00eancia. E pessoas que passaram por situa\u00e7\u00f5es semelhantes foram fundamentais para mim. A partir dali, foi ocupar a minha vida. Sempre que surgia qualquer convite para exercer qualquer cargo, fun\u00e7\u00e3o, volunt\u00e1rio, ia aceitando como forma de ocupar a mente.<\/p>\n<p>Passei a ter uma agenda bastante intensa. Come\u00e7aram as palestras a partir de 2000. E voltar a competir foi extremamente saud\u00e1vel para eu fazer as pazes comigo mesmo. No ambiente onde dediquei a minha vida foi onde quase perdi a vida, que foi o mar, e fazer as pazes com o mar&#8230;<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600\"><strong>OP<\/strong> \u2013 Uma das atividades a que o senhor se dedicou ap\u00f3s o acidente foi a de palestrante. Como se deu esse processo?<\/span><\/p>\n<p><strong>LARS<\/strong> \u2013 As pessoas me cobravam: \u2018por que voc\u00ea n\u00e3o faz palestras?\u2019. N\u00e3o tinha experi\u00eancia nisso. N\u00e3o sabia como ia ser esse cen\u00e1rio. Nessa fase, estava trabalhando para o Governo Federal. A remunera\u00e7\u00e3o era bastante insuficiente para que eu pudesse manter a fam\u00edlia e querer continuar a fazer o m\u00ednimo na vela.<\/p>\n<p>Foi quando surgiu um empres\u00e1rio de palestras e falou \u2018posso te ajudar a montar uma palestra e voc\u00ea ter uma fonte de receita alternativa\u2019. Ent\u00e3o, comecei isso em 2000 e rapidamente isso se tornou a minha principal fonte de receita.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600\"><strong>OP<\/strong> &#8211; O senhor j\u00e1 esteve \u00e0 frente de diversas iniciativas, ligadas ou n\u00e3o a governos, em prol do esporte. Como enxerga a gest\u00e3o do esporte brasileiro atual?<\/span><\/p>\n<p><strong>LARS<\/strong> \u2013 Tudo no Brasil est\u00e1 decorrente do momento que n\u00f3s vivemos. Uma crise pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social sem precedentes. Isso afeta qualquer atividade. E o esporte n\u00e3o \u00e9 diferente. At\u00e9 porque o esporte no Brasil viveu uma sequ\u00eancia de grandes eventos e isso foi gerando uma expectativa e uma relev\u00e2ncia, que come\u00e7ou com os Jogos Sul-Americanos em 2002, depois vieram os Jogos Pan-Americanos em 2007, os Jogos Mundiais Militares em 2011, Copa do Mundo em 2014 e Jogos Ol\u00edmpicos e Paral\u00edmpicos em 2016.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como passou essa sequ\u00eancia de grandes eventos e o Pa\u00eds est\u00e1 hoje em uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-financeira grave, nos governos federal, estaduais e municipais, houve percep\u00e7\u00e3o de uma grande derrocada no esporte. Uma ressaca p\u00f3s-ol\u00edmpica. O que \u00e9 um erro. Com certeza n\u00f3s temos muito que melhorar. E hoje se fala muito em mudar a forma de governan\u00e7a no esporte brasileiro. A estrutura arcaica que n\u00f3s t\u00ednhamos de confedera\u00e7\u00f5es, aqueles dirigentes que se eternizavam nos cargos por d\u00e9cadas, isso realmente tem que mudar.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem como sustentar. Voc\u00ea tem que ter uma gest\u00e3o com mais transpar\u00eancia, uma gest\u00e3o que seja moderna, profissional. O tema que se fala hoje \u00e9 governan\u00e7a, melhoria de gest\u00e3o e entidades comprovarem conformidade com as regras \u00e9ticas e as leias, \u00e9 claro. O esporte precisa ter credibilidade para que mere\u00e7a recursos p\u00fablicos. Tendo uma coer\u00eancia de um pa\u00eds que desejou ser uma pot\u00eancia ol\u00edmpica ou paral\u00edmpica. N\u00e3o era um projeto que terminava em 2016, que foi uma fase de a gente medir o desempenho brasileiro.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600\"><strong>OP<\/strong> &#8211; Qual acredita que tenha sido o real legado das Olimp\u00edadas no Rio para o Pa\u00eds?<\/span><\/p>\n<p><strong>LARS<\/strong> \u2013 Com certeza, a Olimp\u00edada trouxe obras de infra-estrutura que deixaram melhoramentos urbanos, sobretudo no campo de mobilidade no Rio, e deixou um parque esportivo que \u00e9 deficit\u00e1rio. Voc\u00ea manter um parque ol\u00edmpico daquele tem que ter inje\u00e7\u00e3o de recursos, porque tem um custo grande.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil adaptar programas sociais e forma\u00e7\u00e3o de atletas em uma estrutura que foi modulada para sediar o maior evento da humanidade. A gente percebe muito mais os problemas decorrentes da crise que o estado (do Rio) enfrenta agora que os benef\u00edcios deixados pela Olimp\u00edada.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600\"><strong>OP<\/strong> &#8211; Ainda acredita que seja poss\u00edvel o Brasil se tornar uma pot\u00eancia ol\u00edmpica?<\/span><\/p>\n<p><strong>LARS<\/strong> \u2013 N\u00f3s n\u00e3o temos que ter imediatismo quando se fala de esporte. Se voc\u00ea pensar o quadro de medalhas da China nas Olimp\u00edadas de Montreal, em 1976, foi zero medalha. Era um Pa\u00eds que come\u00e7ava a pensar o esporte como estrat\u00e9gia de propaganda governamental e tamb\u00e9m como programa nacional de educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. A China era um pa\u00eds totalmente irrelevante no esporte. Para virar uma pot\u00eancia foi um trabalho feito com coer\u00eancia e por d\u00e9cadas. Ent\u00e3o, aqui no Brasil, n\u00f3s t\u00ednhamos um investimento mediano no esporte at\u00e9 os Jogos de Londres e fizemos uma acelera\u00e7\u00e3o de investimentos para o Rio.<\/p>\n<p>Agora, em quatro anos n\u00e3o se faz uma pot\u00eancia ol\u00edmpica. Medalha n\u00e3o se vende em supermercado, no atacado. Ent\u00e3o, voc\u00ea tem que ter um trabalho de base que envolva qualifica\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica nas escolas, a valoriza\u00e7\u00e3o do calend\u00e1rio esportivo escolar, usar a estrutura dos clubes para atender tamb\u00e9m \u00e0 comunidade, com um programa nacional de forma\u00e7\u00e3o de atletas&#8230; Esse trabalho com coer\u00eancia \u00e9 que n\u00f3s temos que ter hoje, n\u00e3o s\u00f3 pensando em medalha, para a gente colher medalhas a m\u00e9dio e longo prazo. O trabalho em esporte requer um investimento cont\u00ednuo.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600\"><strong>OP<\/strong> &#8211; A vela \u00e9 entendida como um esporte da elite. O senhor mesmo capitaneia um projeto que trabalha justamente no acesso a esta modalidade. O que mais pode ser feito neste sentido?<\/span><\/p>\n<p><strong>LARS<\/strong> \u2013 O Brasil \u00e9 um pa\u00eds que tem muito pouca cultura n\u00e1utica e mentalidade mar\u00edtima. A nossa coloniza\u00e7\u00e3o se deu, principalmente, pelo imigrante europeu que veio para c\u00e1 ou pelos africanos que foram escravizados. Essa coloniza\u00e7\u00e3o se deu atrav\u00e9s do mar. Hoje n\u00f3s temos uma concentra\u00e7\u00e3o populacional enorme na faixa litor\u00e2nea. A gente paga car\u00edssimo para viver com vista para o mar, mas a nossa cultura n\u00e3o costuma passar da rebenta\u00e7\u00e3o das praias.<\/p>\n<p>\u00c9 muito mais uma quest\u00e3o cultural do que uma quest\u00e3o financeira. Aqui no Pa\u00eds voc\u00ea consegue fazer, \u00e0s vezes, ocupa\u00e7\u00f5es desordenadas na beira do mar, de rio, lagos e represas jogando esgoto in natura no mar e pouco se faz contra isso, porque parece uma medida de compensa\u00e7\u00e3o social. Agora, quando se fala em fazer marinas, na beira do mar, parece que voc\u00ea aciona todos os dispositivos ambientais contr\u00e1rios. Falta de cultura. Os pa\u00edses ditos desenvolvidos se desenvolveram porque tiveram cultura e mentalidade mar\u00edtima. Conquistaram mercados, portos, estabeleceram col\u00f4nias em outras regi\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o temos essa cultura. Ent\u00e3o, as cidades que se desenvolveram fazendo aterros na beira do mar, colocando pistas de rodagem, separando os bairros residenciais do mar, n\u00e3o t\u00eam acesso p\u00fablico com facilidade para colocar ou tirar uma embarca\u00e7\u00e3o. Quase sempre uma parcela pequena da popula\u00e7\u00e3o tem acesso aos clubes. Ent\u00e3o, o Brasil tem, ao mesmo tempo, no caso da vela, seu melhor quadro de medalhas em Olimp\u00edada e ainda com poucos praticantes.<\/p>\n<p>Como n\u00f3s somos filhos de servidor p\u00fablico federal, n\u00e3o tivemos esse ber\u00e7o espl\u00eandido para se desenvolver na vela, tudo que n\u00f3s t\u00ednhamos era cultura de fam\u00edlia do meu lado materno, a gente tentava dar uma contribui\u00e7\u00e3o para democratizar a vela. Criou-se assim o Projeto Grael l\u00e1 em 1998, pegando os jovens da rede p\u00fablica de ensino, de comunidades em Niter\u00f3i, e levando para uma escolinha de vela. A\u00ed depois a gente ensinou esses jovens a nadar, a remar caiaques, a ter uma educa\u00e7\u00e3o ambiental e hoje \u00e9 um programa j\u00e1 bastante reconhecido.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600\"><strong>OP<\/strong> &#8211; Grael \u00e9 o sobrenome mais forte da vela do mundo. Como viu essa conquista de ouro na \u00faltima Olimp\u00edada, da nova gera\u00e7\u00e3o de velejadores, representada pela (sobrinha) Martine Grael?<\/span><\/p>\n<p><strong>LARS<\/strong> \u2013 Quando n\u00f3s come\u00e7amos na vela, quem era bom era o lado da minha m\u00e3e, de sobrenome Schmidt. Meus tios foram tricampe\u00f5es mundiais de vela. Ouro e prata em Jogos Pan-Americanos e foram a duas Olimp\u00edadas. Eles eram refer\u00eancia, os irm\u00e3os Erick e Axel Schmidt. Quando eu e o Torben come\u00e7amos na vela, us\u00e1vamos o sobrenome deles, que tinha tradi\u00e7\u00e3o. Mas a gente n\u00e3o tinha resultados no in\u00edcio.<\/p>\n<p>A\u00ed come\u00e7aram a comparar, \u2018p\u00f4, voc\u00eas s\u00e3o ruins, hein? Os tios de voc\u00eas s\u00e3o t\u00e3o bons\u2019. Foi quando a gente decidiu mudar o sobrenome esportivo para Grael, \u2018assim n\u00e3o v\u00e3o cobrar a gente\u2019. E a gente estabeleceu um padr\u00e3o na vela brasileira, internacional, que passou a ser respeitado. E a gente come\u00e7a a ver um problema, que \u00e9 ver como a gente transfere isso de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Meus filhos, meus sobrinhos carregam o sobrenome Grael, o que pode gerar uma cobran\u00e7a inicial. Por um lado, gera notoriedade, expectativa, \u2018esses caras devem ser bons de vela\u2019. Meu filho hoje convive com essa cobran\u00e7a, mas a Martine Grael conseguiu mostrar que a nova gera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 muito boa.<\/p>\n<p>Durante esse ciclo de Londres para Rio foi campe\u00e3 mundial uma vez, foi vice-campe\u00e3 mundial outras duas vezes, quase sempre l\u00edderes de ranking (em parceria com Kahena Kunze). E, na Olimp\u00edada, na \u00faltima regata da classe 49er, que era a \u00faltima esperan\u00e7a de medalha do Brasil que sobrava na vela, imagina a press\u00e3o que ficou sobre ela e a Kahena Kunze. Tiveram desempenho extraordin\u00e1rio, frieza, brilharam no melhor momento.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600\"><strong>OP<\/strong> &#8211; E o esporte paral\u00edmpico? Como enxerga o potencial do Brasil para que a pr\u00e1tica paral\u00edmpica seja democratizada e, consequentemente, possa trazer tamb\u00e9m mais resultados?<\/span><\/p>\n<p><strong>LARS<\/strong> \u2013 O paradesporto do Brasil est\u00e1 na vanguarda em toda a Am\u00e9rica Latina. Basta ver nosso resultado nos Jogos Parapan-Americanos. Mas temos muito ainda a avan\u00e7ar. E pensar que at\u00e9 1995 n\u00e3o t\u00ednhamos um \u00f3rg\u00e3o de gest\u00e3o do paradesporto. Criou-se ent\u00e3o o comit\u00ea paral\u00edmpico brasileiro, em Niter\u00f3i. Depois, a lei Agnelo Piva, que foi um divisor de \u00e1guas para o setor.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, as pessoas tinham no m\u00e1ximo pena ou alguma admira\u00e7\u00e3o distante. A\u00ed, a sociedade passou a entender mais e melhor que s\u00e3o brasileiros que suam a mesma camisa, dignificam a mesma bandeira e conquistam medalhas, ainda ultrapassando v\u00e1rias barreiras, dentre elas a do preconceito. Hoje o Brasil tem patrocinadores p\u00fablico-privados acreditando at\u00e9 no aspecto do marketing que representa o paradesporto. Um centro nacional de alt\u00edssimo rendimento em S\u00e3o Paulo, outros centros regionais&#8230; A tend\u00eancia \u00e9 crescer e sociedade abra\u00e7ar essa causa como de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600\"><strong>OP<\/strong> &#8211; Quais obst\u00e1culos as pessoas com defici\u00eancia precisam vencer para estar no esporte?<\/span><\/p>\n<p><strong>LARS<\/strong> \u2013 Vi o caso do goleiro Jackson Follmann, que sofreu o acidente com a Chapecoense (em novembro de 2016) e teve uma das pernas amputadas. Ele fez uma experi\u00eancia no centro paral\u00edmpico jogando v\u00f4lei sentado. Tem v\u00e1rias modalidades onde ele pode viver essa experi\u00eancia e ver em qual delas se sente melhor. Tem o ex-goleiro do S\u00e3o Paulo, o Bruno Landgraf, que em um acidente de carro ficou tetrapl\u00e9gico, e representou o Brasil na Paralimp\u00edada de 2016 na vela.<\/p>\n<p>O paradesporto tem um papel social muito grande, porque al\u00e9m de gerar bem-estar, qualidade de vida para a pessoa com defici\u00eancia, ele ajuda a provar para a sociedade que essa letrinha \u2018D\u2019, de defici\u00eancia, cai. No esporte, mesmo a pessoa tendo uma defici\u00eancia, sendo ela f\u00edsica, sensorial ou mental, pode provar, atrav\u00e9s do esporte, efici\u00eancia. Como pode render, produzir em favor da sociedade, entendendo que no mercado de trabalho essas pessoas merecem espa\u00e7o para serem \u00fateis ao Pa\u00eds. Ent\u00e3o, o esporte \u00e9 um vetor de inser\u00e7\u00e3o social muito grande.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600\"><strong>OP<\/strong> \u2013 O senhor tem uma viv\u00eancia tamb\u00e9m no \u00e2mbito da pol\u00edtica. Como analisa o atual cen\u00e1rio pol\u00edtico do Brasil?<\/span><\/p>\n<p><strong>LARS<\/strong> \u2013 Acho a situa\u00e7\u00e3o lament\u00e1vel. Hoje estamos em um pa\u00eds em que temos 32 ou mais partidos pol\u00edticos e se voc\u00ea tentar identificar umas seis ou oito ideologias \u00e9 muito. O sistema pol\u00edtico-partid\u00e1rio perdeu muita credibilidade. Antes, cada um tentava, em um pa\u00eds dividido, separar o certo do errado.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de que todo o sistema est\u00e1 errado. Acho que a Opera\u00e7\u00e3o Laja Jato se prop\u00f5e a isso. O Pa\u00eds mergulhou em uma crise pol\u00edtica e de consequ\u00eancias econ\u00f4micas enormes e agora acho que o nosso interesse \u00e9 de que tudo isso seja lavado e passado a limpo para criar uma nova na\u00e7\u00e3o, sob novos valores e superiores ao que n\u00f3s faz\u00edamos aqui, do que o jogo do \u201ctoma-l\u00e1-da-c\u00e1\u201d, do jogo do \u201c\u00e9 dando que se recebe\u201d, um grupo que se perpetuou no poder para saquear o pr\u00f3prio Pa\u00eds. Ent\u00e3o, acho que temos que mudar o conceito de servir \u00e0 sociedade.<\/p>\n<p><strong>PALESTRA<br \/>\n<\/strong>A entrevista foi realizada no dia 1\u00ba de junho, no Centro de Eventos do Cear\u00e1, onde o velejador ministrou palestra no Congresso M\u00e9dico Unimed Fortaleza.<\/p>\n<p><strong>EMO\u00c7\u00c3O<br \/>\n<\/strong>Lars ficou com os olhos marejados ao falar do acidente sofrido em 1998. Em outro momento, abriu largo sorriso quando a reportagem destacou os feitos da fam\u00edlia Grael.<\/p>\n<p><strong>CEAR\u00c1<br \/>\n<\/strong>Jericoacoara \u00e9 apontada por Lars como um para\u00edso do Brasil Para o velejador, que fez quest\u00e3o de elogiar a beleza do litoral do Cear\u00e1, o Estado \u00e9 a &#8220;terra dos bons ventos&#8221;.<\/p>\n<p><strong>PERFIL<br \/>\n<\/strong>Nascido em S\u00e3o Paulo, Lars Schmidt Grael tem 53 anos e fez hist\u00f3ria como velejador. \u00c9 oriundo de uma fam\u00edlia tradicional no iatismo brasileiro, que tem campe\u00f5es mundiais em tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es (os tios Erick e Axel, o irm\u00e3o Torben e a sobrinha Martine), al\u00e9m de oito medalhas ol\u00edmpicas. Participou de quatro Olimp\u00edadas e conquistou duas medalhas de bronze, uma nos Jogos de Seul (1988) e outra em Atlanta (1996). \u00c9 tamb\u00e9m bicampe\u00e3o mundial, al\u00e9m de v\u00e1rias vezes campe\u00e3o brasileiro, sul-americano e europeu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confira a entrevista do medalhista ol\u00edmpico Lars Grael, nas P\u00e1ginas Azuis, do O POVO. 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