Artesanato da Mente

Sentido pleno

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Outro dia eu li um pequeno texto do jornalista, escritor e radialista Flávio Siqueira que me fez lembrar uma das artes que mais admiro, o desenho. Não sei desenhar nada, mas admiro muito quem sabe desenhar.

Existe um tipo de desenho que é ainda mais difícil do que aqueles feitos em papel, são os desenhos em areia. Você já viu algum vídeo com esses desenhos sendo feitos? Se não viu, ótimo, verá hoje! E espero que se encante tanto quanto eu, que fico abobalhado sempre que vejo essa arte maravilhosa. Vamos ao texto?

“Muitas vezes é nossa busca angustiada por explicações que nos desvia do entendimento. Basta a cada dia sua própria porção e, para cada experiência, um significado específico. Até que você enxergue o quadro inteiro, a pintura terminada, cada sombra, cada tinta, cada mancha, cada risco, sem lógica enquanto eram riscos isolados, tudo virou uma coisa só, o quadro está pronto, a arte, finalmente, se plenificou de sentido.”

Flávio Siqueira

Se você olhar para uma tela em branco poderá ver apenas uma tela em branco, mas se um pintor olhar para ela, verá alguma imagem impressa nela, que antes de ser impressa já estava plena de sentido na sua mente. Isso é a arte! Não adianta querer entendê-la através de puros raciocínios lógicos, não! A arte nasce da falta de lógica e sentido, desta falta se cria o sentido, entende?

Se uma pessoa que não sabe tocar violão pega em um e começa a bater nas cordas, sairá um som feio e desarmonioso, mas, se uma pessoa que toca muito bem o tocar, sairá um som bonito e agradável, e se esta pessoa tiver o dom de compor canções, além deste belo som do violão, ainda surgirá uma melodia com letras e rimas. Isso é fantástico! O que acho mais interessante é que, para um músico experiente, a música já estava presente dentro dele, só estava esperando o momento certo de desabrochar e se tornar real, material. Um músico vê este sentido pleno nas cordas de um violão, e esta mesma arte se estende para outros instrumentos que ajudam na criação de composições, como guitarra, teclado, piano, gaita, saxofone etc.

A outra arte, que, das que citei, é a única que tenho, mesmo que de forma simples, é a da escrita. Acho muito interessante o processo de criação textual. Eu não fico forçando minha mente na busca por escrever textos, não! Isso não é arte, isso é pura produção textual. Você consegue perceber a diferença entre produção textual e criação textual? A produção textual é o que se faz nas escolas, nos cursos, nas faculdades etc. você recebe um tema e dizem: “escreva um texto a partir dessas ideias…”. Não existe nenhuma naturalidade neste processo, e como resultado, surge algo frio e sem vida, na grande maioria das vezes! É possível até que surja textos com boa fluência nas palavras e na organização das ideias, mas, raramente se vê a alma do artista impregnada nas palavras.

Esse sentido pleno que existe na arte se expande para todas e qualquer tipo, e está de mãos dadas com a naturalidade. É ela que faz com que surjam as chamadas “obras de arte”. Um escultor vê uma pedra bruta e vê através dela uma linda escultura, um músico olha o violão e senti através do seu som, uma linda música que se tornará inesquecível, um pintor faz seus traços e, quando menos se espera, um magnífico quadro fica concluído. O mais impressionante é ver que em todos os casos, a arte já está concluída na mente do artista, restando apenas se tornar realidade.

Vou confessar uma coisa com muita sinceridade! Eu me afastei do campo das pesquisas muito por causa disso, eu sentia como se toda a minha criatividade estivesse sendo minada e sugada. Eu sentia que, dentro de mim, havia uma enorme potencial a ser despertado e colocado pra fora, mas eu tinha que seguir as normas, tinha que fazer tudo segundo as normas da ABNT. Eu achava e ainda acho tudo isso um saco, como diria o meu grande amigo Raul Seixas. O que eu fiz? Mudei de ares! Segui um caminho completamente diferente.

Vou falar outra coisa interessante. Quando mudei, muitos amigos vieram me dizer que estava me precipitando, que eu era inteligente e deveria usar esta inteligência para contribuir com a ciência. Mas pense comigo! De que adiantaria contribuir para a ciência sendo infeliz e não gostando do meu trabalho? Isso é o que a maior parte das pessoas fazem. Elas trabalham fazendo o que não gostam, muitas vezes pensando no dinheiro, ou porque não tiveram ousadia de correr atrás dos seus próprios sonhos, e continuam em empregos maçantes por medo de arriscar! Se você se identificou com alguma coisa do que escrevi aqui! Corra! Ainda dá tempo de você fazer aquilo que ama de verdade! Nunca é tarde para recomeçar! Você pode! Acredite em você!…

Um homem muito sábio passou por experiências bem parecidas com as minhas, o senhor Rubem Alves. Ele descobriu seu enorme talento para a escrita aos 40 anos. Detalhe! Ele escrevia, mas era um acadêmico. Escrevia artigos frios em linguagem técnica de ABNT. Mas ele não era feliz escrevendo assim, pois isso sugava sua criatividade adormecida. Com as crianças, e uma de suas filhas, em especial, ele descobriu o seu talento e se tornou um dos maiores escritores do século XX. Eu amo esse senhor, que sempre fará parte da minha história e sempre vai me inspirar a ser cada vez melhor. Se quiser conhecer um pouquinho da estória deste grande escritor, deixo [neste link] uma minibiografia dele.

Enfim! O que você faz que tem sentido pleno? Essa não é uma pergunta fácil! Esta é uma pergunta bem difícil e tem a ver com os talentos pessoais e com a missão de vida de cada um. Quero deixar no ar essa reflexão! Pense! Reflita! Pare um pouco e pense naquilo que você faz de melhor. Pense naquilo que você faria até mesmo de graça, sem ganhar absolutamente nada de dinheiro. O que você der como resposta pode ser a grande missão da sua vida!

Quero concluir com uma frase muito profunda do escritor Rick Warren que sintetiza boa parte do que falei aqui, e vou deixar também um vídeo incrível de uma mulher que faz desenhos na areia, uma arte maravilhosa, que poucos tem o dom para fazer…

A importância das coisas pode ser medida pelo tempo que estamos dispostos a investir nelas. Quanto maior o tempo dedicado a alguma coisa, mais você demonstra a importância e o valor que ela tem para você. Se você quiser conhecer as prioridades de uma pessoa, observe a forma como ela utiliza o tempo”.

Rick Warren

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