Artesanato da Mente

A felicidade e o copo d’água

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É impressionante o fato de existirem sabedorias transmitidas há milhares de anos e nós ainda não consigamos compreendê-las, por mais que já se tenha batido nas mesmas teclas vezes sem conta.

Essa semana eu li um pequeno artigo de autoria do designer de ideias Rafael Arraes que falava sobre a FELICIDADE inspirado na sabedoria do filósofo da antiguidade EPICURO, que viveu entre 341 – 270 a.C. Depois de 2300 anos continuamos sem entender suas ideias tão simples e ao mesmo tempo profundas!

Compartilho abaixo um pequeno trecho desse artigo. Leia com bastante atenção!

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Seguindo a essência dos ensinamentos de Epicuro, podemos imaginar nossa felicidade como um copo onde é necessário haver alguma água, talvez até pouco menos da metade, para que tenhamos alguma felicidade. Esta água corresponde a termos moradia, alimentação adequada, e algumas roupas para o convívio social básico. Dali em diante, podemos aumentar nossa felicidade na medida em que enchemos o copo com alguns luxos a mais, como uma alimentação mais elaborada, uma casa mais espaçosa e bem decorada etc. O que Epicuro nos afirma, no entanto, é que de nada adianta continuarmos enchendo o copo: a água vai simplesmente transbordar, e a nossa felicidade continuará inalterada.

Assim, se associarmos a água deste copo às nossas riquezas materiais, nós veremos que a partir de certo limite, um limite bem menor do que costumamos imaginar, o mero acúmulo de dinheiro não nos garantirá mais felicidade alguma…

Se quisermos realmente ser felizes, é bom que saibamos que há algo que vale muito mais do que o dinheiro, algo que é realmente capaz de nos preencher de entusiasmo e alegria perenes: o amor – seguido da liberdade e da reflexão.

Rafael Arraes

Link: O jardim de Epicuro

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Muitos estudos já foram feitos pra provar a veracidade dessa metáfora belíssima de Epicuro. Se meu copo d’água está vazio é um péssimo sinal, pois me falta até as condições mais básicas voltadas para a sobrevivência: alimento, roupas, moradia etc. então é claro que preciso encher pelo menos um pouco esse copo, pois senão jamais poderei ser feliz com tais condições.

Se o copo começa a ser enchido com os recursos de que preciso, meus níveis de felicidade obviamente subirão juntamente com o nível da água. Se ele ficar cheio, digamos que até a metade, já posso dizer que sou feliz, pois não me falta nada do que necessite. Todas as condições básicas de vida já foram saciadas.

Mas nós somos seres que queremos sempre mais, então tratamos de encher mais esse copo. A diferença entre o copo cheio até a borda ou com água pela metade é apenas ESTÉTICA.

Com o copo cheio eu posso dirigir uma Lamborguini, com a água pela metade eu dirijo um Fiat Uno ou um Celta.

Com o copo cheio eu compro uma casa de 3 andares, com portas de vidro, com ar-condicionado em todos os cômodos, posso contratar empregados para arrumar a casa, fazer comida e lavar a roupa. Com o copo pela metade eu consigo minha casa própria simplesinha, com dois quartos, sendo uma suíte e um quarto comum, uma sala de estar, cozinha e um quintalzinho pequeno.

Com o copo cheio eu compro roupas caras, compro uma calça da D&G ou Carmin. Compro camisas da Ralph Lauren, Lacoste, Calvin Klein. Já com o copo pela metade eu compro roupas nas feirinhas das praças do centro da cidade (no meu caso é a famosa Feira da Sé, em Fortaleza, hehe).

O mais interessante é que, tanto faz dirigir uma Ferrari ou um Gol, os dois cumprem o papel de levar o motorista de um local para outro com relativo conforto e rapidez.

Tanto faz eu morar num palácio ou numa casinha simples, as duas cumprirão o papel básico de não me fazer dormir ao relento, as duas me proporcionarão comer tranquilamente ou lavar minhas roupas e deixá-las secando no varal.

Tanto faz eu vestir roupas caras ou baratas. As duas me cobrirão e me possibilitarão transitar por qualquer lugar sem o perigo de atentar contra o pudor!

A diferença está apenas na chiqueza, que para Epicuro e para mim também, é claro, não passa de detalhe. Aliás, a palavra detalhe significa exatamente isso: algo bem específico.

Vivemos em um mundo de pessoas tão distraídas que praticamente ninguém vai reparar na roupa que você está vestindo, ou se sua casa parece a mansão do Will Smith, ou se seu carro vai de 0 a 100 km/h em 5 seg. Elas já têm problemas demais pra resolver com suas próprias vidas!

Estou sendo meio irônico nesse texto de propósito, pois quero lhe levar a refletir sobre uma questão milenar tratada pela Filosofia: O que faz você feliz? O que é importante para a sua felicidade?

Certamente ter coisas em excesso e as mais caras possíveis não faz ninguém absurdamente feliz. Na realidade vai causar é tristeza, desconfiança, raiva, inveja ou outros sentimentos nocivos.

Quero deixar bem claro que em nenhum momento Epicuro ou eu estamos sendo contra buscar melhores condições de vida ou conforto. Pelo contrário, isso é importantíssimo, deve ser buscado, mas com moderação, porque depois de certo patamar de felicidade, já foi provado por A + B que coisas materiais não podem trazer mais felicidade ainda. A felicidade alcançada pelas coisas é limitada, e na realidade seu limite é bem menor do que queremos acreditar que seja.

Não foi à toa que os grandes filósofos passaram a maior parte da vida agarrados às grandes questões existenciais, pois elas podem proporcionar níveis de felicidade infinitamente maiores do que as coisas materiais.

Espero que você reflita com carinho sobre a proposta epicurista e sua beleza.

Concluo compartilhando uma linda aula de Filosofia da querida professora Lúcia Helena Galvão intitulada “Filosofia e Qualidade de vida”. Garanto a você que serão 50 min do seu tempo muito bem empregados. Ela fala sobre tudo que coloquei aqui com uma desenvoltura absurdamente superior à minha, é algo que não dá nem pra comparar!

E como está o seu copo? Você tem noção de em qual nível a água está?…

 

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