Artesanato da Mente

Olhe de novo para ver o que não foi visto

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Obra “Banhistas na Grenouillière” de Monet

Um tema interessantíssimo voltado acima de tudo para o campo das ARTES, mas que certamente pode ser levado para todos os campos da vida é a PERCEPÇÃO, tema que abordei poucas vezes aqui no blog.

Percepção é a capacidade de aprender através dos nossos cinco sentidos (ou seriam mais?…). O que me inspirou a escrever esse texto foram algumas palavras do grande escritor português José Saramago. Leia com bastante atenção…

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“A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse: “Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.”

José Saramago

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Nessas poucas palavras ele dá uma aula sobre a importância da percepção para que a nossa vida ganhe um brilho especial. Ao lê-las, acabei me lembrando dos grandes apreciadores da arte. Você já reparou que os grandes amantes da arte, seja de quadros, esculturas, monumentos históricos ou mesmo músicas, apreciam tudo isso demoradamente, como se estivessem degustando um prato saboroso?

É disso que o Saramago e eu estamos falando. Infelizmente, por conta do nosso mundo cada vez mais apressado, nós passamos por diversos lugares, e nesses lugares existem belezas impressionantes aos olhos de qualquer um, mas não nos sentimos tocados por elas. Será que não estamos nos tornando insensíveis iguais os robôs? Vale a pena pensar um pouco sobre isso…

Quero deixar claro que eu também me acometo dessa falta de percepção o tempo todo, todos os dias. Inclusive nessa semana em que escrevo esse texto eu tinha saído com uma pessoa da minha família e nós passamos de carro por uma rua que eu passo todas as semanas de segunda à sexta e de repente ela me disse: “Olha Isaias! Como esse prédio foi construído rápido! Já foi liberado pra os moradores se estabelecerem…”.

Nessa hora eu tomei um susto! Pensei: “Uau! Como é que eu não tinha reparado em algo que estava escancarado aos meus olhos?”. Isso é resultado da pressa que acomete a mim, a você e creio que mais de 95% das pessoas!

As palavras do Saramago também me fizeram recordar algumas palavras do escritor norueguês Jostein Gaarder, que até já compartilhei num texto anterior e que vale trazer à tona novamente.

“Quanto mais sabemos, melhor vemos as coisas que nos rodeiam. Por outro lado, quanto melhor vemos as coisas, melhor a compreendemos. Se mantivermos os olhos e os ouvidos bem abertos, descobriremos sempre alguma coisa pela primeira vez”.

Jostein Gaarder

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É fundamental nos tornarmos pelo menos um pouco mais atenciosos às pequenas coisas, porque aquilo que mais nos encanta se encontra nos detalhes.

Essa reflexão pode ser levada até mesmo para os relacionamentos de um modo geral sabia? As pessoas que mais admiramos são aquelas que carregam traços PECULIARES, ou seja, algo próprio delas, original, que ninguém, por mais que tente imitar, será como elas.

É somente através desse recomeço de viagem que podemos encontrar essas peculiaridades e nos apaixonarmos por elas.

Infelizmente, estamos vivendo no tal do “Mundo Líquido”, termo que ficou famoso através do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, no qual tudo virou descartável, até mesmo os relacionamentos.

Entramos na vida de alguém, e muitas vezes conhecemos apenas o seu território geográfico, literalmente falando, ou seja, o seu corpo físico. E já achamos que “conhecemos” o outro! Como assim? Você percebe o perigo desse “conhecer”?

Todos nós somos territórios cheios de rios, de cavernas, de bosques, de arranha-céus, de quedas d’água, de parques etc. e que para serem conhecidos, é preciso ter PERCEPÇÃO. É preciso olhar demoradamente. É preciso voltar para finalmente ver algo pela primeira vez, seja o fruto maduro, ou primavera que virou verão nos nossos sentimentos internos…

Percebe que metáfora maravilhosa essa? É por essas e outras que sempre comento aqui e com amigos que as palavras do Saramago dizem muito, muito mais do que aparentam numa leitura superficial.

Eu amo lê-lo, pois ele me ajuda a ter esses olhos que enxergam a beleza escondida. Espero que essa reflexão tenha despertado algo bom em você para ter mais atenção e percepção no cotidiano.

Há belezas exuberantes onde menos esperamos encontrar, e aproveite para levar essa noção para tudo na vida, porque é assim!

“É preciso ver o que não foi visto. É preciso recomeçar a viagem…” – Saramago

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