Discografia

O fino do Zimbo Trio

Responsável por dar uma clareada na memória musical brasileira, o selo Discobertas, capitaneado por Marcelo Fróes, devolveu às prateleiras uma série de discos responsáveis por dar uma renovada na música brasileira pós-Bossa Nova. O box Zimbo Trio traz os seis primeiros discos do grupo instrumental que deixou de lado o banquinho e o violão para jogar balanço, improviso e peso jazzísticos no repertório brasileiro.

A caixa traz os seis primeiros discos do trio – Zimbo Trio (1964), Zimbo Trio Vol. 2 (1965), Zimbo Trio Vol. 3 (1966), É Tempo de Samba: Zimbo Trio + cordas (1967), Zimbo Trio + cordas, vol. 2 (1968) e Decisão: Zimbo Trio + metais (1969) –, todos com capas e encartes originais, além de faixas avulsas pescadas de compactos e participações especiais. “Poder ter isso disponível é sensacional. Dá uma vida pra gente”, comemora Amilton Godoy, pianista do Zimbo desde a primeira formação.

Formado ainda por Luiz Chaves (baixo) e Rubinho Barsotti (bateria), o Zimbo Trio estreou em 1964 e inovou a música brasileira ao defender um som 100% instrumental. Se na época isso foi visto com desconfiança por parte das gravadoras e de outros músicos, o sucesso logo no trabalho de estreia acabou fazendo com que outros grupos, como o Sambalanço e o Bossa 3, chegassem ao grande público. “Como a proposta foi o instrumental, vendeu muito e foi uma surpresa até pra nós”, lembra Amilton.

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Apesar da opção apenas pelo trio de instrumentos, a estreia do grupo aconteceu em 17 de março de 1964 acompanhando a cantora e atriz Norma Bengell. Além dela, o grupo ainda faria história acompanhando Elis Regina e Elizeth Cardoso nos palcos e na TV. Com a Pimentinha, eles fariam o programa o Fino da Bossa, com direção de Manoel Carlos, que tinha como proposta juntar as então crescentes estrelas de Elis e Jair Rodrigues para receber nomes consagrados e novidades no palco da TV Record. É Amilton quem conta sobre seu primeiro encontro com a cantora: “O Manoel Carlos tinha um programa que nós fazíamos a base musical. Em 1964, ele disse que nós íamos receber uma cantora nova. Nós ficamos com medo por que os cantores eram muito ruins. Era a Elis. Eu perguntei o que ela ia cantar e ela disse: Você. Eu não sabia que era uma música do Menescal (e Bôscoli) e disse que era casado. Ela só falou: ‘Amilton…’”.

Mesmo tendo quebrado com a estética discreta da Bossa Nova, o Zimbo não deixou de lado aquele repertório e estreou gravando clássicos do gênero, incluindo Garota de Ipanema com uma roupagem mais moderna. “A bossa nova teve um papel preponderante na qualidade musical. Como tinha muita coisa boa, pegamos ali. Eles queriam realçar a harmonia e era preciso melhorar aquele espaço”. De olho também nas novidades, Chico Buarque, ainda em início de carreira, foi um dos compositores que encontrou espaço nas mãos do grupo. “A cada ano aparecia um novo compositor. As pessoas ficavam curiosas para saber como nós íamos fazer. Então o Chico foi um deles”, lembra o músico que era um dos responsáveis pelos novos arranjos.

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Além do box da Discobertas, Amilton adianta o lançamento de um novo disco do Zimbo Trio, somente com composições próprias, e um DVD. Em plena atividade, a formação atual conta com Mario Andreotti, no lugar do baixista Luiz Chaves (falecido em 2007) e com Pércio Sápia dividindo a bateria com Rubinho que, por motivos de saúde, só apresenta parte do show. O pianista também revela que o selo de Fróes já mostrou interesse em relançar outros trabalhos do trio. Vale a pena esperar.