Discografia

Entre tapas e beijos

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Quem vê o ator Baltazar Fonseca na novela Fina Estampa despejando grosseiras e agressões na mulher e na filha, ou destratando o mordomo “Crô” Valério mal sabe que o ator Alexandre Nero é um homem bem mais sutil e que gosta de falar do amor. Esse lado mais doce e apaixonado está no disco Vendo amor em suas mais variadas formas, tamanhos e posições, lançado pela gravadora Discobertas.

O nome enorme foi dado de propósito ao primeiro lançamento nacional de uma carreira como cantor e compositor que começou há mais de 20 anos no Paraná, estado onde Alexandre nasceu. “Eu antes não conseguia distribuidora. Por isso minha carreira de músico nunca passava de Curitiba”, lamenta ele que não quer ser reconhecido como mais um “ator que canta”. Pelo contrário, a carreira de cantor começou antes, pra fugir dos tempos de vacas magras.

Aproveitando o bom momento da TV, ele lança o disco onde fala sobre muitas formas de amar, do sexo ao ciúme. Tudo isso de uma forma bem fácil de ser entendida, como se fosse uma cartilha. Assim ele vai da tristonha despedida em Não aprendi dizer adeus – sucesso de Leandro & Leonardo – até a sofisticação popular de Carinhoso – clássico da MPB. Por telefone, Alexandre conversou com o DISCOGRAFIA sobre a paixão do seu disco e as loucuras do seu personagem em Fina Estampa. “Ele (Baltazar) é assim pela falta de amor. Tem gente diz que ele tem que apanhar. Se você pensa assim é igual a ele. Ele apanhou a vida inteira. Só o amor salva a vida dele”.

O POVO – Como começou sua relação com música?

Alexandre Nero – Eu comecei em Curitiba, por problemas de dinheiro mesmo. Já tocava um violão muito mal e cantava muito mal. Isso foi por volta dos 19 anos, quando eu fazia Administração. Lá (em Curitiba), eu conheci artistas brilhantes, que foram minha base. Eles me mostraram o que era arte, música, poesia. Mesmo depois de morto, entre eles tava o (poeta e escritor) Paulo Leminski (1944 – 1989), uma influência absurda. Tudo que eu faço é uma tentativa de ser o Paulo. De certa forma os artista daqui, são meio que “parentes” do Paulo.

OP – Poderia citar outros nomes que o influenciaram?

AN – Poderia citar muitas pessoas, como o Grupo Fato, que trabalha com música folclórica, erudita e popular.

OP – Você já tem oito discos lançados. O que o Vendo amor traz pra sua carreira de cantor?

AN – Esse é o meu terceiro disco solo (os primeiros são Camaleão, de 1995, e Maquinaíma, de 2001). Esse novo, eu mesmo confundo o nome sempre (Vendo amor em suas mais variadas formas, tamanhos e posições). Botei o nome de sacanagem mesmo. Quando se diz “Vendo amor” dá tantas possibilidades, mas muita gente pensa que é um disco romântico. Quando eu falo “posições” já leva pra outro canto.

OP – O disco fala sobre amor, mas de uma maneira bem pessoal. Às vezes até agressiva. O que você queria mostrar com essas canções?

AN – Amor é um tema difícil pra maioria das pessoas mais informadas. Quando se fala em canções populares, parece que já entra em sertanejo, Roberto Carlos, brega. Eu pensei: “será que esse tema está realmente esgotado?”. Queria que o assunto não fosse um lugar-comum. Que as pessoas entendessem um amor que não fosse só “vamos casar” ou “eu te amo”. Queria enxergar esse tema em vários outros lugares.

OP – E como nasceram essas canções? Foram feitas exclusivamente pra esse disco?

AN – Sou um compositor muito preguiçoso. É um disco que foi composto de longa data, coisas que foram se juntando. E ainda fui juntando coisas que ampliasse o tema falando sobre amor ao próximo, amor à vida, amor à natureza. Algo que não fosse só o romântico. Ainda sobraram três faixas, que não tavam colando direito. Esteticamente não tava gostando. Como eu gosto de pensar o disco como obra de arte, achei melhor tirar.

OP – Por que regravar Carinhoso, do Pixinguinha, e Não aprendi dizer adeus, do Leandro e Leonardo?

AN – Carinhoso foi a primeira música gravada nesse tema “amor urbano”. Na época (começo da década de 1910) não existia esse amor romântico, os casamentos eram um negócio entre famílias. Hoje, Carinhoso é quase um Hino Nacional. (A música) tem um lado romântico que eu achei muito importante botar no disco. Quis registrar esse amor, que pouco nos fala hoje. Mas, eu nem ia gravar o Carinhoso. Quando tava gravando (a novela) Paraíso, conheci o repertório sertanejo. Eu tinha certo preconceito, mas conheci o (cantor) Daniel e fizemos a novela durante seis meses. Perdi o preconceito com esse sertanejo mais novo. E essa música, Não aprendi dizer adeus, sempre foi muito significativa. Ela fala de uma separação extremamente bonita. Mostra que o amor está presente até na separação.

OP – Como você conheceu essa letra de Domingos Oliveira, que virou a música Domingos? A letra faz uma forte declaração de entrega para a amada. Você é assim quando está amando?

AN – Acho que eu tento ser. Depois de mais velho eu me entrego mais. Eu tenho menos medo de errar. O próprio Domingos fala que “quem não pode errar, não vai acertar nunca”. Conheci essa poesia no filme Separações (2002). Ele mesmo (Domingos de Oliveira, que também é diretor do filme) declama numa cena. Eu ainda morava em Curitiba quando fiz essa música. Mandei e ele, muito educado, disse que gostou. Agora já o chamo de parceiro. Acho essa música de uma ironia sem tamanho, que joga o romantismo pra outro lugar.

OP – Você ficou famoso nacionalmente como ator, mas tem mais tempo como cantor. Em que momento essas artes se encontram no seu trabalho?

AN – O tempo todo. Sempre quis que isso fosse mais concreto. Eu penso no texto de TV como música. Eu posso falar com várias melodias (do outro lado da linha, ele demonstra). Ao mesmo tempo, quando eu to no palco, to interpretando um personagem que sou eu mesmo. Foi assim que virei ator, por curiosidade, pra aprender a me virar melhor no palco. O cantor e o ator estão muito presentes no meu trabalho.

OP – Seu personagem em Fina Estampa é um cara violento que odeia ver a filha dançando funk. Você tem problemas com algum estilo musical? O que gosta de ouvir?

AN – Tem coisas que eu ouço, mas não consigo imaginar uma música que eu não ouço. Confesso que música de boate, bate-estaca, me incomoda. Não gosto, acho muito alta. Mas essa coisa xiita também não é boa. Acho muito engraçadas essas críticas ao Michel Teló. É como se tivesse milhões de “Bachs” no Brasil. O problema não é com o Michel Teló. É com a educação brasileira. Ele é um reflexo de uma coisa que tem acontecido há muito tempo. A decadência da música brasileira vem de muito tempo. Não dá pra negar que uma música do Teló é menos elaborado que uma do Tom Jobim. Adoro uma discussão como exercício intelectual, mas quando entra o radicalismo…

OP – Por falar em novela, seu personagem está em alta popularidade, apesar do jeito mal caráter. Como tem sido pra você falar de amor no disco e dar pancada na TV?

AN – Eu e o Marcelo Serrado estamos fazendo uma dupla muito bacana. Ele (o Baltazar, personagem de Alexandre Nero) é um homofóbico que é obrigado a conviver com um gay assumido. Eu sou o malvado, logo o Marcelo é o mais interessante. De uma forma ou de outra, eu tenho que ser humilhado. Mas eu sou o cara menos interessante pra falar do Baltazar. Quando você interpreta um personagem, você começa a justifica-lo, compreendê-lo. Até me afeiçoei a ele. Isso não tem nada a ver com compactuar com o que ele faz.

OP – Pra você, quem é o Baltazar?

AN – Ele é um bunda mole. Os homens violentos são muito frágeis. A música do Marcelo Camelo (canta Cara valente: “Ele não é de nada. Oiá! Essa cara amarrada é só um jeito de viver nesse mundo de mágoas”) diz tudo. É um cara estúpido, que não sabe o que é amor. Tem medo de toque, nunca teve carinho da mãe. Compreendo as maluquices dele. Tento levar pra esse lado. Ele é assim pela falta de amor. Tem gente diz que ele tem que apanhar. Se você pensa assim é igual a ele. Ele apanhou a vida inteira. Só o amor salva a vida dele.

OP – Você tem feito também uma dupla bacana com o Marcelo Serrado, que também é músico. Já pensaram em fazer algo juntos na música?

AN – O Marcelo deixa bem claro que é um ator que toca um instrumento (Marcelo Serrado faz parte da banda Los Impossibles, junto com Marcelo Novaes). Ele toca muito bem gaita. Mas ele não se considera músico. Vai rolar alguma coisa certamente, mas não de forma séria. Já até combinei de dar uma canja numa peça dele (Não existe mulher difícil, que esteve em Fortaleza em novembro). O Marcelo faz um pianista de churrascaria que foi traído e fica chorando o tempo inteiro. Ele fica tentando tocar mas não consegue. Eu vou entrar pra cantar Não aprendi dizer adeus.

OP – Queria saber seus planos para TV, música e teatro.

AN – Assim que terminar a novela, vou pra Curitiba fazer meu DVD. É um trabalho bem alternativo, tipo o (programa) Ensaio. Vou misturar o ator com o cantor, como nunca tinha feito. Depois, tem um convite do João Falcão pra fazer o musical Gabriela no teatro. Mas tudo depende da liberação da Globo, onde estou contratado até 2013. o DVD é uma certeza, por que é projeto de dois anos.