Discografia

MÚSICA EM CORES: Roberto Carlos (1971)

Em 1971, Roberto Carlos vivia o auge da sua maturidade como compositor. Depois de buscar se firmar como cantor de Bossa Nova, de aproveitar os tempos de Jovem Guarda e de bicar o peso da black music, ele agora era um homem de 30 anos e queria inaugurar um novo momento na sua carreira. Já não fazia mais sentido falar de brotos, carrões e festas de arromba quando o Brasil vivia um turbilhão de político e social. Era hora de crescer. A ideia, então, foi reunir tudo o que ele aprendeu ao longo dos anos e jogar num trabalho único.

Com um olho na delicadeza e outro no seu romantismo adulto, agora tão à flor da pele, ele lançou o quarto batizado apenas como Roberto Carlos. Logo na largada, a sutileza de Detalhes revela um homem maduro, ciente das suas intenções e do seu amor. Tudo naquela faixa virou clássico, da introdução levada na flauta ao canto confidente. Clássico absoluto na história do compositor de Cachoeiro do Itapemirim, Detalhes é uma espécie de patrimônio público da MPB, que manda um recado tão seco e direto que nem parece tão rebuscada quanto de fato é. Composta numa noite de 1971, em São Paulo, Roberto percebeu logo que tinha uma riqueza nas mãos. Inicialmente, implicou com o som rude da palavra “ronco”, mas a opinião dos amigos convenceu o compositor a mantê-la.

Se Detalhes fala a um amor que ficou no passado, Você não sabe o que vai perder vem com ar roqueira e debochado, meio adolescente, para convencer a amante de que, mesmo traída, ela não faz bom negócio em partir. “Se eu agi assim foi somente pra saber se existe alguém melhor do que você”, diz sem um pingo de vergonha na cara. Na contramão, De tanto amor é o retrato dramático do amor acabado, a despedida, a saudade.

Se é mesmo o amor a matéria-prima da obra de Roberto, ele também aparece cercado de ingenuidade e bom humor em I love you, um fox que ganharia um belo clip estrelado por Roberto vestido de Carlitos. Mas o disco Roberto Carlos, de 1971, tem espaço para outros temas. O drama do jovem que perdeu a perna num acidente é registrado em Traumas. A fé religiosa ganha tons pesados e proféticos no funk Todos estão surdos. A saudade do amigo Caetano Veloso ele canta em Debaixo dos caracóis dos seus cabelos. Como recompensa, ele ganha do baiano Como dois e dois, um soul inspirado que remete a Curtis Mayfield. E, para encerrar, o amor de uma Amada Amante é o local onde Roberto se conchega e expõe toda a sua realeza.

O fato é que um novo Roberto se desenhava naquele momento. De ídolo da juventude ao maior cantor romântico do Brasil, ele estava em busca de encontrar seu novo rosto – a capa com sua figura pintada, no lugar de fotografado como de costume, representa essa imagem desfocada que estava buscando um rumo. Até ali já era possível perceber as manias do compositor que não gosta de tons escuros, implica com algumas palavras, sempre sai pela mesma porta que entrou e tem uma compulsão pela cor azul. E demoraria ainda 27 anos para Roberto Carlos aparecesse sorrindo numa capa de disco. Quando isso aconteceu, ele já estava certo de que ter crescido na vida e na música foi o caminho correto para que seu rosto ficasse para sempre desenhado entre o dos maiores artistas do Brasil.

 

 

Faixas de Roberto Carlos (1971):

1. Detalhes (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos) 5:03
2. Como Dois e Dois (Caetano Veloso) 3:23
3. A Namorada (Maurício Duboc/ Carlos Colla) 3:14
4. Você Não Sabe o Que Vai Perder (Renato Barros) 2:58
5. Traumas (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos) 4:09
6. Eu Só Tenho Um Caminho (Getúlio Cortes) 2:39
7. Todos Estão Surdos (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos) 4:21
8. Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos) 3:47
9. Se Eu Partir (Fred Jorge) 3:42
10. I Love You (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos) 2:40
11. De Tanto Amor (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos) 3:24
12. Amada Amante (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos) 3:56

>> Detalhes (Erasmo/ Roberto) por Carlus Campos