Discografia

Bebel Gilberto faz eletrobossa com Tom Jobim e Neil Young

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Foto de Harper Smith

“Não vou cansar. Não vou parar. Não vou calar. Não vou mudar”. Quem avisa é Bebel Gilberto, a “carioca” nascida em Nova York que tornou-se uma das estrelas brasileiras responsável por reapresentar a Bossa Nova ao mundo. A confusão em torno da nacionalidade desta moradora do East Village, em Manhattan, é grande e começou quando ela ainda era criança, época em seus pais, João Gilberto e Miúcha, viajavam por continentes a bordo de um banquinho e um violão.

Filha de uma linhagem gloriosa, que, de quebra, ainda tem o tio Chico Buarque, nunca faltou quem cobrasse mais brasilidade, mais bossa, mais João Gilberto na carreira de 36707_120814_1133_gIsabel Gilberto de Oliveira. “Claro que pegam no meu pé, né? É a amiga do Cazuza, a filha da Miúcha. Mas, até pelo fato de eu estar aqui dando entrevista, vejo que tem muito interesse no que eu faço”, rebate a artista que nunca perdeu a carioquice no falar.

Depois de 14 anos do lançamento de Tanto tempo, disco que condensou a batida do pai com toques eletrônicos, Bebel segue fiel ao estilo que criou e apresenta Tudo. Oitavo lançamento de uma carreira que se confunde com sua própria vida da artista, o álbum foi gravado em apenas nove meses com produção de Mário Caldato. “É uma reunião de tudo mesmo. Uma colcha de retalhos com emoções, homenagens, sentimentos que estavam guardados desde 2011”, explica a artista, que lançou no ano passado seu primeiro trabalho ao vivo.

Feito exclusivamente para o mercado brasileiro, o show gravado no Arpoador reabriu o baú de lembranças de Bebel. Entre as mais marcantes estavam grandes amizades como o roqueiro Cazuza. “Ele era um menino muito talentoso, mas o conheci de outra forma. Éramos dois cariocas típicos, que adoravam pegar sol. Toda vez que vou para à praia ou como camarão com chuchu, me lembro dele”, diz a cantora emocionada. Com a voz embargada, ela confessa que foi o ex-Barão Vermelho quem a incentivou a compor. “O fato do Cazuza ter puxado isso me deixou muito inspirada”.

Bebel Gilberto_SP_6131_by Harper Smith-56572305Das 12 canções de Tudo, sete são da lavra de Bebel, coisas que ela vinha guardando e pré-produzindo em casa. Do ritmo quebrado de Nada não – de onde foi tirada a frase que abre esse texto – à sensual Lonely in my heart, a co-autora de Preciso dizer que te amo abre espaço no novo disco para encontros com Adriana Calcanhotto e Pedro Baby, parceiros, respectivamente, em Tudo e Areia. No entanto, quem surpreende é Seu Jorge que divide a autoria e os vocais do sambão Novas ideias. “Essa me fez lembrar o disco que fiz (em 1983) do Geraldo Pereira, para a Funarte”, comenta a artista que também se surpreendeu ao ser convencida a cantar samba.

Tudo traz ainda Tom de voz, balada romântica do violonista Cézar Mendes que se amolda perfeitamente à rouquidão de Bebel. Uma das mais tocantes composições de Neil Young, Harvest moon ganhou um novo arranjo quando a cantora foi convidada a homenagear o canadense num tributo no Carnegie Hall, em 2011. “Conheci o trabalho dele há pouco tempo. Pedi pra cantar essa no show e fiquei com ela na cabeça e cantando em vários shows. Depois resolvi regravar com meus músicos”, lembra Bebel, que também queria uma autêntica Bossa Nova para o novo disco. A escolhida foi Vivo sonhando, de Tom Jobim.

Hoje com 48 anos, Bebel Gilberto se diz mais segura como compositora. “Eu acho que tenho menos medo de compor. Compor é sempre sofrer. Começar é fácil, mas terminar é difícil. Tenho uma coisa bem… Acho que já achei a fórmula”, avalia a artista que se deu um tempo de reclusão para finalizar este novo trabalho. Nos nove meses que durou a produção, ela só esteve no Brasil por quatro dias e nem teve tempo de saber o que os pais acharam das novas canções. “Foi até coincidência. O dia que consegui falar com eles por mais tempo foi o dia que eu tinha fechado todas as vozes. Mas, acho que meu pai está orgulhoso de ver que eu estou trabalhando pra caramba”, encerra.