Discografia

Leminski e canções na Caixa Cultural

leminski

Por Raphaelle Batista (raphaellebatista@opovo.com.br)

Poeta antes de tudo, Paulo Leminski foi também músico, tradutor, publicitário, faixa preta em judô. Mas não só. Múltiplo Leminski, exposição aberta hoje com uma visita guiada e afetiva na Caixa Cultural, revela outras facetas do “cachorro louco” curitibano em mais de mil objetos, fotos, manuscritos, pinturas, fitas K7, livros, HQs e sons. Um mosaico construído com o cuidado amoroso de suas filhas, Estrela e Áurea, e a mulher que o acompanhou durante duas décadas, a também artesã das palavras, Alice Ruiz.

Curadoras da maior mostra já realizada sobre a vida e a obra do Polaco, as mulheres da vida de Leminski recebem o público às 19 horas para apresentar o homem e sua obra. “É quase como abrir a nossa casa, o nosso baú de memória”, diz Áurea. Além do passeio pelas duas galerias da Caixa Cultural por onde a exposição se espraia, Estrela Ruiz fará um pocket show do songbook Leminskanções, interpretando músicas compostas pelo pai (algumas inéditas).

“Fui tentando pensar no arranjo como se ele mesmo estivesse fazendo. A exposição me ajudou muito a organizar o material e pensar no que era necessário ser gravado de imediato”, comenta ela sobre o processo demorado de resgate da verve musical de Leminski, cujo próximo passo deve ser o lançamento em LP.

A exposição, que fica em cartaz até 8 de novembro, estreou no espaço principal do museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, três anos atrás. Vista por mais de 330 mil pessoas em seis cidades, desde a terra do poeta e por toda a itinerância até aqui, o sucesso é uma constante. São muitas as razões para atrair tanto público: poemas inéditos, a escrivaninha original onde Leminski criou suas obras, uma sala especial – proibida para menores de 18 anos – com as HQ’s eróticas que ele roteirizou, além de espaço infanto-juvenil, com atividades para crianças pré-alfabetizadas até 10 anos. E há ainda uma programação paralela à mostra que convida os fãs a aprofundar a relação com o artista.

No dia 6 de outubro, o jornalista, músico e colunista do O POVO, Flávio Paiva, fará palestra sobre “um Leminski que transitou pelos concretos, pelos modernos, pela poesia social, oriental e beatnik, mas não ficou parado em nenhuma fonte onde bebeu”, ele diz. Alguém que ao mesmo tempo se fez “poeta pop e cult inquieto, sintetizador e dínamo” e, ainda nas palavras de Paiva, redesenhou a poesia brasileira na segunda metade do século passado.

Entre os dias 13 e 18 de outubro acontece ainda uma mostra audiovisual no cine-teatro da Caixa com documentários, curtas e longas metragens que tenham a participação direta de Leminski ou inspirados em sua obra. Entre os filmes, Ex isto (2010), de Cao Guimarães, livremente inspirado em Catatau, um dos principais títulos de Leminski e que terá espaço próprio dentro da exposição, e o clássico Ervilha da fantasia – uma ópera Paulo Leminskiana (1985), de Werner Shumann.

Além disso, um grafiteiro local será convidado para realizar intervenção inspirada na obra do homenageado. “Entre várias facetas (dele), tem algumas que não são tão conhecidas do grande público, uma é a de grafiteiro. Ele levantava essa bandeira de que o espaço da rua era o espaço próprio pra se manifestar de maneira poética e livre, muito antes do grafite ser aceito e respeitado como hoje”, explica Áurea. O tradutor autodidata que se dedicava aos idiomas mais improváveis, como o russo, para ter o prazer de ler e estudar os autores de que gostava nos originais é outro lado pouco abordado de Leminski. Assim como o de publicitário, profissão que ele exerceu durante anos para garantir o sustento da família, mas que também significava independência para sua obra. “Foi uma forma que eles (Leminski e Alice Ruiz) encontraram não só de pagar as contas, mas também de se publicar, de produzir de um jeito super livre”, conta Áurea. E, como disse Leminski, a poesia era sua “liberdaaade”.

Serviço:
Abertura Exposição Múltiplo Leminski
Quando: Hoje, às 19 horas
Onde: Caixa Cultural (Av. Pessoa Anta, 287, Praia de Iracema)
Gratuito.
Exposição: De 16 de setembro a 8 de novembro de 2015 (de terçafeira a sábado, das 10h às 20h e aos domingos, das 10h às 19h)