Discografia

Amelinha visita a obra de Belchior em tributo

Por Camila Holanda (camilaholanda@opovo.com.br)

Em meados dos anos 1990, um encontro entre a cantora Amelinha e Antônio Carlos Belchior foi decisivo para o disco que ela iria lançar pouco mais de 20 anos depois. No camarim de um programa de TV, o sobralense apresentou uma música de sua autoria para a amiga e pediu que ela regravasse a composição, que havia sido registrada por ele no disco Melodrama, de 1987. O encontro ficou guardado por anos na lembrança de Amelinha, que atendeu ao pedido de Belchior pouco tempo depois da morte do amigo, há cinco meses. De primeira grandeza, não só foi regravada por ela, como, agora, dá nome ao álbum que reúne várias outras canções do compositor.

Lançado na última sexta-feira, 6, De primeira grandeza – As canções de Belchior (Deck), é uma homenagem póstuma ao trovador de Alucinação. A ideia, conta Amelinha, partiu do produtor Thiago Marques Luiz, que também assina o último disco da cantora, Janelas do Brasil, de 2013. Neste trabalho, ela inclusive, gravou Galos, noites e quintais, composta por Belchior. O anúncio do tributo foi feito por Thiago no início de maio, pouco mais de um mês depois da morte de Belchior.

“Eu só não sabia como eu teria condições de fazer o trabalho, porque eu estava muito mexida, muito impactada, dentro desse clima todo da perda do Bel. Eu não sabia como ia lidar com essas emoções e cantar. Mas deixei o tempo passar, né?”, narra Amelinha. “E foi o tempo certo de eu me recuperar mais. A batalha chega pra gente. É um exercício para te tirar da zona de conforto”, ensina. O novo CD chega, coincidentemente, no ano em que a cantora celebra quatro décadas do lançamento de Flor da Paisagem, seu álbum de estreia. Mas, para ela, nada é coincidência. “Estava escrito nas estrelas”, brinca.

O novo álbum foi gravado no estúdio Canto da Coruja, em uma fazenda da cidadezinha de Piracaia, interior de São Paulo. Ao lado de Amelinha, estão os músicos Caio Lopes (bateria), Fabá Jimenez (guitarra e violão), Ricardo Prado (teclado, baixo e sanfona) e Estevan Sincovitz (guitarra, violões e baixo), diretor musical do álbum.

O repertório, escolhido cuidadosamente por Amelinha e Thiago, traz clássicos do cancioneiro do rapaz latino-americano e resgata músicas pouco conhecidas, como Incêndio, Passeio e Princesa do meu lugar. Esta última, inclusive, nunca chegou a ser gravada pelo autor. Na verdade, nem a cantora conhecia. Foi uma sugestão que fãs deram logo após Thiago anunciar em seu perfil no Facebook que estava produzindo disco de Amelinha em homenagem a Belchior.

“Eu nunca tinha ouvido até então. É bom porque ela é telúrica e ela leva a gente, e o Belchior, para aquele início de carreira, talvez até para aquele primeiro amor”, supõe Amelinha. “Ou até poderia ser uma ficção, porque Belchior tinha muita facilidade para criar histórias. Ele sempre misturava realidade e ficção de uma forma que você não tinha como saber se, realmente, era sobre ele. Tem algumas letras que são bastante reveladoras. Já outras podem ser ficção. E ele era assim”.

Enquanto Amelinha não sabe precisar se Princesa do meu lugar foi, de fato, vivenciada pelo autor, a música Passeio já é retrato dos primeiros anos do compositor em São Paulo. Áridos anos. E ele canta: “Vamos sair pela rua da Consolação/ Dormir no parque, em plena quarta-feira/ E sonhar com o domingo em nosso coração”. A música foi gravada no primeiro disco do artista, intitulado apenas como Belchior (e bastante conhecido como Mote e Glosa), de 1974. Esta música, explica a cantora, foi escolha dela. “Quis colocar algumas que não são tão conhecidas”.

Além de ter gravado Galos, noites e quintais em 2013, Amelinha havia se encontrado, em estúdio, com a obra de Belchior uma única vez, no álbum Ednardo, Amelinha e Belchior – Pessoal do Ceará. A bela e atribulada reunião da trinca de amigos cearenses ocorreu no ano de 2002 e foi lançada pela gravadora Continental. A cantora tem cruzado com a obra de Belchior desde o início de 1970, quando o conheceu em rodas de bares ao lado de amigos. “Eu lembro que ele chegou em um (carro) Gordini ao bar do Anísio. O Fagner, nesse mesmo dia, tinha me mostrado Mucuripe, que é uma música dos dois. E, então, estabelecemos uma empatia muito forte”.

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