Cícero reflete sobre urbanidade em novo disco

Foto: Eduardo Magalhães

Por João Gabriel Tréz (joãogabriel@opovo.com.br)

Em 2011, o carioca Cícero encontrou o sucesso nacional com Canções de Apartamento, um primeiro disco totalmente independente, gravado no apartamento do próprio artista (daí o nome) e recheado de canções melancólicas e românticas. Do aconchego do lar e seis anos depois, o cantor e compositor encara a cidade em Cícero & Albatroz, quarto CD da carreira e o primeiro assinado juntamente com a banda que acompanha o carioca nas apresentações pelo País – formada por Bruno Schulz (órgão eletrônico), Felipe Pacheco Ventura (violinos e wurlitzer), Gabriel Ventura (guitarra), Matheus Moraes (trompete), Pedro Carneiro (wurlitzer), Vitor Tosta (trombone) e Uirá Bueno (bateria).

Entre o apartamento e a cidade, Cícero passou por Sábado (2013) e A Praia (2015), discos que tiveram menos impacto junto ao grande público, mas que já apontaram para outros caminhos seguidos pelo artista. “Depois que lanço um disco, faço apresentações e, nesse meio tempo, vou compondo no meu dia-a-dia, sinto uma necessidade de renovar o repertório. Quando eu paro, reviso e vejo se tenho material para um disco novo e depois vejo como produzir”, explica o passo-a-passo. “Dessa vez, eu achei que seria interessante gravar com a banda que vai para a estrada comigo. Com a convivência e a intimidade musical, começou a haver colaboração de ideias”, avança Cícero.

O disco novo traz questões e reflexões marcadamente urbanas, com menções nas composições à rua e ao asfalto, por exemplo. O processo de produção do disco teve relação com mudanças na vida pessoal do cantor. “Quando eu fiz A Praia, tinha acabado de chegar em São Paulo, era um disco feito com saudosismo do Rio. Esse novo veio assim que eu voltei de lá, no final de 2016, e de volta ao Rio senti coisas em comum entre as duas cidades, vi aspectos como o caos urbano, que é um fato. Fiquei imbuído desse sentimento e quis muito falar sobre isso”, afirma.

O movimento repetitivo da cidade grande foi uma das principais inspirações do artista, estando presente tanto no conteúdo (como no verso de A Cidade que diz: “Repetindo repetidamente/ amanhã o dia amanhecerá/ E anoitecerá”) quanto na forma (com diversas músicas em que certos versos se repetem “repetidamente”). “A Cidade resume esse aspecto das mesmas coisas repetidas. Os motivos de desespero são a fome, a violência. Já as alegrias são o carnaval, o feriadão. Você sabe onde tem violência, onde não tem, em que mês vai chover e alagar, em que mês é férias”, ilustra. “A repetição de versos é um recurso que uso muito desde o primeiro disco, e é sempre para reafirmar uma monotonia do ato. No caso desse disco, foi com a intenção de reafirmar esses ciclos”, estabelece.

Unindo a sonoridade da banda à temática, vem se falando na crítica de música que Cícero & Albatroz é um desvio da melancolia que marcava a obra do carioca até então. Para o artista, é tudo uma questão “do ponto de vista de quem ouve”. “Eu não penso muito se as músicas são melancólicas ou não. Tem gente que não sente isso nesse disco, tem gente que sente, cada um é diferente. Às vezes a gente tá fazendo uma música de amor e uma pessoa sente uma profunda tristeza porque o amor se foi, enquanto outra sente alegria porque ele está presente”, ilustra. “O que eu sei é que os outros três discos eram autocentrados. Eu pensava em tudo, parecia muito comigo e com a minha cabeça. Talvez a minha natureza seja mais melancólica”, arrisca. “Quando eu fiz o disco com a banda, fiz com a banda”, ressalta. “Conversa vai, conversa vem. Eu levava a música e a gente ficava tocando junto, tentando achar o que ficava bonito. Troca de ideias, mesmo. A atmosfera de um grupo é mais alegre do que estar sozinho dentro de casa. Isso transpareceu nos arranjos”, reconhece. “Mas é o mesmo cara fazendo música”, afirma.

 

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