Discografia

10 anos sem Caymmi, o Rei do Mar

Foto: Divulgação

Por Richell Martins, jornalista e músico (richellmartins.contato@gmail.com)
Homenagem pelos 10 anos de morte de Dorival Caymmi (30/04/1914 – 16/08/2008)

“Caymmi é um criador abençoado/ Navegador das águas da canção/ Compositor do mar, predestinado/ Seu violão tem cordas de sargaço/ E foi cortado de um pedaço de uma velha embarcação”. Os versos de Obá de Xangô, do poeta e compositor Paulo César Pinheiro, são como um pincel que, diante da tela, num único golpe, pinta a imagem fabulosa do homem que melhor traduziu, em música, a paisagem praiana da Bahia. Não apenas isso. Numa tela maior, a vida do pescador brasileiro, com suas lendas e desafios sociais. Dorival Caymmi, com “espumas no cabelo”, o “cavaleiro do oceano” com “voz de arrebentação”, diz o poema.

Acontece que ele era baiano e, como muitos nordestinos do século passado, partiu para o Sudeste, embarcado num navio – o Itapé –, para tentar vida melhor com emprego fixo e salário garantido. A música não era o foco. Tanto que o violão foi escondido, bem embalado, para o Rio de Janeiro, em 1938. Se fosse descoberto, Dorival passaria por malandro. Chupando laranja, durante os três dias de viagem, sequer imaginava ser justamente aquele violão o que lhe abriria um caminho sem volta.

Os ouvidos do mundo não demoraram a parar, atentos ao timbre poderoso do cantor e ao jeito único de tocar seu instrumento. Apagou-se a fronteira entre a Bahia e o resto do planeta. Caymmi, contemporâneo de Assis Valente, abriu as portas do mercado fonográfico para os novos compositores de sua terra. Já se sabia o temperamento da maré, quando chegaram por lá, no “eixo”, João Gilberto, Tom Zé, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Moraes Moreira e Raul Seixas, em diferentes tempos. Se existe uma voz do sertanejo do Nordeste, que é Luiz Gonzaga, existe a voz do homem do mar, que é Dorival Caymmi.

Em 94 anos de uma vida encerrada em agosto de 2008, ele nos apresentou a dezenas de personagens ímpares: João, o valentão; as morenas Rosa e Marina; Anália, que não se sabe se queria ir pra Maracagalha; Dora, a rainha do frevo e do maracatu de Recife; os pescadores Chico Ferreira, Bento, Pedro, Lino e Zeca; sinhá Zefa que contava histórias; a vizinha do lado, com seu vestido grená; o Severo do Pão e a preta a vender acarajé e abará, às dez horas da noite, por ruas desertas.

Apesar de toda essa gente, eu mesmo não sei quem ou o quê me apresentou à obra de Caymmi. Talvez tenha sido o disco Vinicius e Caymmi no Zum Zum (Elenco, 1965), que descobri ainda na adolescência. Lembro que, estando em Salvador, em 2007, perguntei a um taxista se os baianos ainda ouviam muito o Dorival Caymmi, ao que ele me respondeu: “Tem show dele aqui, direto!” Verdade não era, mas a convicção daquele soteropolitano me divertiu à beça.

Em 2004, os irmãos Nana, Dori e Danilo Caymmi gravaram o show Para Caymmi – 90 anos, no palco do Canecão, no Rio. Pouco mais de um ano depois, Nana e Danilo vieram ao Ceará, para cantar durante o Encontro dos Povos do Mar, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Na ocasião, jangadeiros cearenses entregaram aos irmãos Caymmi uma jangada em miniatura, em homenagem ao pai Dorival e sua obra. Nesta mesma noite, conheci Danilo nos bastidores e, após 13 anos, o contato e a amizade permanecem. Na última segunda-feira, nos falamos pelo telefone. Ele relembra o momento em que recebeu o presente dos pescadores: “Ao apertar a mão do jangadeiro, você sentia que era a mão do mar, a mão de puxar o peixe”.

Danilo apresentou, mês passado, a pré-estreia de um show intitulado 10 anos sem Dorival Caymmi, e que vai seguir com novo nome: Viva Caymmi. A Catedral de Santo Antônio ficou abarrotada, durante o Festival de Inverno de Garanhuns, interior de Pernambuco. O projeto deveria ter sido, originalmente, realizado por Bibi Ferreira – que já interpretou Édith Piaf e Frank Sinatra, em temporadas anteriores. Mas a saúde fragilizada da atriz, de 96 anos, fez com que seu produtor, Nilson Raman, convidasse Danilo para um formato especial de show, que detalha as fases do compositor, entre canções praieiras, os sambas e os sambas-canções. A apresentação foi elogiada, esta semana, em documento assinado pelo pesquisador e musicólogo Ricardo Cravo Albin – nada mais, nada menos que o homem que criou o maior dicionário da Música Popular Brasileira, amigo de Dorival. “É um musical minimalista. Simples. Mas, pela simplicidade, poderoso. Com largo poder de alcance e de convencimento”, escreveu Albin.

As homenagens não param na esfera musical. Em breve, será lançado o documentário Dê lembranças a todos, sobre a importância da obra de Dorival Caymmi para o Nordeste, como um todo. O longa-metragem é dirigido pelos irmãos Fábio e Thiago Di Fiore e tem coprodução do próprio Danilo, com financiamento do Banco do Nordeste.

Hoje, o DNA de Caymmi navega águas novas, na voz da neta Alice Caymmi. A cantora está em destaque, no cenário pop nacional, independente do repertório do avô. O sobrenome voltou à língua do público com força total. “Ela foi ensinada a ousar, a ter liberdade artística e de expressão. Inclusive, o meu pai não gostava do termo ‘Família Caymmi’. Ele dizia que parecia coisa de família de trapezista!”, disse Danilo, ao telefone. A mais recente apresentação de Alice em Fortaleza aconteceu no Festival Vida & Arte, em junho. Eu a conheci bem antes, no bastidor do Iate Clube de Fortaleza, quando a cantora ainda experimentava os palcos e observava o métier, nos shows do pai. É bom testemunhar estes dois momentos.

Há 10 anos, quando li a triste notícia sobre Caymmi, misturada às atualizações das Olimpíadas de Pequim, aos 50 anos da Bossa Nova, ao eclipse solar que o Brasil não viu, reuni todos os meus discos e ouvi, faixa a faixa. Fiz uma viagem imensa; chamei o vento com um assobio, até chegar esse fim de som. E nas ondas que gemiam aqui mesmo, na areia da praia de Fortaleza, escutei do mar este canto: “E assim adormece esse homem/ Que nunca precisa dormir pra sonhar/ Porque não há sonho mais lindo/ Do que sua terra, não há”.