Fora da Ordem

Forria abraça o Nordeste em álbum de estreia

(Foto: Reno Beserra)

Forria é festa e música. É celebração derivada da alforria, a própria libertação dos escravos. Isso segundo o dicionário. Para os oito jovens que formam a banda que leva o nome da merecida bagunça, Forria é uma expressão do que é o Nordeste e como se dão suas relações.

Há três anos na estrada, o grupo cearense lança seu primeiro álbum autoral fruto desse entendimento cultural que os travessa. As nove faixas exalam referências nordestina, desaguando em uma sonoridade genuína. Fundamentalmente cearense.

Do baião ao rock, passando pelo maracatu e até o manguebeat, a Forria viaja da metrópole ao sertão para cantar sua poesia. O álbum está disponível nas principais plataformas digitais. Nesta sexta-feira, 20, eles fazem show na festa Imbalanço, no Cazuá de Cultura, com ingressos a R$ 5.

Forria é Paula Braz (viola de arco), Leonardo Rio (voz), Samuel Torquato (guitarra), Eros Augustus (teclas), Mateus Torquato (baixo), Lucas Rangel (bateria), Seu Divino e Tiago Campos (percussão).

Leia entrevista:

O som tem um apelo regional muito forte. Quais são as referências que permeiam o disco?

Paula: O trabalho necessário para se chegar a uma sonoridade desejada, qualquer que seja, faz parte de uma busca constante, uma investigação pra dentro e pra fora. Para mim, especificamente, e acredito que para os demais integrantes do grupo também, trazer esse apelo regional foi algo que aconteceu sem muita orientação prévia; surgiu do nosso encontro e foi potencializado por ele.

Talvez isso seja mais um sintoma do que uma intenção propriamente dita: os integrantes, jovens cearenses, todos com experiências e relações distintas construídas ao longo do tempo com a música, se juntam na intenção de fazer uma música própria, e descobrem aquilo que os atravessa: um Belchior, um Pessoal do Ceará, um Manguebeat, um forró mais arrochado, um gosto por melodias em mixolídio e por ritmos afro-brasileiros e suas manifestações, que não se encaixam na dicotomia tradicional x moderno…

Essas referências passeiam pelo disco de forma bastante evidente, mas nunca engessada ou parada no tempo: queremos que nossa música seja atual – ainda que permeada de nostalgias. Isso nos faz também brincar com outras possibilidades, tanto no trabalho com a sonoridade quanto com as letras e seus temas. Daí algo do jazz, do rock, do blues… O que pode não representar ou produzir algo novo, necessariamente, mas acrescenta nuances àquilo que queremos comunicar.

No fim das contas, penso que, nessa mistura que fazemos, há uma energia de reinvenção. Não só da experiência estética na música produzida no Ceará, mas da forma como ela reconstrói identidades e pontes: em diálogo com a cidade, com seus afetos e suas mazelas, com o passado contido nisso tudo e com a linha do horizonte, tocando o mar.

Samuel: Complementando o que a Paula disse, a banda nunca intencionou valorizar forçadamente a cultura regional, foi algo que surgiu espontaneamente porque é algo que realmente faz parte de nós, além disso o momento musical dos músicos confluiu pra isso na feitura deste álbum especificamente. Isso tornou o processo de composição e arranjo todo muito fluido e prazeroso.

Como foi o processo de composição das faixas?

Samuel: Normalmente um membro da banda traz a música com letra, harmonia e melodia, e nós arranjamos coletivamente com o Eros (tecladista) dirigindo o processo. Boa parte dos arranjos foram feitos na antiga casa do vocalista, Leonardo Rio, onde passamos tarde trabalhando nas músicas.

Paula: Alguns integrantes costumam trabalhar mais a escrita das músicas, mas muito do que ouvimos no material final é resultado de um processo coletivo de elaboração musical, no desenvolvimento e nos desdobramentos dos temas trazidos por um integrante em uma composição sua. Quase nunca a composição já vem fechada, então o que fazemos é trabalhar com as ideias contidas nela, pensando em onde queremos chegar, mas sempre em diálogo direto com as noções apresentadas pelo compositor. Esse processo acontece muito mais facilmente em encontros informais, na casa de um de nós, em alguns bares… e são sempre muito ricos. Nem sempre as ideias que surgem durante a criação permanecem, mas acho que se tem algo interessante a respeito do processo criativo, principalmente quando coletivo, é o fato de ser dinâmico.

Qual a história por trás da faixa “O Canto da Jandaia” e qual sua relação com o Parque do Cocó?

Samuel: Quando voltei da França para o Brasil, em 2013, estava havendo a ocupação do Parque do Cocó, que mobilizou a cidade e até hoje ecoa no que acontece sobre a mobilidade urbana e discussão ecológica em Fortaleza. A melodia e a harmonia da música já existiam, entretanto, a letra ainda não. Quando pude visitar a ocupação, fomos eu e o Eros na sexta feira que ocorreu o ataque da polícia, a letra da música narra este dia especificamente. É uma música que além de narrar um episódio específico, tenta fazer referência à luta ecológica do Ceará, por isso o título O Canto da Jandaia, que seria de onde viria, em tupi, o nome do nosso Estado.

Que outras histórias de afetividade com a cidade estão por trás das letras?

Samuel: Para além da cidade em si, as letras em geral tem os ambientes mais característicos do Ceará e do Nordeste, não apenas da cidade na qual vivemos, que é Fortaleza. Uma amiga me falou que todas as músicas do álbum tem o mesmo mote, que seria o eu lírico passando por conflitos com o meio (“O Canto da Jandaia”, “Depois do Mormaço”) – e é interessante observar que destes conflitos surgem as discussões políticas do álbum – , ou representados por este meio em forma de metáfora (“Da Noite pro Dia”, “Jerimum”, “Pele da Flor”, “Preto dos Teus Olhos”), ou o tendo como importante paisagem de fundo com a qual o eu lírico interage (“Desenredo”, “Sombras de Coqueiro”), um negócio meio modernista, talvez.

No fim das contas, o álbum acaba por ser, na minha interpretação, uma viagem pela metrópole, litoral e interior, e ao longo dessa viagem são narradas as histórias que o constroem.

Serviço

Show Forria, com Siri de Mangue
Sexta-feira, 20, às 20 horas
Cazuá de Cultura (Av. da Universidade no Benfica
Ingressos: R$ 5

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