Plínio Bortolotti

Desde que Deus mandou Adão se virar com o suor de seu próprio rosto, nada é de graça

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Das dezenas de e-mails que caíram hoje na minha caixa-postal, dois textos, enviados por amigos, me interessaram mais.

Um deles têm o seguinte título “Para você que (ainda) acredita em banners”, reproduzido do blog Webly. Basicamente, diz o seguinte: que a publicidade tipo “banner” [aquelas bandeirolas que ficam penduradas ou invadem os sites e portais] é um formato ultrapassado.

Os banners teriam se tornado ruins a ponto de nem incomodarem mais, volveram-se “invisíveis […] por mais que agências digitais se desdobrem para descobrir soluções criativas para o velho e cansado formato dos Banners”.

O fato, segundo o blog, foi demonstrado em uma  pesquisa da Nielsen/Norman group, que rastreou o movimento dos olhos de usuários visitando milhares de sites.

A pesquisa mostrou os leitores na internet não têm mais tempo ou atenção para ler calmamente o conteúdo de uma página, por isso  seus olhos “varrem” a tela em busca de informação relevante, em duas linhas horizontais e uma vertical à esquerda, movimento que lembra a letra “F”, por vezes a letra “E” ou um “F” invertido.

O segundo texto que me chamou a atenção foi publicado no Blue Bus revelando que um rapaz inglês de 15 ganhou notoriedade ao revelar como a sua geração consome informações [notícias, música, filmes, etc.]

Robson Mathews, o garoto britânico, revela, por exemplo, que ele e seus colegas estão usando cada vez mais a mídia, mas que não estão dispostos a pagar por ela. O menino diz ainda que “nenhum” adolescente lê jornal regulamente.

O Blue Bus pôs um de seus colaboradores para entrevistar um adolescente brasileiro, da mesma idade, que fez afirmações semelhantes à de seu homólogo do Reino Unido. Veja aqui um resumo, ou a entrevista completa em pdf.

Uma das respostas do adolescente brasileiro que me chamou a atenção foi a seguinte:

“Não gosto de ver propaganda em lugar nenhum. Seja na internet, na TV, no jornal ou em revistas. Propaganda, no geral, só serve para atrapalhar atividade que eu estou fazendo (navegando em um site lendo uma noticia etc)”.

As duas informações que grifei dizem o seguinte: nós, os jovens, não estamos interessados na publicidade e nem a olhamos, nem mesmo na internet. [De resto, eu que sou de uma geração, digamos, um pouquinho mais antiga, tenho o mesmo comportamento na rede.]

Vejam só a enrascada em que estamos metidos.

Os jornais impressos e a TV tradicional estão em crise devido à debandada em direção à internet. Nesta, como se sabe, tudo é possível “adquirir” de graça, desde uma notícia – que pode ter custado dias de trabalho de um repórter -, até a música que acabou de ser lançada.

Se isso representa um problema para as empresas tradicionais, fez a fortuna das empresas da “nova mídia”, que dão tudo “de graça” [inclusive as notícias que garfam da “mídia tradicional”], mas faturam os tubos em publicidade ou pela perspectiva de valorização de suas empresas, cada vez mais bem cotadas nas bolsas de valores.

Mas vejam só. Se a “tendência” observada na geração que tem hoje 15 anos se consolidar, ninguém mais verá propaganda na internet. Se ninguém as vir, as empresas deixarão de anunciar.

Se ninguém anunciar, quanto tempo demorará para que as empresas da “nova mídia” que, nadando em dinheiro, rebarbam qualquer discussão sobre outro modelo – senão aquele de dar tudo de graça -, comecem a experimentar do mesmo remédio que hoje elas servem às empresas da “velha mídia”?

Não estariam as empresas da “nova mídia” contruindo uma pirâmide parecida com aquela que derrubou a “economia real” dos países centrais?

Desde que Deus mandou Adão se virar com o suor de seu próprio rosto, a ilusão de que pode existir algo “de graça” neste mundo, não passa disso mesmo: uma visagem.

Outros posts sobre o assunto: aqui, aqui, aqui.

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