Plínio Bortolotti

Pra não dizer que não falei de futebol

Começo pedindo desculpas ao distinto público por usar um clichê como título deste artigo, parafraseando música do ex-revolucionário Geraldo Vandré. Mas como falar de futebol sem apelar para chavões? Pois bem, ainda que meio reticente, a pátria vai acabar calçando chuteiras, até o fim da Copa; isto é, se o Brasil chegar até lá, depois do tropeço no jogo contra a Suíça.

Declaro-me um brasileiro atípico, pois não “torço” para time algum, apesar de achar que o futebol é o esporte mais interessante de todos. Vez por outra, vejo um jogo (na TV) pelo simples prazer de observar a destreza dos atletas; a precisa noção de tempo-espaço; o drible; a noção de conjunto.

Sim, futebol é um esporte no qual sobrevivem somente os atletas inteligentes. É também o mais inclusivo, com craques de todas as cores, baixinhos, gordinhos e de pernas tortas. Muita gente confunde a dificuldade que alguns jogadores têm de se expressar verbalmente com burrice, o que é uma tolice; melhor dizendo, uma asneira. A quantidade de cálculos que um jogador tem de fazer para fazer uma bola atravessar 40 metros, pondo-a nos pés de um companheiro em movimento, é coisa para bons computadores. Fica, portanto, registrada minha admiração pelo futebol.

Mas o que significa, hoje, “torcer” para um time?

Em seu nascedouro – e por muito tempo -, o times representavam uma categoria, um clube recreativo, um segmento da sociedade, uma cidade ou bairro: era um elemento aglutinador de identidades. Os jogadores eram apenas semideuses, que se misturavam com os mortais. Hoje, transformaram-se deuses inalcansáveis, porém mercenários (e aqui não vai nenhuma crítica, porém uma constatação).

Se os jogadores estivessem obrigados – por algum tipo de regulamentação – a escolher entre “representar a pátria” ou se afastar no time que lhe paga milhões, o que ele escolheria? Não existem jogadores que se naturalizam em outro país para jogar por uma seleção estrangeira? Não existem técnicos brasileiros que vão treinar seleção de outros países e se comprazem em ganhar do Brasil? Se você perguntar porque fazem isso, vão responder: “Somos profissionais”, no que estão certos, ao buscar melhor para as suas carreiras. O que não dá é combinar isso com um discurso patriótico.

A seleção “canarinho” é, na verdade, uma legião estrangeira. Apenas três dos convocados atuam no Brasil, e todos estão na reserva. Como é possível o brasileiro identificar-se com jogadores que têm mais afinidade com o país onde atuam do que em relação ao Brasil? (De novo, não é crítica: é direito de cada um escolher onde quer viver e trabalhar.)

Hoje, torcer por um clube, equivale a torcer por uma empresa, principalmente no futebol europeu, com muitos “fãs” no Brasil. A revista Forbes listou 23 times que são propriedades de bilionários, com admiradores apaixonados em todo mundo. São investimentos para ganhar dinheiro e sabe-se lá quais outros objetivos. Brigar por um conglomerado desses seria o mesmo que “torcer” pelo banco Itaú contra o Bradesco ou vice-versa.

No Brasil, clube de futebol tem estrutura jurídica de “associação sem fins lucrativos”, o mesmo status da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), mas vocês sabem o que acontece por lá, não?

Portanto, temos soldados e generais (jogadores e técnicos) que se bandeiam para as hostes do inimigo e clubes, cujos poderosos donos, se preocupam apenas com lucro, prestígio e outras coisas extrafutebol. Os jogadores são meros funcionários, “profissionais”  muito bem pagos.

Assim, creio que para torcer para a seleção, deveria exigir-se que ela fosse formada por brasileiros que estejam defendendo as cores de times pátrios. Quanto aos clubes, para merecer torcida, teriam de recuar ao tempo em que mobilizavam associados, com alguma coisa em comum – e não hoolingans e baderneiros.

Dito isso, quero dizer que a seleção que mais leva a sério o futebol e a Copa do Mundo é a da Islândia, pois seus atletas não veem os jogos como um caso de vida ou morte ou de defesa da “honra”, seja lá o que isso queira dizer. Os caras estão lá para se divertir e divertir o público, esse que deveria ser o espírito do futebol – e que o esporte vem perdendo.
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Forbes: 23 times de futebol de bilionários.

 

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