Sincronicidade

Conversa com as sombras evocadas

Lia Roger Bastide quando um barulho inesperado de porta se fechando me fez interromper a leitura. Ergui os olhos. Um grande silêncio se fez novamente. Levantei-me e me dirigi à sala, de onde supostamente tinha vindo o barulho. Nada, ninguém. Retornei à biblioteca. Somente ao sentar e retomar a leitura de onde a havia interrompido, no momento exato em que ouvira o barulho da porta se fechando, percebi uma coisa: o barulho se fizera ouvir no exato momento em que lera a frase de Bastide: “…após essa longa conversa com as sombras evocadas…”.

Ocorre que, naquela manhã, eu já havia empilhado sobre a mesa vários livros, folheando páginas, revendo trechos há muito lidos, intercalando entre as páginas marcadores para que aquelas passagens estivessem à mão quando eu delas precisasse. Só então percebi que, assim como fizera Bastide ao escrever o texto que eu tinha diante de mim, eu também evocava sombras de velhos autores, e com elas conversava. Uma biblioteca é, de fato, o lugar por excelência onde sombras são evocadas.

Tem sido assim desde que o Sincronicidade foi criado. Muitas sombras têm sido evocadas, e com elas converso horas a fio, mediado por Dom Cristiano. Sinto sua presença em cada autor que evoco, em cada livro há muito não lido e ao qual retorno para rever ideias há anos adormecidas. Momentos de reencontro, de retomada de antigas reflexões que não levei adiante. Evocações…

Novas apresentações, porém, também têm se verificado. Dom Cristiano tem se encarregado de me apresentar a novos Mestres, estes para mim até então desconhecidos. Quanta descoberta tenho feito! Às vezes a cabeça fica, como se diz, a mil. Aliás, minha cabeça anda a mil, ultimamente, resultado de tantas evocações. O Velho Sábio tem falado, e como! Percebo que ele tem estado atento a todos os meus movimentos, a todos os momentos vividos por mim nesta busca que, agora, ganha novas cores. Há veredas novas sendo abertas, e por elas trafego, em minha incansável peregrinação.

Alguma coisa muito nova e surpreendente se insinua, posso senti-lo até no murmúrio do vento que sopra suavemente esta manhã.  As sombras evocadas, parece-me, se fazem luz. Em tudo isso, uma constante se faz notar: o recorrente apelo do Livro Vermelho…