Cinema às 8

Revitalização adolescente: um olhar sobre o gênero no cinema pós-2000

“Eu, Você e A Garota Que Vai Morrer”, um dos melhores longas adolescentes dos últimos anos.

Populares nos anos 1980, filmes voltados para o público adolescente continuam a permear o imaginário do grande público e se manterem atuais. “A Garota de Rosa Shocking” (1986), “Curtindo a Vida Adoidado” (1986), “De Volta Para o Futuro” (1985) e “O Clube dos Cinco”(1985) mostravam as faces e anseios dos jovens do período. Competentes em mostrar os conflitos dos adolescentes, os longas ainda funcionam como ótimas comédias, tendo alçado seus protagonistas ao estrelato nos anos posteriores, em especial pela contribuição do diretor John Hughes.

Sem grandes expoentes nas décadas subsequentes, com exceção de “As Patricinhas de Beverly Hills” e o maravilhoso “Meninas Malvadas”, o gênero encontrou nova vida no fim dos anos 2000, com ótimos filmes sendo lançados anualmente, que recordam a qualidade dos longas antigos, mas abordam temas como drogas e sexo de forma mais adulta e realista dentro do cotidiano jovem.

Trazendo uma Emma Stone com poucos anos de carreira, “A Mentira” (2010) é desses filmes que deixam o espectador com um sorriso no rosto: sua protagonista carismática, aliada a um roteiro cheio de referências à cultura pop, exemplifica de forma perfeita a atual geração de longas adolescentes, pois os conflitos relatados não se limitam à superficialidade. Olive, a personagem de Stone, é uma jovem consciente de suas ações e, ainda que possua as inseguranças das colegas de sua idade quanto à sexo e amizades, não deixa de fornecer ao espectador informações construtivas sobre a realidade em que vive, mas sempre de uma forma divertida.

“Um Deslize Perigoso”

Pouco conhecidos no Brasil, “Eu, Você e a Garota que Vai Morrer” (2015) e “Um Deslize Perigoso” (2015) seguem a mesma linha, mas aqui a vida pessoal dos jovens fica em segundo plano, colocando as situações em que se encontram em maior evidência, dialogando de forma mais próxima com os filmes dos anos 1980. No primeiro, cujas referências cinematográficas estão entre as melhores dos últimos tempos, o encontro do protagonista com uma doença devastadora e a proximidade da morte mostra uma dinâmica diferente para um jovem ter de lidar com uma situação tão complexa, ao passo de equilibrar isso com a vida escolar.

Mais leve em sua abordagem, mas ainda sincero quanto a relação de jovens negros que vivem próximos do mundo das drogas, “Um Deslize Perigoso” possui um ar de diversão nas empreitadas enfrentadas pelos adolescentes, mas sem esquecer de quão arriscado é aquele mundo.

“Quase 18”

Sucesso nas críticas estadunidenses em 2016, “Quase 18” (que chegou tímido ao Brasil na semana passada), traz a jovem Nadine (Hailee Steinfeld) em busca de lidar com sua melhor amiga namorando seu irmão, enquanto ela mesma procura alguém para si. Por mais clichê que a história soe e de fato seja, o fator de luto no passado da protagonista, traumatizada pela morte do pai, desempenha aqui um papel fundamental para as ações e diálogos da jovem. Nesse aspecto, o filme não fica devendo a nenhum grande drama “adulto”, explorando de forma competente o impacto que a morte de um ente querido traz na vida de uma pessoa, especialmente na de uma jovem em formação.

País de primeiro mundo e vista como um grande lugar para se viver, uma vertente menos conhecida da Inglaterra pode ser encontrada em “King Jack” (2015), onde protagonista-título não apenas vive em uma situação de pobreza, como também busca meios pouco convencionais para conseguir dinheiro, como trabalhar buscando metais para reciclagem nas ruas cheias de miséria na cidade onde vive, até se deparar com uma situação devastadora em sua família.

Um ponto recorrente em todas as obras é o amadurecimento final dessas personagens. Por mais que a passagem de tempo nos filmes seja curta, ao fim da projeção o que se encontra são pessoas lapidadas pelas situações pelas quais passaram. Esse, talvez, seja o aspecto mais positivo das obras do gênero, ao não apenas apresentar situações verossímeis para os jovens, mas mostrar a forma com que eles reagiram e conseguiram superar os problemas e tirar algo bom disso. Menos em “King Jack”. Lá é só desgraça mesmo.

“Mate-me Por Favor”

Voltando o tema para as terras tupiniquins, o recente “Mate-me Por Favor” (2016) trata, a sua própria maneira estranha e subjetiva, dos mesmos conflitos enfrentados pelos jovens estadunidenses. Grupos religiosos voltados para os alunos de uma escola, uma sexualidade fluida, uso de drogas no cotidiano e a forma com que um contexto de insegurança reflete na personalidade dos indivíduos. Nesse ponto, o filme de Anita Rocha da Silveira se diferencia ainda por possuir uma carga dramática mais intensa em suas personagens.

Se os próximos anos continuarem a serem tão frutíferos quanto os últimos, a nova década poderá entrar nos livros sobre Cinema como um ótimo momento para discussão de temas relevantes dentro do universo adolescente.

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