
Mas o que o fazia, nessa idade, trocar a molecagem com os amigos pela letra de uma valsa? “Isso é inexplicável”, divaga Paulo César numa bem humorada conversa por telefone. “Não sabia o que era e me deixava levar. Nem brigava contra. Nem a força da brincadeira me tirava daquilo”. Hoje, com 61 anos, ele só vê uma explicação para o que lhe acontecia na infância: a força da natureza. Mas, ali foi só o início de uma longa vida dedicada à música brasileira que ele começa a narrar em Histórias as minhas canções, lançado pela Editora Leya. O livro, com passagens autobiográficas, reúne histórias envolvendo 65 composições suas ao lado de seus diversos parceiros.
Aliás, quando o assunto é parceria, ele sabe tudo. Sua primeira noite de boemia, ainda aos 14 anos, foi ao lado de Baden Powell e terminou na manhã seguinte, emendando com o colégio. Dois anos depois, o violonista desafiou: “Ta na hora de a gente fazer alguma coisa junto”. Mostrou-lhe uma melodia com um refrão falando de um capoeirista chamado Besouro e intimou-lhe a fazer a letra. Uma semana depois, estava pronta Lapinha, que lhe rendeu o primeiro lugar na 1ª Bienal do Samba e os ciúmes de Vinicius de Moraes que se sentiu traído por Baden. Ainda assim, a parceria rendeu, entre outras, Cai dentro, Vou deitar e rolar, Falei e disse e Aviso aos navegantes, definidos pelo sambista João Nogueira, como “samba de esculachar mulher que larga o homem”.
Em Histórias das minhas canções, Paulo César mistura casos engraçados com assuntos sérios, como seus entraves durante a ditadura. “Eu vivia censurado, tanto no Rio quanto em Brasília. Fui tanto a Brasília pra tentar passar música que hoje eu não gosto de ir lá visitar. Ficou uma impressão horrível”. Certa vez, sabendo que os censores faziam vista grossa para alguns compositores, colocou a letra de Pesadelo junto com as do novo disco de Aguinaldo Timóteo, para conseguir a liberação. Aguinaldo nunca soube, mas o plano deu certo e os versos “Você corta um verso, eu escrevo outro/ Você me prende vivo, eu escapo morto” foram gravados pelo MPB-4.
Entre histórias de alegria, tristeza, amores mal resolvidos e homenagens,
E mais:
> Um nome fundamental na vida de Paulo César Pinheiro foi a cantora Clara Nunes, com quem foi casado por oito anos. Foi vendo o “cantinho” onde ela guardava os santos e orixás, que ele compôs Portela na Avenida. Com a morte da sambista, em 1983, ele compôs, em sua homenagem, a canção Um ser de luz.
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=ogDBDEIKKdc&feature=related[/youtube]> Ainda um adepto da fita cassete, Paulo César Pinheiro mantém um grande acervo de gravações inéditas, inclusive de reuniões de amigos onde sempre tinha muita música. A coleção, que ele não tem idéia do tamanho, inclui gente do quilate de Ismael Silva (14 inéditas, segundo suas contas), Sinval Silva, Cartola e Nelson Cavaquinho.