
Capa do disco “Boas novas”, estreia solo de Zeca Veloso (Siny Music/ Divulgação)
Quando Caetano Veloso reuniu os filhos numa turnê em 2017, a faixa “Um homem” logo tornou-se uma surpresa. A composição de Zeca Veloso remete à força do feminino e causou impacto tanto pela melodia absurdamente íntima quanto pela voz em falsete do filho mais velho de Paula Lavigne. Embora ele já tivesse um trabalho de composição com a banda Dônica, foi ali que, de fato, chamou a atenção do público.
Mas foram preciso sete anos para que Zeca se mostrasse por inteiro. Há uma semana chegou às plataformas digitais seu disco de estreia solo, “Boas novas”. São 10 canções inéditas e autorais, algumas compartilhadas com parceiros, como seu irmão Tom Veloso, que também esteve na turnê familiar. Para puxar esse fio da meada, Tom, Moreno e Caetano retornam para a faixa de abertura do disco, o afo(pop)xé “Salvador”, que tem a maior cara de hit, assim como “Máquina do Rio”, um cruzamento dançante dos sons oitentistas de Gilberto Gil e Lincoln Olivetti. O álbum conta ainda com parcerias e participações de Dora Morelenbaum e Xande de Pilares. A primeira na balada demasiado sensível “A carta” e o segundo no samba clichê “O sal desse chão”.
Pelas pistas ditas até aqui, já fica claro que Zeca não quis arriscar muito longe do terreiro familiar. E é essa margem de segurança que impede “Boas novas” de ser mais do que apenas um bom disco. O canto em falsete foi um recurso que emocionou em 2018, agora soa repetitivo. A faixa-título é uma peça de voz e cordas que tenta arrancar lágrimas, mas pesa a mão nesse desejo. “Desenho de animação” se sai melhor na busca de uma boa canção. Ouvindo ainda “Carolina” e “Tua voz”, fica claro o quanto Zeca é um compositor pretensioso, com boas ideias. Mas falta a experiência com o erro, aquele tempero que só o risco garante. Um ponto positivo é que ele não tentou soar como mais um artista em busca de um lugar ao sol. Filho de quem é, teve à disposição sopros, cordas, todos os recursos necessários para fazer o disco que quis. Embora force a mão na sensibilidade do ouvinte, é certo que ele quis um disco para ser consumido aos poucos e com atenção. E para os tempos atuais, isso já é um grande acerto.