Discografia

Márcia Castro: Sem pecado e com juízo

Não é comum eu me deparar com trabalhos que me peguem logo numa primeira audição. O mais comum é lançar primeiro um olhar desconfiado diante de alguma novidade. Para conquistar logo de primeira, é preciso que o artista não perca tempo e logo nas primeiras notas imprima ali uma boa carga de qualidade. Tamanha introdução é para descrever como me senti logo que ouvi pela primeira vez o disco Pecadinho da baiana Márcia Castro. Lançado em 2007 (Gravadora Eldorado), o disco é marcado pela presença de compositores ditos malditos, como Tom Zé e Sérgio Sampaio. A produção de Luciano Salvador Bahia deu frescor e leveza ao disco da intérprete. Por email, Márcia conversou com o Discografia enquanto prepara seu novo trabalho e contou como começou sua relação com a música e já adiantou seus próximos passos. Confira:

DISCOGRAFIA – Queria que você falasse dos primórdios da sua relação com na música. O que começou ouvindo? O que primeiro lhe chamou atenção?
Márcia Castro – Quando criança, tinha um prazer imenso em ouvir os vinis que meu pai (trompetista na adolescência) colecionava. Eram muitos, de todos os gêneros, sendo o jazz e a música popular brasileira os que mais habitavam a casa. Esses dois estilos me formaram e me transformaram no meu lugar mais profundo. Além dessas audições, que geralmente aconteciam quando eu estava sozinha, à tarde, depois da escola, meu pai ouvia música cotidianamente, tanto em casa, como no carro, sempre me ensinando a diferenciar o timbre dos instrumentos, os ritmos, os gêneros, os cantores e cantoras, o que foi de extrema importância para a minha formação musical. Posso dizer que algo diferente aconteceu quando escutei pela primeira vez Jessé (1952 – 1993) cantando uma música chamada Porto Solidão, aos 10 anos. Aquilo me emocionava demais.

DISCOGRAFIA – Sua carreira musical começa aos 16 anos como violonista e cantora em espetáculos teatrais. Como eram esses espetáculos?
MC – Eu participava dos espetáculos musicais como “cantriz”. Nessa época, fazia faculdade de música da universidade federal da Bahia, que ficava ao lado da faculdade de teatro. Uma grande amiga, dramaturga, me inseriu naquele universo e eu agradeci, pois foi uma imersão muito importante para um entendimento crucial da experiência cênica. Além de tudo, participar do trabalho intenso do ator, de sua preparação para o palco, me ensinou muito. Me interesso pelos personagens, na canção, no palco, ou na vida cotidiana. Penso que todos somos personagens.

DISCOGRAFIA – Gostaria que você falasse sobre sua formação e suas influências. É verdade que seu pai queria que você se chamasse Elis Regina?
MC – Quando criança, habituei-me a ouvir jazz e música popular brasileira por conta de meu pai. Ele foi meu grande tutor musical. Esses dois estilos me formaram e me transformaram no meu lugar mais profundo. No jazz, nomes como Chet Baker, Miles Davis, Nina Simone, Billie Holiday, Sarah Voughan, etc. Na MPB, Tom Jobim, Gilberto Gil, João Gilberto, Elis Regina, Egberto Gismonti, Maria Bethânia, enfim, são muitos nomes…. Na adolescência, isso tudo se misturou à efervescência da música baiana. A música erudita experimental me instigou na universidade de música, de John Cage a Stockhousen. Mais tarde, já mais madura, comecei a me interessar pelo rock nos anos 60 e 70. Tudo isso e muito mais me povoou, aliás, me povoa e essas citações ainda não são suficientes para responder a pergunta. Voltando a meu pai, ele era tão aficionado por Elis que queria me batizar com esse nome. Minha mãe não permitiu. Acho que foi melhor.

DISCOGRAFIA – Queria que você lembrasse como foi seu primeiro show autoral “No arco da lua, na linha do sol”. O que era o repertório e quem a acompanhava?
MC – Foi meu primeiro show autoral, no qual eu cantava músicas de autores da cena MPB baiana, como Luciano Salvador Bahia e Arnaldo Almeida, releituras de músicas não tão conhecidas do grande público, além de me lançar pela primeira vez como compositora. Luciano Salvador Bahia, que conheci fazendo direção musical de espetáculos de teatro, era o arranjador e diretor musical. Alem dele, Alexandre Montenegro (baixo), Cássio (bateria), Jurandir Santana (guitarra) e Jorge Farofa (percussão).

DISCOGRAFIA – Como aconteceu o seu encontro com Mercedes Sosa? Como foram os dias excursionando com ela?
MC – Não esperava o convite. Em Roma, com meu ex-empresário e amigo de Mercedes, assistimos a passagem de som do show que ela faria ali no dia 09 de julho, dia do seu aniversário e da independência da Argentina. Após os ajustes técnicos, Mercedes me convidou para dividir com ela a música Insensatez, sem ensaiar, sem roupa, sem nenhuma máscara. Só nós, a música e aquele sem fim de pessoas, dentre as quais muitos argentinos em comemoração dupla pela data, num teatro deslumbrante. Entrei no palco tremendo. Saí do mesmo modo, trêmula, mas extasiada. Depois disso, foram mais 10 shows pelo mundo com La Negra, sendo que o último aconteceu em Salvador, o que foi extremamente significativo para mim. Momentos profundos em minha vida, nos quais tive a oportunidade de compartilhar da generosidade de uma artista que viveu para o seu povo, para as pessoas, e fazia da música esse instrumentos de comunhão.

DISCOGRAFIA – Sua estreia em disco já chama atenção pela capa e pelas fotos internas. Queria que você falasse sobre este primeiro trabalho. Qual era sua proposta? Como escolheu repertório?
MC – Eu já estava fazendo um trabalho de pesquisa de canções desde o show “No arco da lua, a linha do sol”. Queria misturar coisas contemporâneas com coisas feitas tempos atrás e que não chegaram no grande circuito. Essa era a única certeza. Ouvi muita coisa, inédita, não inédita. Descobri universos novos, como o trabalho de Itamar Assumpção. O conceito foi se desenhando espontaneamente. Existia um link entre as canções escolhidas. O que fiz foi desvendar o que estava por trás de minhas escolhas e, então, esse seria o conceito do trabalho, que determinaria os caminhos gráficos e de imagem. Antes disso, a música. E antes da musica, aquele meu momento, a minha vida. A arte foi uma expressão disso tudo. Talvez, eu estivesse numa fase de pequenas transgressões, infantil e curiosa. Daí o título “Pecadinho”.

DISCOGRAFIA – Você abre o disco com a ótima “Frevo”, de Tom Zé, que também participou do clipe desta música e em seguida lhe convidou para participar do disco “Estudando a Bossa”. Como foi seu encontro com o baiano?
MC – Assim que o disco ficou pronto, eu enviei para Tom Zé. Ele havia sido muito gentil no trato com a editora para as questões de direito autoral. Além disso, pensei ser importante mostrar a minha leitura sobre a obra dele. Desejava essa apreciação. Ele me ligou dias depois, inesperadamente. Tomei um susto, pois ele sempre foi uma das minhas grandes inspirações, e estava ali, pertinho de mim. Derreteu-se em elogios. Aproximamos o nosso contato e, então, fiz o convite para a participação no meu primeiro clipe, o frevo “Pecadinho”, com direção de Marcondes Dourado. Ele topou. Meses depois, ele e Patrícia Palumbo (jornalista paulista que fez a seleção de cantoras para o último trabalho de Tom Zé) me convidaram para gravar a música “O Filho do Pato” no disco “Estudando a Bossa”. A música, por si, nos aproximou. E assim persiste. Meus encontros com Tom Zé são em shows, em filmes, espaços onde a arte abre um diálogo comum. Gosto muito disso.

DISCOGRAFIA – Outra presença importante no disco é a Zélia Duncan. Como foi o encontro com ela?
MC – O encontro com Zélia se deu através de Roque Ferreira, um sambista baiano, um dos maiores do Brasil. Zélia é fascinada pelo seu trabalho. Gravei uma música de Roque chamada “Barulho”. E nas conversas que tínhamos no processo, eu falava da minha vontade de ter alguém especial dividindo esse vocal comigo. Pensamos em Zélia, por quem tenho muita admiração. Ele disse que poderia fazer essa ponte. E fez. Zélia topou. Ficamos muito felizes, todos!

DISCOGRAFIA “Pecadinho” é um disco com forte acento autoral, embora não tenha nenhuma composição sua. Já pensou em se arriscar pelo ofício de compositora?
MC – Sim. Já o fiz no “No arco da lua, na linha do sol”, com a música “O risco”. Tenho dois novos projetos engatilhados, num deles, a compositora vai se apresentar. E cheia de prazer!

DISCOGRAFIA – Você está agora preparando o sucessor de Pecadinho. O que você pode adiantar sobre este seu novo disco? Quando ele fica pronto?
MC – Como disse acima, tenho dois projetos engatilhados, em processo de gravação, que serão sucessores do Pecadinho. Um deles tem previsão para lançamento ainda esse ano. Nele, uma produção com Gui Amabis (co-produtor do último trabalho de Céu), estão presentes figuras como Jacques Morelenbaum, Dengue (Nação Zumbi) e a participação luxuosa da cantora cabo-verdiana Mayra Andrade. Prefiro aguardar o momento certo para dar os detalhes com maior precisão.

DISCOGRAFIA – Com as boas críticas ao seu primeiro trabalho e a experiência acumulada nos últimos anos, como está a expectativa para este segundo trabalho?
MC – Grande. Depois que o primeiro disco surge com o abraço da critica, o segundo disco vira a prova se o artista realmente dará continuidade ao seu trabalho de modo coerente. Bom, eu me despi dessa preocupação e estou fazendo o mais sincero de mim. E, por isso, acredito que já é um grande sucesso. Antes de tudo, é para mim!

DISCOGRAFIA – O que você acha da atual produção musical baiana?
MC – Muitos trabalhos maravilhosos surgem na Bahia. A orquestra Rumpilezz, grupo instrumental que misturas ritmos afrobaianos com o jazz, foi uma das coisas mais arrebatadoras que vi nos últimos tempos. O cantor e compositor Tigana Santana. Temos na MPB nomes como Claudia Cunha, Manuela Rodrigues e Mariella Santiago. Temos o Baiana System, que traz uma nova leitura para a guitarra baiana, misturando sonoridades de música baiana com o rap, o dub e o conceito de sound system. Temos o rock do Cascadura e Retrofoguetes. Temos a sambista Mariene de Castro. Temos a Black Music de Dão. Enfim, um universo cheio de vida e de muitas possibilidades. Pena que ainda nossa produção, no sentido comercial, esteja ainda absolutamente voltada para o axé music.