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A ideia de gravar um DVD dentro da própria casa parece bem inusitada num primeiro momento, mas não impossível. Por sorte, existem aqueles que buscam o inusitado. Arnaldo Antunes fez isso na hora fazer o registro do seu novo e ótimo show Iê Iê Iê.O show Ao Vivo Lá em Casa (fotografado por Fernando Laszlo) foi registrado por Andrucha Waddington  em 9 de agosto de 2010 na casa do ex-Titã e o resultado é no mínimo curioso. Variando imagens da apresentação realizada na varanda do andar superior com cenas caseiras cheias de filhos, amigos e intimidades, o DVD não é uma espécie de reality show voluntário de Arnaldo, mas, sim, mas uma boa ideia do artista mutante que parece não cansar nunca de buscar o novo.  Assim como na turnê que já passou duas vezes por Fortaleza, a banda que o acompanha no show é formada por Edgard Scandurra e Chico Salém nas guitarras, Betão Aguiar no baixo, Curumin na bateria e Marcelo Jeneci nos teclados. Como se bastasse o repertório com canções do disco Iê Iê Iê (Rosa Celeste, 2009) com Americana e Pra aquietar, Arnaldo ainda convidou para cantar o grande Erasmo Carlos, o mestre Jorge Ben Jor e o nosso conterrâneo Fernando Catatau. Na abertura, fazendo uma vinheta ao vivo, os lendários Demônios da Garoa cantam Já fui uma brasa, piada-homenagem de Adoniran Barbosa sobre os então recentes meninos do Iê Iê Iê. Simpático e solícito, Arnaldo Antunes conversou com o DISCOGRAFIA sobre este novo trabalho e já apresentou planos futuros: um disco em parceria com o guitarrista Edgard Scandurra. Acompanhe.

DISCOGRAFIA – Comece falando sobre gravar um show em casa. Como veio a ideia?

Arnaldo Antunes – A ideia veio na hora de fazer a versão em DVD do show Iê Iê Iê. O desejo de fazer esse DVD na minha casa já é antigo. Estou morando nessaa casa há oito anos e sempre via terraço como um palco perfeito. Ou seja, é um desejo antigo que vem a partir da própria configuração da casa.

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DISCOGRAFIA – Mas, e como sua família recebeu esta proposta?

Arnaldo Antunes – Tenho quatro filhos: a Rosa (22), a Celeste (19), o Brás (13) e o Tomé (8) e meu enteado Pedro, filho da Márcia. Nos dias que antecederam a gravação, a casa foi tomada pala produção e nós mudamos para outra casa. Aqui, cada um tem o seu quarto e a casa teve que ser toda adaptada para a chegada dos equipamentos e dos técnicos. Eles acompanharam tudo e eles viram a bagunça acontecendo. Mas, todos deram a maior força e acabaram aproveitando. No antes do DVD (nos extras) nós mostramos isso. No dia da gravação, estavam todos lá, amigos, filhos, amigos dos filhos.

DISCOGRAFIA – Este seu Ao Vivo Lá Em Casa nasceu de uma parceria com a Natura e com o canal VH1, que está entrando nessa seara de produção nacional de musicais, assim como a Natura. O que tem achado desses novos parceiros?

Arnaldo Antunes – Eu acho muito legal porque acabou o período em que a indústria fonográfica bancava tudo. Isso mudou a configuração do mercado. A Natura tem muitos projetos de gravação de shows e filmes, produção de shows. Quando surgiu esse DVD, eles também decidiram produzir. E a VH1 foi uma parceria muito feliz. Acho que acabam sendo alternativas para essa crise no mercado. Essas empresas acabam fazendo esse papel que antes era da indústria fonográfica.

DISCOGRAFIA – Já que você falou no assunto, como você essa crise no mercado de discos e os downloads?

Arnaldo Antunes – As coisas estão mudando de forma muito rápida. Eu adoro loja de discos e de escolher discos pela capa. Acho que vai continuar existindo os discos, junto com a música virtual. Tem vários fatores para a crise do disco como mercado, mas a venda de música virtual vem crescendo. Ao baixar as músicas, você deixa de pagar um monte de gente, mas isso também virou uma forma de divulgar o trabalho. Acho que aumentou muito o número de emissoras de TV a cabo, o que aumenta também os programas musicais. Hoje, já é possível ter um estúdio na garagem de casa sem ter que pagar estúdios caríssimos. Isso significa tudo mais nas mãos dos criadores, o que é uma revolução. É um cenário que tem coisas boas que vão se equilibrando. É interessante poder baixar música, mas é interessante a sociedade ter um artista pago como um profissional. Essas novas formas de patrocínio apontam um novo caminho.

DISCOGRAFIA – Voltando ao disco, uma coisa que chamou a atenção quando vi os bastidores da gravação foi sua emoção ao receber seus convidados, todos grandes referências.

Arnaldo Antunes – Que honra ter esses monstros na minha casa. Do Jorge (Ben), sou fãzaço da obra toda. O Erasmo (Carlos) foi de uma gentileza absurda. Claro que tinha um desejo de chamá-lo por conta do conceito Iê Iê Iê e teve a coincidência dele lançar o (disco) Rock’n Roll. Ele que surgiu dentro de um contexto chamado Iê Iê Iê. A gente se aproximou, eu convidei e ele topou fazer. Foi uma homenagem a ele que é um pioneiro. O Ben Jor, como eu falo, sempre foi um ídolo. A gente já vinha tocando o Cabelo com um arranjo, mas ele chegou com outro no gravadorzinho dele. A gente combinou uma coisa, mas na hora muda tudo. Não tinha nada certo. Já os Demônios da Garoa, a gente já vinha fazendo Já fui uma brasa como introdução pro show, por conta da referência de um cara do samba (Adoniran) falando da chegada dos meninos do rock. Foi uma gravação muito generosa da parte do dele e tivemos a ideia de convidá-los pra tocar no DVD.

DISCOGRAFIA – Outro convidado é o nosso conterrâneo Fernando Catatau, com quem você vem fazendo uma ótima parceria. Como se deu esse encontro?

Arnaldo Antunes – Conheci o Fernando pelo trabalho do Cidadão Instigado. Pessoalmente, foi numa apresentação num restaurante que o Edgard (Scandurra) tinha chamado Petit Trou. Ele aproveitava o lugar e fazia apresentações com músicas do Serge Gainsbourg. Foi quando o Fernando tava vindo morar em São Paulo. Depois, começamos a nos encontrar em lugares, falei que gostava da banda. 

DISCOGRAFIA – E daí nasceu o convite pro Catatau produzir o (disco) Iê Iê Iê.

Arnaldo Antunes – Foi um encontro muito feliz. Tinha um lado de pesquisa musical, uma síntese que eu tava buscando. O Catatau tocou junto no show. Na época da produção do (disco) Iê Iê Iê, eu disse a ele “vou fazer este disco, mas queria que soasse com as minhas marcas de composição e com uma sonoridade dos anos 60”. 

DISCOGRAFIA – E foi ele quem lhe apresentou a música Ela é americana.

Arnaldo Antunes – Ele me apresentou a Americana numa gravação do Solano e Seu Conjunto. Eu não conhecia. Essa música, na hora que eu ouvi, disse que queria gravar. Ela tem um significado político, travestido de uma coisa amorosa que achei incrível. Quando ele fala em “americana”, logo se pensa nos Estados Unidos, e ele vem com o da América do Sul. Porque só a América  do Norte é América? Tem também uma coisa muito positiva.

DISCOGRAFIA – Acho que nem o compositor fez essa análise quando estava escrevendo a música. Engraçado você não conhecer esta música. Aqui no Ceará ela é super popular.

Arnaldo Antunes – Pois é, eu não conhecia. E adorei.

DISCOGRAFIA – Você é um artista de criatividade múltipla e ao mesmo tempo um dos mais bem sucedidos comercialmente. Como faz pra equilibrar a profusão de ideias sem perder perfil comercial de um produto?

Arnaldo Antunes – O que acontece é que eu tenho um desejo de não ficar repetindo. Hoje, gravação de DVD acabou ficando tudo igual. No meu anterior (Ao Vivo no Estúdio), saí um pouco da coisa do show. Agora, queria uma coisa que fosse original, que saísse um pouco do repetitivo.

DISCOGRAFIAS – Apesar de novo trabalho ainda ser tão recente, você já pensa em novos projetos?

Arnaldo Antunes – Estou ainda sem planos. Ano que vem vou ficar excursionando. Tenho ainda um projeto paralelo onde venho fazendo shows só com o Edgard. É um formato bem minimalista tocando nossas parcerias. Começamos a compor e já estamos com um projeto de gravar somente os dois. Espero que nós voltemos a Fortaleza em breve pra apresentar este trabalho por aí.

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