
Figura proeminente do rock nacional oitentista, Lobão muitas vezes deixou essa carreira ser eclipsada por sua mania de funcionar como consciência coletiva da humanidade. Isso o fez ser mais conhecido por novas gerações mais pelo jeito falastrão, do que por suas canções. Dessa forma, Lobão 81-91 reapresenta belas canções como Por tudo que for e Azul e Amarelo, curiosa parceria de Lobão com Cazuza e Cartola. Tem ainda roquinhos pós-Jovem Guarda como Corações psicodélicos e Cena de cinema, e críticas afiadas como O eleito e Presidente mauricinho, ambas dedicadas a um certo presidente que gostava de jet ski e aviões de caça.
A caixa de Pandora
Se Lobão 81-91 apresenta faixas outrora lançadas desorganizadamente em CD, A Caixa e Pandora ganha por trazer um bom e curioso material inédito. Um destaque fica para Amigo (Roberto/ Erasmo), que virou um choro dividido com Fagner, e Águas de Março, de Tom Jobim, em versão diferente da apresentada no disco Estação Brasil (2003). O que era uma bossa nova, vira um baião temperado com flautas. Baião é o que ele faz também com Não quero dinheiro, de Tim Maia. Das inéditas, seis foram gravadas para o disco Zé Ramalho canta Raul Seixas (2001). São elas, As profecias, Água viva, Cachorro urubu, A hora do trem passar, Loteria da Babilõnia e Gitâ.
Como intérprete, Zé Ramalho transborda personalidade no tom soturno que dá para Errare humanun est, do clássico A Tábua de esmeralda de Jorge Ben Jor, e O que é O que é, de Gonzaguinha. Sem medo de comparações, Zé transforma Bete Balanço (Cazuza/Frejat) num… em algo inclassificável. Como compositor, ele junta referências à família, misticismo, política e vida, criando uma poesia afiada que, junto com seu canto apocalíptico, faz desta Caixa de Pandora um bom retrato do que é a obra de Zé Ramalho da Paraíba.